Foi um Campo Pequeno bem composto que recebeu Valete na última sexta-feira, um dos mais sonantes nomes do hip-hop nacional, guiado pela vertente reivindicativa e pela mensagem contestatária.

Por volta das 20 horas do dia 30 de Novembro, a fila era grande à entrada da Praça do Campo Pequeno. Entre o centro comercial e o jardim pairava um ambiente de ansiedade, mesclada com a alegria de quem se preparava para assistir ao concerto de um ídolo “tuga” . Caps, capuzes, roupas largas e alguns freestyles davam o mote para aquilo que se avizinhava. Esperava-nos uma noite histórica para o Hip-hop nacional – já se imaginava que assim fosse, mas a sua completude não deixou de surpreender.

Numa sala ainda a encher, o toque de partida foi dado pelos Beatbombers, dupla campeã mundial de scratch/turntablism. Aqueles que decidiram ficar mais um pouco a aproveitar a cerveja barata nos cafés das redondezas perderam uma actuação que elevou automaticamente a fasquia. Dj Ride e Stereossauro serviram-se do melhor do hip-hop, desde os clássicos mais brilhantes dos Wu Tang Clan – ninguém fica indiferente a C.R.E.A.M ou a M.E.A.T.H.O.D ManMobb Deep, Snoop Dogg até aos melhores sons dos últimos anos, com a qualidade de Dilated Peoples e Evidence, a recente e óptima Gavlyn ou o ídolo do momento Tylor the Creator, entre tantos outros. Sem descurar as sonoridades nacionais, fez-se ouvir um sample da Verdes Anos de Carlos Paredes, anunciando o final de meia hora de qualidade musical e preparando o público para Xeg, que lhes tomaria o lugar de seguida.

A impaciência surgia nos rostos dos presentes, agitados pela demora do anfitrião. Mas eis que, sem mais demoras, Valete sobe ao palco, acompanhado pelo beat de Subúrbios, tema do álbum Serviço Público. “ ’Bora, ‘bora, ‘bora!”, gritava o rapper, para gáudio dos fãs, que já entoavam a letra da música. Viris, o narrador da realidade, conta-nos o quotidiano dos mais pobres, protagonistas de uma vida dura, escravos de uma sociedade que os vota ao esquecimento na periferia da cidade. O ecrã posicionado por trás do palco mostra-nos imagens de bairros suburbanos como a Cova da Moura ou o Bairro 6 de Maio, exemplos concretos da severidade que a segregação social representa.

O ritmo avança, o espectáculo também. Sincopado com a velocidade da estrada que agora vislumbramos no ecrã, com a intensidade da urbe, Valete segue até ao seu primeiro trabalho, Educação Visual, para revisitar Serial Killer e À Noite. Uma nostalgia entusiasta, uma energia inesgotável, proporcionada pelo calor do público e pela companhia em palco de Bónus e Adamastor, os dois mc’s que, em conjunto com Viris, formam o afamado Canal 115. “Esta merda ‘tá linda!”, bradava o rapper, enquanto contemplava a composição da praça de touros, desta feita tomada pela comunidade hip-hop, e transformada em ringue da música contestatária e interventiva. Pelo meio tempo ainda para Monogamia, uma ode à verdade, ao desprezo pela falsidade e deturpação intrínsecas aos regimes políticos contemporâneos.

Valete, indumentária característica, estilo inconfundível, brinca com a pergunta de um entrevistador, que durante a semana o indagava sobre a megalomania de realizar um concerto no Campo Pequeno, aconselhando-o a ficar-se por um Musicbox. “Vais meter lá 50 ou 100 pessoas, isso vai dar buraco…” . “Eles não sabem quantos é que nós somos”, ripostava o rapper. O público subscrevia as suas palavras, aplaudindo, sorrindo, vibrando. Numa investida pelo seu novo trabalho, Homo Libero – previsto para Janeiro de 2013 -,  o “Ciclone Underground” apresenta a música No meio das Labaredas, composta por potentes vocais, à qual se segue Melhores anos, êxito  com a participação de Jimmy P, que subiu ao palco, ainda que condicionado por uma recente operação ao braço.

O público feminino é congratulado, e Valete transparece o seu contentamento pelo facto de o hip-hop ser cada vez mais ouvido por mulheres, contrariando a tendência que o fazia cingir-se ao género masculino. Com uma forte presença, estas faziam-se ouvir, manifestando o seu agrado para com a homenagem precedida a Mulher que Deus Amou. Obstinados e movimentados, comunicativos e corajosos, os membros do Canal 115 recebem um convidado de luxo, que a eles se junta para dois temas. Esse convidado chama-se Sam The Kid, ou não fosse ele um dos mais antigos e regulares colaboradores de Valete. Com o à vontade de sempre, os rappers entoam Presta Atenção e Poetas de Karaoke, numa mistura de ritmos e até de letras. A mensagem é fundadora e actual, transmissora da vivência quotidiana de artistas cujo principal traço de identidade é a sua música.

“ Estão a acabar com o Estado Social, não censurem se alguém começar a entrar em bancos para os assaltar, não censurem. Eu represento manos que vivem com menos de 1 euro por dia, isto hoje é verídico”, afirmava Viris. Para a recta final, e visitando vários momentos do seu repertório, espaço para Fim da Ditadura – uma crítica ao imperialismo e poderio dos Estados Unidos da América – e Anti-Herói. Keidje Lima (verdadeiro nome de Valete) é, tal como diz a última música da noite, “o anti-herói que o povo aclamará”. E aclamou.

*Por opção dos autores, este artigo foi redigido ao abrigo do acordo ortográfico de 1945

Texto por Daniel Veloso e Bárbara Sequeira
Reportagem fotográfica por  Bárbara Sequeira