O Teatro Aberto levará ao palco Há muitas razões para uma pessoa querer ser bonita, de Neil LaBute. Encenado por João Lourenço com o auxílio de Vera San Payo de Lemos, o quotidiano da juventude é exposto por Ana Guiomar, Jorge Corrula, Sara Prata e Tomás Alves de uma forma bem conseguida, rápida e vibrante.

Em duas horas, os encenadores e a sua equipa de atores conseguem transpor para o palco a vida quotidiana dos jovens. Numa transparência total de ódios, amores, incompreensões, egoísmo, maldade e perversidade, as quatro personagens dão à sua audiência diferentes perspetivas da importância da beleza na juventude.

Numa peça dirigida sobretudo ao público juvenil, é possível que se abra a porta de saída do auditório a pensar “A minha vida é mesmo aquilo”. Eis, portanto, o sucesso de LaBute na sua tentativa de expor o dia-a-dia juvenil.

A um ritmo alucinante e com a combinação de elementos multimédia, João Lourenço e Vera San Payo conseguem com sucesso demonstrar os clichés desta classe tão poucas vezes respeitada. Embora tenha tentado mostrar o subtexto ao público, talvez não o tenha feito da melhor forma. Esta peça pode assim ser vista pelo público menos entendido como puro entretenimento, e pouco mais que isso. Simples entretenimento, de uma peça que faz rir e que demonstra algumas maldades da sociedade, mas que não nos deixa a pensar nelas.

No meio de discussões, desentendimentos e reconciliações, sempre com o amor presente, figura omnipresente impossível de se desligar do ser humano, assiste-se a uma cena de luta entre dois personagens. Numa briga mal simulada, e parecendo-me não essencial para a encenação, os dois atores, com maior atividade em cinema e televisão, deixam algo a desejar em cima do palco, onde o contacto com o público é constante e mais exigente.

Toda a ação, centrada nas relações interpessoais, bem como a comunicação entre as personagens, está envolta na beleza, na importância desta para a autoestima feminina e aceitação masculina. Numa linguagem corrente e vulgar, recorrendo muitas vezes aos palavrões, a obra faz sem dúvida uma notável aproximação à realidade. Integrado nestas relações, nestes diálogos constantes e confusos em que as falas se entrecruzam sem fim, estão uns curtos monólogos, o espaço introspetivo que cada personagem tem direito a partilhar com o público e que junta uma qualidade imensa ao espetáculo, onde o ator se debate consigo e com o olhar da audiência que, atenta, não hesita em julgar cada uma.

Em conversa com os jornalistas, o encenador elogiou os atores sublinhando a sua competência ao interpretarem, de forma irrepreensível, um texto que tem “as falas metidas umas nas outras”. Trata-se de uma constante interrupção do locutor, de não ouvir o que o outro tem para dizer, em incessantes discussões e desentendimentos que se desenrolam ao longo da passagem do tempo. No entanto, no leque de atores conhecidos da televisão portuguesa, é de salientar o trabalho de Tomás Alves, a interpretar Daniel. O protagonista do filme “Um amor de Perdição”, agora em palco, demonstra o que é já um facto assumido: a formação em teatro faz sobressair o ator. Tomás, de uma forma natural e espontânea, olha diretamente o público quando o deve fazer e transforma uma personagem “difícil” num ‘eu’ tão verdadeiro que espanta. Ana Guiomar, interpretando Xana, também sobressai no elenco escolhido mas estranhamente um pouco mais contida, menos natural – porventura fruto dos nervos normais de um ensaio de imprensa ou estreia. Neste mapa de rostos conhecidos também estão Jorge Corrula, o protagonista, e Sara Prata que interpreta Carla.

É de notar os critérios de João Lourenço para a escolha destes atores. Ele afirma em entrevista que, por já ter trabalhado com Jorge Corrula e Ana Guiomar estes foram previamente escolhidos por ele, contudo, Sara Prata e Tomás Alves, por serem conhecidos do público e por uma boa prestação na audição a que foram submetidos, também puderam integrar este elenco. Este critério da “fama” dos atores apresenta-se como mecanismo de inversão da intensa diminuição de público que o teatro tem sofrido.

Os jornalistas não abandonaram o Teatro Aberto sem que João Lourenço criticasse o governo e as suas políticas culturais e anunciasse que texto está a pensar para encenar em 2013: O Preço, de Arthur Miller. Embora ainda não tenha elenco definido, o encenador diz que tem interesse neste texto por abordar “o que valem as pessoas e as coisas”. Sem dúvida, um anúncio que não poderá ficar indiferente a quem gosta de ver bom teatro.

Fotografias por Raquel Santos Silva