Associado do colectivo californiano Odd Future (que tem vindo a ganhar uma crescente visibilidade à conta de Tyler, the Creator e Earl Sweatshirt), Frank Ocean é, provavelmente, o artista mais deslocado do perfil do grupo: é (mais) sério, é recatado e mostra-se muito mais afecto ao R&B e à Soul do que ao Hip-Hop caótico dos amigos. Depois da estreia nos lançamentos em 2011, com a mixtape Nostalgia, Ultra, Ocean reservou para 2012 aquele que tem sido um dos mais badalados álbuns do ano: Channel Orange. Lançado a 10 de Julho, o primeiro LP do norte-americano será o alvo da crítica de hoje. 

Por esta altura, já quase toda a gente atenta ao mundo da música ouviu falar, nem que seja de forma muito superficial, de Frank Ocean e do seu Channel Orange e da forma como este, juntamente com Kaleidoscope Dream do norte-americano Miguel, está a mudar o panorama do R&B contemporâneo. Essa postura inovadora e arrojada tem valido a Ocean uma aclamação crítica tremenda, com o seu disco a perfilar em grande parte das listas de final de ano que por aí se vêem.

Todo este hype à volta do álbum, devo confessar, suscitou em mim uma curiosidade muito grande para escutar a bendita “obra-prima” da música Pop de 2012. Porém, após várias e atentas audições do disco, tenho a dizer que, infelizmente, não compartilho por inteiro da tremenda excitação que tanta gente sentiu com o début de Frank Ocean: apesar de ser um bom LP, Channel Orange não está, a meu ver, ao nível dos melhores do ano.

Apoiando-se numa produção refinada e doce (a cargo de Ocean, com ajuda de Malay, Om’mas Keith e Pharrell) e numa instrumentação que, por oposição à colagem de samples de Nostalgia Ultra, se mostra bastante analógica e “palpável”, Channel Orange oferece-nos uma sonoridade muito quente e intensa, rica em sintetizadores densos, beats pulsantes e um baixo cheio de groove. Extremamente ambicioso e evocando influências como Prince, Stevie Wonder ou Otis Redding, este LP consegue reter grande parte do apelo à dança inerente do R&B e, ainda assim, atingir um nível de envolvência mental notável.

É nas letras, porém, que Channel Orange se assume como uma ruptura do “cânone” que o R&B mais comercial estabeleceu no género. Fugindo aos clichés sexistas e egocêntricos de artistas como R. Kelly ou Usher, Frank Ocean aposta numa lírica inteligente, cheia de duplos sentidos (com expoente máximo em Pyramids) e centrada em temas mais pessoais e intimistas. Amores não correspondidos, dúvidas existenciais, oposição entre estilos de vida modestos e faustosos, toxicodependência, todos estes tópicos são alvo de dissertações por parte de Ocean, num estilo centrado numa descrição narrativa exaustiva e que trata cada canção como se fosse uma história individual. A sublinhar tudo isto de forma soberba está a versátil entrega vocal do artista, num registo reminiscente da Neo Soul nascida nos anos 90.

Contudo, mesmo com todas estas belas qualidades, não pude deixar de ver este Channel Orange como uma obra que, apesar da sua grande ambição, fica um pouco aquém daquilo a que se propõe. Lembrando-me a imagem dum gigante com pés de barro, o disco de estreia de Frank Ocean acaba por ser minado, na minha opinião, por uma grande inconsistência, que faz com que a qualidade das canções, apesar de ser na maioria das vezes positiva, vá flutuando de forma errática.

Quanto à escolha de peças individuais, devo realçar a suave Thinkin’ ‘Bout You, a entusiasmante Sweet Life, a delicada Crack Rock, a portentosa Pyramids e a vibrante Monks como as minhas canções favoritas de Channel Orange. Por outro lado, as desinteressantes Sierra Leone, Pilot Jones e Bad Religion são, a meu ver, as faixas menos conseguidas deste álbum.

Resumindo, no seu primeiro longa-duração o norte-americano Frank Ocean traz-nos um trabalho muito interessante, bem conseguido e que demonstra uma tentativa de dar um novo rumo ao R&B contemporâneo e libertá-lo dos clichés ignóbeis que o contaminaram durante os últimos anos. Infelizmente, não é uma obra perfeita e falha em atingir a grandiosidade que apregoa e que nos tem sido vendida; contudo, apesar dessa falha, este Channel Orange consegue ser uma bela estreia e que deixa antever um grande futuro para Frank Ocean. E nós estamos cá para o presenciar.

Nota Final: 7.5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945