Em noite de Cinema à Segunda no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) houve O Cavalo de Turim, a derradeira obra de Béla Tarr.

Este é um daqueles casos: ou se ama, ou se odeia. E, muito embora a maioria das opiniões se divida entre um ou outro, esta fica-se pelo meio, o que dificulta bastante a tarefa de falar sobre O Cavalo de Turim.

No ano de 1889, Friedrich Nietzsche encontra um camponês a violentar brutalmente o seu cavalo indisciplinado com um chicote. O filósofo é agredido na tentativa de defender o animal, colocando-se à frente do camponês. Nietzsche perde os sentidos e enlouquece eternamente. O camponês volta para casa, onde vive com a filha adulta, sem contar que, ao fim de alguns dias, o mundo chegasse ao fim.

Lá fora está o cavalo, irremediavelmente doente e insubordinado. O pai, de braço paralisado, levanta-se e a filha ajuda-o a vestir-se. A filha chama o pai para o almoço porque as batatas cozidas estão na mesa. O pai salpica-as com algumas pedras de sal e, acabado, senta-se junto à janela. O vento corre lá fora, dias a fio, parecendo querer arrancar as raízes do chão. O pai diz à filha que deixou de ouvir as térmitas comer a madeira. A filha lê a Bíblia. Ao final de seis dias, os fósforos de nada valem. A luz apaga-se para a eternidade.

Não é por acaso que Nietzsche é referenciado no começo da obra. Deus está morto, há muito.

O realizador húngaro, Béla Tarr, anunciou que esta seria a sua última e derradeira obra, curioso se tivermos em conta que este é um filme sobre o final, também. O final do mundo.

Se há algo em que Tarr ganha em relações a tantos outros, é na destreza de saber mexer com o espetador, quer seja por bons ou maus motivos. Ver Tarr dependerá sempre de sensibilidades pessoais. Se, para uns, as suas obras são aborrecimento de cortar os pulsos, para outros, este é o cinema no seu expoente máximo.

Inteiramente filmado a preto e branco, com segmentos longos, ação diminuta e uma carência quase nula de diálogos, ou não fosse assinado por quem é. Mas a verdade é que não funcionaria de outra forma e ao vê-lo percebemos porquê. O Cavalo de Turim é uma grande metáfora, uma parábola sobre o fim do mundo e a (in)existência humana. É um filme para as sensações, quase claustrofóbico, depressivo e psicologicamente desgastante. Uma experiência dificilmente repetível, ainda que gostemos dele.

6/10

Ficha Técnica:

Título Original: A torinói ló

Realizadores: Béla Tarr

Argumento: Bela Tarr, László Krasznahorkai

Actores: János Derzsi, Erika Bók, Mihály Kormos

Género: Drama

Duração: 146 minutos