Embora sejam contemporâneos da “cena” Indie e Post-Punk Revival norte-americana do início do século que viu nascer nomes como The National ou Interpol, os The Walkmen nunca conseguiram, contudo, afirmar-se como “pontas-de-lança” desse movimento, assumindo por sua vez um estatuto intermédio entre a banda “de culto” e o grupo “de Coliseu” que serve que nem uma luva à sua sonoridade. Depois de terem passado por aumento considerável de popularidade, graças ao agridoce Lisbon (2010), o quinteto liderado por Hamilton Leithauser lançou, a 29 de Maio deste ano, Heaven, o seu sexto disco de originais e que vai ser hoje aqui analisado.

Tal como aconteceu com muita gente, só tomei conhecimento de facto dos The Walkmen em 2010, com a magnífica “porta de entrada” que foi Lisbon. Apesar disso, a verdade é que este grupo nova-iorquino conseguiu despertar em mim um gosto muito forte e depressa se tornou numa das bandas que mais acarinho, tendo ficado totalmente “agarrado” aos seus trabalhos iniciais, como Everyone Who Pretended to Like Me is Gone (2002) ou o incrível Bows + Arrows (2004).

Ainda assim, apesar de me ter tornado numa espécie de “purista” dos The Walkmen e de preferir a sonoridade velha e crua à abordagem mais doce e amansada dos discos mais recentes, confesso que fiquei bastante entusiasmado quando soube do anúncio do lançamento do quinto álbum do quinteto. E depois de ouvir o LP várias e repetidas vezes, posso afiançar o seguinte: apesar de não ser a melhor obra deles, este Heaven não defrauda as expectativas e apresenta-se como um belo disco, com uns The Walkmen em plena forma.

Comecemos pela sonoridade. Acompanhando a tendência iniciada em Lisbon de perseguir um som mais alegre e light, Heaven apresenta-nos aquela que é, sem dúvida, a colecção de canções mais solarenga e feliz que os The Walkmen já fizeram. No entanto, apesar desta linha de continuidade, a verdade é que com este sexto disco o grupo norte-americano traz também algumas novidades que fazem deste um álbum totalmente isolado na discografia do grupo. A começar, estão as infusões notórias de Country e Folk na sonoridade base do grupo, com o incremento de guitarras acústicas a traduzir-se num tom mais bucólico e ameno.

Na produção, a influência de Phil Ek (que trabalhou em Helplessness Blues, magnífica obra dos Fleet Foxes) mostra-se preponderante, dando à estética de Heaven um carácter mais brilhante, amplo e polido. Nas letras, também se nota a opção por uma linha mais alegre: se antes a lírica dos The Walkmen abordava temas cheios de amargura e desilusão, agora o grupo prefere versar, na maioria das vezes, sobre uma felicidade e um contentamento que dão a este Heaven um aspecto de “álbum de família” digno de uma banda que celebrou este ano as 10 primaveras e que já está a entrar numa fase mais madura da sua vida.

Porém, não posso dizer que tudo é positivo neste Heaven, pois encontrei alguns defeitos e alguns detalhes menos bons que me fizeram ficar um bocadinho de pé atrás. A começar está, mais do que um defeito, uma questão pessoal: o sucessivo afastamento dos The Walkmen da matriz original da sua sonoridade. Se é verdade que a variedade e a inovação são bastante positivas, também o é que, quando exageradas, fazem com que os The Walkmen se afastem do charme sombrio e depressivo dos primeiros discos, causando, em algumas peças, uma descaracterização do som do grupo e uma sublimação da sua identidade. Aliado a isso está uma certa inconsistência na qualidade das canções, o que faz com que, na minha opinião, este Heaven esteja longe de ser um álbum perfeito.

Quanto às minhas canções favoritas deste registo, tenho de destacar a fulgurante Heartbreaker, a apaixonada Song for Leigh, a directa Nightingales, a viciante The Love You Love e a tocante Heaven como os pontos mais altos e mais certeiros de Heaven. Quanto às peças de que menos gostei, aponto as insípidas Southern Heart, Line by Line ou No One Ever Sleeps como pontos baixos deste disco e que, a meu ver, “abusam” da nova sonoridade do grupo.

Em suma, com este Heaven os The Walkmen trazem-nos um belo disco que aposta numa nova e fresca abordagem ao seu “velho” som, misturando-o com tons e influências vindas da Folk e da Country, traduzindo-se num registo luminoso e que transborda alegria. Apesar de se manter numa linha da qual não sou o maior fã, e que é o afastamento da sonoridade inicial do grupo, e apesar de estar um bocadinho aquém da qualidade de Lisbon, a verdade é que este Heaven é um álbum esplendoroso e que mantém a fasquia bem elevada para os The Walkmen. Eu, como fã, não esperaria outra coisa deles.

Nota Final: 8.2/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945