A história de Portugal está em força no cinema este ano. Operação Outono traz para o grande ecrã a morte de Humberto Delgado, levada a cabo pela PIDE em 1965 numa operação que partilha o nome com a longa-metragem. Depois da estreia no Lisbon & Estoril Film Festival, o filme de Bruno de Almeida estreia no circuito comercial esta Quinta-feira, 22 de Novembro.

De louvar é, desde já, a ideia de passar para o cinema um acontecimento e uma personalidade marcante da história política nacional e de que pouco se fala. Este thriller político tem por base o livro Humberto Delgado, Biografia do General Sem Medo, da autoria de Frederico Delgado Rosa, biografo e neto do general, e pretende contar-nos como tudo se passou antes e aquando do crime, e no polémico julgamento no Tribunal de Santa Clara, já após o 25 de Abril de 1974. A acção decore em Portugal, Espanha, Algéria, Marrocos, França e Itália, entre 1964 e 1981, intercalando imagens desde a preparação da operação levada a cabo pela PIDE, até ao caso do Tribunal.

Estamos perante uma espécie de filme de espiões à portuguesa mas com uma qualidade superior à que se poderia esperar, apesar de algumas falhas que se sentem especialmente a nível histórico. Há vazios por preencher, sentindo-se a falta de mais algumas explicações, mesmo após conhecermos o veredicto do julgamento. Com as recentes descobertas feitas por Frederico Delgado Rosa e as novas revelações sobre o caso, Operação Outono pedia um pouco mais no que toca a este aspecto. 

Os diálogos revelam a qualidade do guião e o elenco consegue transmiti-lo da melhor maneira, sempre com um tom natural, e com humor nos momentos certos – o melhor exemplo é-nos oferecido por Cleia Almeida aquando da transmissão do velório de Salazar na televisão. Operação Outono tem um final forte e, ao mesmo tempo, um pouco inquietante, mas que se revela igualmente um ponto positivo no filme. O ambiente de tensão, aliado ao suspense que paira sobre o que realmente aconteceu, são outra mais-valia.

A realização tem pormenores interessantes, entre eles a utilização da imagem a preto e branco num dos momentos fulcrais da acção e onde tal faz todo o sentido. A escolha da banda Dead Combo para tomar as rédeas da banda sonora resultou numa música forte e que marca bem o tom do filme. Também de destaque é, claro, o famoso tema de Paulo de Carvalho, E Depois do Adeus, que acompanha as imagens do 25 de Abril. A utilização de imagens de arquivo ao longo do filme foi também uma óptima opção, confirmando a veracidade do que Operação Outono relata e o seu carácter de retrato histórico.

O filme revela em si alguma contradição no que toca à opção de mostrar ou não imagens que possam incomodar os mais sensíveis No momento em que assistimos à morte de Delgado, tudo acontece de forma a não impressionar o espectador. Contudo, mais tarde, mostram-nos imagens dos cadáveres em estado de decomposição, sem qualquer tipo de pudor. Parece querer evitar-se uma violência gráfica, mas o resultado dessa violência já não se pretende esconder.

O elenco é excelente e um dos pontos mais fortes deste Operação Outono. Contudo, a escolha de um actor estrangeiro, neste caso John Ventimiglia, por muito bom que este seja, para interpretar uma personagem da história portuguesa foi um erro. O inevitável recurso à dobragem, esta sim por um actor português, não funciona, estando aos olhos de todos como a imagem e o som que ouvimos não encaixam. Valha-nos que a personagem de John Ventimiglia não tem muito tempo de antena.

Por outro lado, há um conjunto de fabulosas interpretações entre os actores portugueses. Nuno Lopes como Ernesto Lopes, Marcello Urgeghe como Agostinho Tienza e Carlos Santos como Rosa Casaco, são os que mais se destacam, fazendo parte do grupo que participou no assassinado de Delgado. Mais bons desempenho pela parte de Diogo Dória como Mário de Carvalho, Júlio Cardoso como Silva Pais, José Nascimento como Barbieri Cardoso, Adriano Carvalho como Álvaro Pereira, João D’Ávila como Emídio Guerreiro, Carlos Paulo como Adolfo Ayala, e a grande interpretação feminina pela parte de Ana Padrão como Maria Iva Delgado, mulher do General Sem Medo.

Operação Outono é, acima de tudo, um filme que quer dar a conhecer melhor a história do país e de um homem que lutou contra a ditadura de Salazar. Apesar de todos os lapsos históricos que acontecem, o excelente elenco e interpretações fazem valer toda a hora e meia de filme.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Operação Outono

Realizadores: Bruno de Almeida

Argumento: Bruno de Almeida, Frederico Delgado Rosa e John Frey

Actores: John Ventimiglia, Nuno Lopes, Marcello Urgeghe, Carlos Santos, Diogo Dória, Júlio Cardoso, José Nascimento, Pedro Efe, Ana Padrão, Adriano Carvalho, João D’Ávila, Carlos Paulo, Cleia Almeida, Carla Chambel, Camané

Género: Histórico, Thriller

Duração: 92 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.