A ideia de fazer um concerto a celebrar o início do mundo não é inteiramente nova, mas não deixa de ser uma boa desculpa para juntar duas das melhores bandas nacionais no mesmo espaço: os Bizarra Locomotiva e os Moonspell, no denominado O Fim do Mundo. 

E por isso, desde já, saúda-se a iniciativa por parte da Rockline Tribe em ter organizado este evento. Já não é a primeira vez que a promotora concebe concertos em que o produto nacional mais pesado é exposto para o deleite de todos os metaleiros. Num concerto que esgotou (!!!), apenas apontar alguns problemas logísticos e de espaço em relação ao TMN ao Vivo, já que ainda se encontravam pessoas a tentar entrar quando os Bizarra Locomotiva subiram ao palco.

Os Bizarra Locomotiva,  em antevisão a este evento, informaram o incautos leitores do Metro que os seus “concertos são sempre um pouco apocalípticos”. Tal afirmação não podia ser mais verdadeira. Para quem não conhece a sua sonoridade, imagine-se se os Mão Morta tivessem um caso amoroso com Álvaro de Campos, e a criança aberrante tivesse sido alimentada a fuligem e ferro, negligenciada e mal-tratada. Tal descrição serve para demonstrar o caos industrial e lunático que os Bizarra Locomotiva praticam em palco, com um Rui Sidónio inquieto, sempre prestes a explodir, que não comunica com a audiência senão através da sua expressão corporal.

bizarra

Durante uma hora e um quarto, o TMN ao Vivo tornou-se num consultório onde foram expelidas todas as ansiedades, medos, taras, manias, traumas e fetiches da mente humana, sobre forma musical. A nível de som, o seu concerto foi muito consistente (embora com problemas pontuais de feedback) e com o baixista Twiggy, o som dos Bizarra passou de portentoso para absolutamente monolítico, digno da ocasião em causa. Num alinhamento que apenas pecou pela falta de surpresas para quem tem acompanhado a banda, a audiência foi presenteada com a abertura furiosa de Egodescentralizado e Apêndices, seguida de grandes temas como Desgraçado de Bordo, Gatos de Asfalto, Cada Homem e, em particular, Procissão dos Édipos. Esta última, com a sua cadência repetitiva e com os samples dos sinos, pareceu abrir as portas do inferno em Lisboa.

Na recta final do concerto, os Bizarra Locomotiva tiveram o prazer de ter Fernando Ribeiro em palco para replicar a sua participação em O Anjo Exilado, mostrando ser unha e carne com Rui Sidónio, e ainda O Escaravelho, conhecido staple final dos concertos dos Bizarra. Novamente o conjunto mostrou que só não participa em voos mais altos como os Moonspell pelo facto de cantarem exclusivamente em português. Isso tem tanto de handicap a nível comercial, como lhes confere uma personalidade única e vincada, traduzindo-se num estatuto de banda de culto.

Alinhamento:

Egodescentralizado
Apêndices
Desgraçado de Bordo
Gatos de Asfalto
Fantasma
Procissão dos Édipos
Cada Homem
Esgástulo
Frio
Moscas
Buraco Negro
Druídas
Cavalo Alado
Engodo
Anjo Exilado
Escaravelho

Já os Moonspell (que dispensam apresentações), regressados da digressão na América do Sul, mostraram-se em estado de graça pelo sucesso de Alpha Noir/Omega White e regozijados por poderem terminar o seu ano em terras lusas, depois de terem iniciado a tour num concerto no Campo Pequeno. Ainda para mais sendo este o ano do seu 20.º aniversário, um feito nada mais, nada menos do que absolutamente notável. E parecem ter trazido o calor com eles, pois por esta altura o TMN ao Vivo estava um forno. O quinteto esteve bem oleado e não mostrou sinais de cansaço, com um alinhamento bastante variado que percorreu todas as fases da sua ilustre carreira, desde o black metal do início, passando pela fase mais gótica do final dos anos 90, e comtemplando, pois claro, a direcção mais extrema que tomaram já depois da viragem do milénio.

moonspell(4)

Foi com duas músicas de Alpha Noir que os Moonspell deram o tiro de partida, denotando imediatamente a “grandeza” do material mais recente, qualidade essa que aliada a uma componente fortemente teatral, sempre caracterizou a banda lisboeta, conferindo-lhe um cariz romântico, português dir-se-ia até. Fernando Ribeiro, que entrou em palco com um capacete de guerra grego, seria a completa antítese de Rui Sidónio. Comunicativo (às vezes até demais) e bem-disposto, o vocalista guiaria as hostes durante pelo menos mais de hora e meiade música extrema.

Que os Moonspell têm um repertório bastante inspirado pela ideia do fim do mundo não é novidade nenhuma. Finisterra e Night Eternal deram o mote para a danação da Terra e Opium revelou a tendência intrínseca do ser humano para a auto-destruição. Seguiu-se então a fase mais gótica com Abysmo, Soulsick e Butterfly FX (com a lupina Lickanthrope pelo meio), até chegarmos a um dos momentos altos da noite. Levanta-se o pano e na tela está projectado “medo” em letras garrafais. Em Nome do Medo, totalmente cantada em português, foi das que mais puxou pela participação da audiência, talvez servindo de incentivo para que os Moonspell escrevam mais em português no futuro.

Se o público já podia se orgulhar de ter assistido a um belo concerto, então a partir deste momento ficou completamente extasiado. Vampiria levou o público à Transilvânia, as odes à Lusitânia Alma Mater e (surpresa das surpresas!) Ateagina foram os momentos mágicos que quem já assistiu a um concerto de Moonspell conhece. Grandstand é das melhores músicas do novo álbum e mostrou como até é uma boa ideia meter o Ricardo Amorim a solar. “Finalizando” em grande beleza, Full Moon Madness pôs toda a gente em trânse, a uivar sob o feitiço da Lua. Infelizmente, pelo menos da perspectiva deste que vos escreve, nem tudo foi rosas pois encore não foi tão bem conseguido como o resto do concerto. Embora seja comendável a tentativa de fazer algo diferente, as três músicas escolhidas de The Antidote não tiveram o mesmo impacto para finalizar a actuação que as anteriores Full Moon Madness ou Alma Mater teriam tido, tendo também em conta que clássicos como Wolfshade e Mephisto ficaram de fora.

Depois do concerto, seguiram-se 4 horas de Dj’ing a cargo dos organizadores Izzy e Carlão e do mago António Freitas, com clássicos da música pesada a permearem o TMN até altas horas da madrugada. Depois de dois concertos tão bem conseguidos em criar uma atmosfera dicotómica de celebração/desespero, fiquei algo desapontado por não encontrar uma Lisboa desértica, vítima de um qualquer holocausto nuclear ou epidemia zombi, mas passou por mim um carro a passar o Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha numa versão de Hard Step, portanto se calhar é quase a mesma coisa. Que venham mais fins do mundo que a malta agradece.

Alinhamento:

Axis Mundi
Alpha Noir
Finisterra
Night Eternal
Opium
Awake
Abysmo
Lickanthorpe
Soulsick
Butterfly FX
Em Nome do Medo
Vampiria
Alma Mater
Grandstand
Ataegina
Full Moon Madness

Encore

In and Above Men
From Lowering Skies
Antidote