Formados em 1990 pelas mãos de Anton Newcombe, os The Brian Jonestown Massacre são, simultaneamente, um dos mais tempestuosos e prolíficos grupos do Alternative Rock norte-americano de índole psicadélica e experimental, tendo lançado, desde a sua fundação, 13 álbuns. O 13.º disco da banda, Aufheben, foi lançado independentemente a 7 de Maio e é o alvo da crítica de hoje. 

Quem conhece bem o trabalho e o percurso dos The Brian Jonestown Massacre sabe que, apesar dos seus problemas pessoais (toxicodependência e tempestuosas relações com outros músicos, dentro e fora da banda), Anton Newcombe é uma das grandes mentes da música dos últimos 20 anos. Inspirado por nomes como The Beatles, The Rolling Stones, Bob Dylan ou The Velvet Underground, Newcombe age, não como um mero revivalista, mas sim como um perpetuador dessa tradição Pop anglo-saxónica, trabalhando como se a história da música tivesse parado em 1970 e desde então houvesse um “quase-vácuo” no que toca a sonoridades e estilos.

Essa atitude ousada, bem fundamentada por uma sensibilidade artística e uma criatividade desmedidas, faz com que os The Brian Jonestown Massacre sejam, na minha opinião, uma das grandes pérolas semi-obscuras que a música Pop já nos ofereceu, ajudando-nos na hora de imaginar, de certa forma, os caminhos que os seminais grupos e artistas acima referidos teriam traçado caso tivessem continuado no seu rumo experimental das décadas de 60 e 70.  Por isso mesmo, não admira que cada novo lançamento da banda de Newcombe me deixe entusiasmado, com este Aufheben a não ser excepção. E, depois de ter ouvido este disco um incontável número de vezes, posso afiançar: ao 13.º álbum, os TBJM não desiludem nem um bocadinho.

Na filosofia de Hegel, a palavra “aufheben” serve para descrever o que acontece quando uma tese e a sua antítese interagem e, de certa forma, este termo serve que nem uma luva ao 13.º LP dos The Brian Jonestown Massacre, que nos traz um autêntico “choque civilizacional” entre a música Pop ocidental (vista no Alternative Rock psicadélico a la anos 60 que serve de base à sonoridade do grupo e nos “cheiros” a Krautrock que se vão vislumbrando) e a World Music oriental (representada por sons, influências e lustrosos arranjos vindos da Índia e do Médio Oriente). Não sendo uma mistura completamente inovadora no som do grupo, a verdade é que a forma como estes elementos interagem em Aufheben é bastante fresca e diferente, demonstrando uma grande vitalidade e experimentação por parte dos The Brian Jonestown Massacre.


Ao nível da produção, a contrabalançar os já referidos arranjos orquestrais do Este está uma estética muito suja e densa, fruto da rugosidade do Lo-Fi e das camadas espessas de efeitos (vindos do Shoegaze dos My Bloody Valentine, rara influência da música “post-70’s” na música dos TBJM). Quanto às vozes, em Aufheben vemos Anton Newcombe a optar por enterrá-las na mistura, usando-as mais como um instrumento em si do que como um meio de difundir uma mensagem lírica. Quanto às letras, estas, quando perceptíveis, não acrescentam muito ao universo surreal traçado por Newcombe. A única mudança aqui é a utilização incorporação de temas cantados em finlandês (Viholliseni Maalla, por Eliza Karmasalo) e francês (Illluminomi, por Thibault Presenti), algo de novo para os The Brian Jonestown Massacre e que demonstra uma vontade de Newcombe de partilhar a “dianteira” do LP.

Porém, este disco também conta com alguns aspectos menos positivos que, a meu ver, o impedem de ser perfeito. A começar, está a questão dos vocais: apesar de apreciar a dinâmica que as vozes “abafadas” conferem a Aufheben, confesso que por vezes senti a falta de um elemento de unificação e coesão no álbum, papel que noutros registos dos TBJM foi desempenhado pela entrega distinta e cheia de personalidade de Newcombe e que aqui não se encontra presente. Aliado a isso está o facto de algumas canções serem bastante longas e unidimensionais, o que causa alguma repetição pouco desejada.

Quanto às minhas peças favoritas deste álbum, devo destacar a perfumada Panic in Babylon, a contagiante Viholliseni Maalla, a quente Stairway to the Best Part in the Universe, a hipnótica Seven Kinds of Wonderful e a surpreendente Waking Up to Hand Grenades. Por outro lado, as aborrecidas Gaz Hilariant, Face Down on the Moon e The Clouds are Lies são as faixas que, na minha opinião, representam melhor os pontos fracos deste Aufheben.

Concluindo, com Aufheben os The Brian Jonestown Massacre trazem-nos um excelente álbum que só vem reafirmar que, aos 22 anos de carreira, este grupo continua a ser uma das grandes referências da música experimental e psicadélica norte-americana. Não sendo uma obra perfeita e livre de falhas, o 13.º disco do grupo de Anton Newcombe é, ainda assim, um magnífico tratado de fusões e experimentações do “velho” com o “novo” e do Ocidente com o Oriente. Em suma, Aufheben traz-nos uns The Brian Jonestown Massacre iguais a si mesmos e em grande forma; e isso, por si só, chega para que seja um dos grandes LP’s deste 2012.

Nota Final: 8.9/10

 *Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945