Já começou na passada quarta-feira a primeira edição da CineFiesta, a mostra de cinema espanhol. Na sessão de abertura, a Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, quase encheu, contando com a presença do Embaixador de Espanha em Portugal assim como o realizador do filme escolhido para iniciar a mostra, Mientras Duermes.

Mientras Duermes – 7/10

O nome Jaume Balagueró pode não dizer muito ao público português, mas se falarmos no realizador de REC e REC2, o caso muda de figura. O realizador dos dois populares filmes especializou-se em terror psicológico, sendo uma referencia do género em Espanha.

Em Mientras Duermes, a personagem principal é César, um porteiro que logo ao início faz uma asserção forte, a de que não consegue ser feliz. No seu emprego, dá conta dos movimentos, hábitos e segredos dos residentes do prédio. Contudo, há uma residente especial, Clara, que perturba César com a sua felicidade e este empreende uma demanda  para tornar a sua vida o mais infeliz possível, num jogo perverso que se vai complexificando ao longo do filme.

César é uma personagem bem conseguida, psicologicamente densa e muito bem interpretada por Luis Tosar, que consegue despertar emoções contraditórias nos espectadores. Uma narrativa que consegue bons momentos de suspense mas que peca por se desenrolar até um nível desnecessário.

Texto por Renata Curado

Blancanieves- 8/10

Esta é de facto a Branca de Neve como a nunca tínhamos visto ou imaginado: ela vive nos anos 20 da século passado, torna-se toureira e aparece-nos a preto e branco sem que lhe ouçamos a voz. Foi assim que Pablo Berger escolheu mostrar-nos a sua Blancanieves, num filme mudo que aproxima a forma do contexto da história e que, que sem diálogos e com uma banda sonora apropriada, a torna poética.

Há mais de uma geração que se habituou a ter o filme da Disney na imaginação quando se fala de Branca de Neve e Berger não ignora isso. Por diversos momentos há fotogramas da Disney que saltam do nosso subconsciente, o que é intrigante e desafiante para o espectador pela subtileza com que é feito. Apesar de não ser declarado, é impossível não associar o capuz que as duas madrastas vestem na hora da própria morte.

Ao cruzamento de referências junta-se o humor. Não está certamente nas palavras, mas nas situações e na forma como nos são apresentadas, de vez em quando previsíveis, em geral interessantes. E não esqueçamos o kitsch das personagens que aparecem no ar em marca d’água, às vezes desnecessário, mas que leva ao sorriso. Tudo isto ganha com planos belíssimos como os da marcante vista sobre a praça de touros e com sequências bem pensadas em que a imagem e o som se complementam, como aquele em que Blancanieves, ainda criança dança com a sua avó.

Na adaptação não se perde a dimensão do conto de fadas, onde tudo pode acontecer. Não acredito que nos anos 20 fosse pacifica a existência de uma mulher toureira ou de uma mulher que vive com seis homens , entre outras liberdades femininas do filme. No entanto, pactuamos e acreditamos nisso, como já acreditámos de outras vezes que os animais falam e os tapetes voam.

O mais bonito no filme será provavelmente o facto de saber onde parar. Um final que acontece no momento certo, de uma óptima maneira. Como de costume, as princesas vivem felizes para sempre?

Texto por Catarina Moura

*Por opção das autoras, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.