Sediada em Lisboa, a Mbari Música é, apesar do seu modesto tamanho e da sua índole estoicamente independente, uma das mais importantes labels a actuar em Portugal nos tempos que correm. Isto deve-se não só ao seu trabalho no plano da edição (onde podemos destacar as obras de B Fachada, Norberto Lobo, Lulu Pena ou Augustí Fernández), mas também pela sua importante vertente de distribuidora de discos de outras editoras no mercado nacional (como são exemplo a lusa Cafetra Records e a estrangeira Thrill Jockey).

Por isso mesmo (e porque me deu um gozo imenso escrevinhar a “ode” à Lovers & Lollypops, publicada em Agosto), fica aqui um artigo com pequenas análises a três recentes “bombons” da Mbari lançados em 2012: Pop é o Contrário de Pop d’Os Quais, Mel Azul de Norberto Lobo e Os Sobreviventes de B Fachada, Minta e João Correia.

Pop é o Contrário de PopOs Quais

Lançado a 1 de Junho, Pop é o Contrário de Pop é o primeiro LP d’Os Quais, dupla composta por Jacinto Lucas Pires (voz) e Tomás Cunha Ferreira (guitarras/teclados/percussão/etc.). Sucedendo ao EP de 2009 oportunamente intitulado de Meio Disco, este Pop é o Contrário de Pop traz-nos uma doce colecção de peças que, apesar de “menos roqueiras” que as do seu antecessor (palavras da press release do disco, que eu corroboro plenamente), mantêm a fórmula original de misturar a Bossanova de travo brasileiro com uma sensibilidade Pop de índole lusa de uma forma descontraída, inocente e calorosa. Um álbum incrivelmente rico, tanto ao nível da sonoridade (com uma vasta gama de texturas e sons e uma extensa lista de artistas convidados) como ao nível lírico (com temas de amor intercalados por letras mais introspectivas ou odes a Chico Buarque), Pop é o Contrário de Pop não consegue, infelizmente, evitar um certo desequilíbrio na qualidade das canções. No entanto, isso não faz com que este registo d’Os Quais deixe de ser uma óptima companhia, quer seja para animar os dias quentes, quer seja para aquecer os dias frios.

Pontos altos:

  • Coração-Objeto
  • Meu Caro Amigo Chico
  • Quando Ela

Nota Final: 7.3/10

Bandcamp

 

Mel Azul Norberto Lobo

Sucedendo a Mudar de Bina (2007), Pata Lenta (2009) e Fala Mansa (2011), Mel Azul é o quarto disco de originais de Norberto Lobo e chegou às lojas a 9 de Outubro. Com uma sonoridade “económica” e despida de artifícios, Mel Azul aproxima-se mais dos dois primeiros LPs do guitarrista e afasta-se dos arranjos mais “cheios” e do grande experimentalismo de Fala Mansa, o que se converte numa maior procura pela melodia e pela criação de canções mais “convencionais” (para os parâmetros de Norberto Lobo). Isto traduz-se numa sensação de “gratificação” mais imediata mas faz com que, a meu ver, este disco fique a perder em relação à postura mais difícil e desafiante do terceiro álbum. No entanto, apesar desta pequena “imperfeição”, Mel Azul prova mais uma vez que Norberto Lobo continua a ser um dos grandes artistas nacionais da sua geração e que ninguém consegue evocar como ele imagens vívidas e quase cinematográficas através de peças instrumentais. Quer seja a caminhada histórica da luta de classes (Valsa da Greve Geral), uma Lisboa “Western-izada” (Rua da Palma Blues) ou um sítio onde xailes, bruxedos e o Jimi Hendrix coabitam em perfeita harmonia (Vudu Xaile), Mel Azul consegue transportar-nos completamente para outros mundos. E isso é simplesmente mágico.

Pontos altos:

  • Vudu Xaile
  • Valsa da Greve Geral
  • Rua da Palma Blues

Nota Final: 8.0/10

Bandcamp

 

Os Sobreviventes B Fachada, Minta e João Correia

Como forma de celebrar os 40 anos do lançamento do 1.º disco de originais de Sérgio Godinho, B Fachada, Minta (aka Francisca Cortesão, dos Minta & the Brook Trout) e João Correia (dos Julie & the Carjackers) entregaram-se à tarefa de pegar n’Os Sobreviventes de 1972 e recriá-lo por inteiro, mantendo-lhe as letras (mas não as métricas) e reinventando por completo a sua sonoridade. O resultado viu a luz do dia no passado dia 12 e revela-se como uma verdadeira “contemporização” do original de Godinho, dando-lhe uma volta que, apesar de não ser radical o suficiente para o tornar irreconhecível, consegue imprimir muita personalidade e actualidade no seu novo som. Com diferentes instrumentações (a guitarra perde terreno para o piano e vê-se um uso bastante alargado de sintetizadores), novos coros e harmonias (entre B Fachada e Minta, duas vozes incrivelmente compatíveis) e refrescantes influências (atente-se à “africanidade” de Senhor Marquês), o disco aponta quase sempre de forma certeira nas suas recriações, ainda que em algumas (raras) ocasiões acabe por, infelizmente, perder o elo com os originais. Ainda assim, este Os Sobreviventes demonstra ser uma belíssima homenagem a Sérgio Godinho, e serve também para provar a actualidade das letras e a versatilidade das composições daquele que é um dos maiores nomes da música Pop nacional.

Pontos altos:

  • O Charlatão
  • Senhor Marquês
  • Romance de Um Dia de Estrada

Nota Final: 8.7/10

Para saberem mais sobre a Mbari Música:

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945