Tem dividido opiniões, mas para a Cahiers du Cinema ou o site Indiewire é o melhor filme de 2012. Holy Motors estreia comercialmente esta Quinta-feira e vai dar que falar. Leos Carax reuniu uma boa quantidade de ideias que prometiam muito, mas decidiu nada fazer com elas, criando um nonsense que, ainda assim, agrada a muita gente.

 Holy Motors apresenta-nos algumas horas da existência do senhor Oscar, um ser que viaja de vida em vida. Ora é um abastado homem de negócios, ora um assassino, ora um pedinte, ora um pai de família. Ao longo de todas estas experiências ele está sozinho, sendo Céline a única pessoa que o acompanha, aos comandos da imensa limousine que o transporta. Mas afinal, quem é Oscar? Onde fica a sua casa? Onde está a sua família e o seu descanso?

Um elogio ou uma sátira ao trabalho de actor? Um retrato do cinema nas suas mais diversas vertentes? Uma chamada de atenção ao público contemporâneo que não compreende o cinema? O que quer que seja que o realizador tenha tentado transmitir com este filme, certo é que não descobrimos. Leos Carax apresenta-nos um universo sem sentido onde, por muito que tentemos, não conseguimos descortinar nem uma ponta de lógica ou de significância. E é isso que mais deixa o espectador frustrado ao assistir a Holy Motors. Um filme que promete demasiado para aquilo que não oferece.

Numa espécie de prólogo, o realizador entra neste filme a olhar de uma varanda para um cinema, onde a plateia se encontra a dormir perante o ecrã. Mas depois do que poderia ser uma chamada de atenção, assistimos a um divagar, a um desfilar de personagens, histórias, todas elas protagonizadas por Oscar, o protagonista, cujo o emprego parece ser viver vidas de outros, e que nada traduzem no final.  Sobre Oscar nada sabemos para além do nome e certo é que sempre que pensamos ter descoberto algo relativamente a si percebemos que tudo não passa de ilusão. Não o conhecemos em nenhum momento do filme.

Um elemento importante em Holy Motors é a limousine que transporta Oscar para todos os trabalhos que vão surgindo ao longo do dia. Esta surge aqui tal como em Cosmopolis, como um lugar de fuga, o único local onde Oscar abandona as personagens e se encontra a si mesmo, mesmo que continuemos sem saber quem é ele. Ele veste a pele de banqueiro, pedinte, especialista em motion capture, Monsieur Merde, Pai, Acordeonista, Assassino, Vítima, entre outras personagens, e em momento algum encontramos o elo de ligação entre cada um, o motivo para que contribuam para a mensagem que a longa-metragem pretende passar, se é que ela existe.

Há, contudo, dois grandes momentos em Holy Motors e são ambos musicais: o “intervalo”, onde, através do acordeonista e de um conjunto de músicos, Leos Carax nos proporciona um fantástico plano-sequência; e a entrada de Kylie Minogue, que protagoniza a cena romântica da longa-metragem e interpreta o bonito tema Who Were We?. Tecnicamente, a banda sonora e a fotografia são igualmente dois pontos fortes deste Holy Motors.

No elenco, Denis Lavant merece receber todos os louros. Ele interpreta cada personagem com tudo o que ela pede. Seja a classe do banqueiro ou a asquerosidade de Monsieur Merde, o actor entrega-se de forma brilhante a todos eles. Kylie Minogue merece também destaque, apesar da sua pequena aparição, com uma interpretação marcante. A lembrança da personagem Monsieur Merde, já anteriormente interpretada por Lavant, e a subtil introdução da máscara que Céline usa no final de Holy Motors, que é a mesma que a actriz que a interpreta, Édith Scob, utilizou há décadas atrás no filme Les Yeux sans Visage, poderão reforçar a possível homenagem do trabalho dos actores, mas nunca há algo que confirme esta possibilidade.

Leos Carax apostou em algo demasiado experimentalista, argumentativamente confuso, e que não se traduz em nada de concreto. Poderia este ser um filme demasiado pessoal para ser percebido, mas não para ser sentido. E essa ausência sente-se. Chegamos ao fim, com mais uma cena que poderia conferir a coerência e o sentimento que falta ao longo de Holy Motors, mas que afinal não acrescenta nada ao todo.

Seremos nós aqueles espectadores que dormem perante o filme que está a ser projectado à sua frente? Mas afinal, o que é que Carax quer nós vejamos, um aglomerado de ideias não finalizadas? Ou quererá ele acordar-nos para nos contar unicamente os sonhos desconexos que teve na noite passada?

4/10

Ficha Técnica:

Título Original: Holy Motors

Realizador: Leos Carax

Argumento: Leos Carax

Actores: Denis Lavant, Édith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Michel Piccoli, Jeanne Disson

Género: Drama, Ficção Científica

Duração: 115 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.