Na reta final, o LEFFest aposta em longas-metragens emocionantes e de caráter intimista. No oitavo dia do Lisbon & Estoril Film Festival destacaram-se os filme em competição Rengaine de Rachid Djaidani e Low Tide de Roberto Minervini, que se debruçam sobre as relações familiares e a consequência desses laços nas decisões das suas vidas, e a sessão dedicada a Brian de Palma, que apresentou Passion. Já no nono dia foi exibido o último filme em competição intitulado Avalon, a obra de estreia do realizador sueco Axel Petersén.

Rengaine – 5/10

Sabrina é muçulma e tem 39 irmãos. Dorcy é um ator africano cristão. Ambos se apaixonam e tem uma relação séria e feliz. Apesar do seu amor inabalável, as diferenças raciais e religiosas tornam-se um obstáculo, quando Sabrina aceita casar com Dorcy sem o consentimento familiar.

Embora o tema da história seja muito interessante foi desenvolvida de modo pouco apelativa. Os intermináveis close-ups e a câmara constantemente tremida retiraram ao filme o seu potencial, pois muitas cenas ficaram impercetíveis pelo público, devido a essa opção estética na captação dos planos.

A ação da história também se torna repetitiva, quando observamos o irmão mais velho a zelar pela honra da Sabrina, questionando cada um para angariar apoiantes contra o casamento absurdo com Dorcy.

Apesar de tudo, conseguimos retirar uma mensagem neste filme: o amor é imune a todos os preconceitos e quem julga injustamente os outros com base na religião ou na raça é aquele que também realiza as mesmas ações.

Por: Sara Alves

Passion – 8/10

Passion é o mais recente filme de Brian de Palma, que coloca o espectador em contacto com um thriller com elementos eróticos e com influências europeias, onde a tensão e as emoções fluem com naturalidade, e a realidade se torna num puzzle alucinante que nunca é inteiramente resolvido.

Esta é a história de duas executivas de uma agência publicitária, interpretadas por Noomi Rapace e Rachel McAdams, que começam uma autêntica luta pelo poder bastante singular, que envolve desejo, obsessão e, como o próprio filme indica pelo título, paixão. E é interessante ver como De Palma parece distinguir amor e paixão, sendo o último um sentimento mais descontrolado e selvagem, o que se enquadra perfeitamente com o espírito da película. Mais curiosa ainda é a forma como essa paixão implica a necessidade de controlar o outro, de sentir a sua força e a sua fraqueza, simultaneamente.

Desta forma, Passion evoca um ambiente verdadeiramente misterioso e complexo, que propõe uma reflexão e, certamente, um outro visionamento. Nota-se uma semelhança com Christopher Nolan nas sequências finais do filme, onde a ficção e o sonho constantemente se confundem com o real. Para alguns espectadores, estas sequências podem se tornar vertiginosas e mesmo confusas, mas no final do filme, elas parecem fazer sentido, numa última cena absolutamente espantosa, onde se reveem antigas técnicas do realizador e uma influência enorme em Hitchcock, o conhecido mestre do suspense.

Por esta razão, a arquitetura de algumas cenas é fabulosa, especialmente pela forma como estão enquadradas com uma banda sonora constituída por uma sublime música clássica que confere uma tensão equilibrada às imagens. Apesar de algumas destas cenas surpreenderem, muitas vezes falta ao realizador de Scarface e de Os Intocáveis o nível artístico com que brindou estes filmes e outros nos anos 70 e 80. Os fãs, em particular, poderão ficar desiludidos por uma sensação de falta de liberdade que o realizador transmite em alguns momentos da película, e que se poderá dever ao facto desta ter sido coproduzida por companhias franco-alemãs, com um orçamento modesto.

Passion não é um filme para todos. De facto, a complexidade da narrativa e a desorganização deliberada de algumas cenas podem desorientar o espectador. Porém, este é um filme absolutamente recomendável, que nos transporta até ao núcleo da natureza humana, e nos coloca a pensar sobre a mutação constante da nossa personalidade, apresentada de forma cíclica nas personagens, numa trama de demência e poder, onde ninguém é o que parece ser.

Por: Simão Chambel

Avalon – 9/10

Janne é o futuro dono da discoteca Avalon e mostra à sua família o espaço onde será localizado o estabelecimento noturno. Já com todos os preparativos organizados, um acidente muda a vida deste empresário sueco, que esconde uma morte para prosseguir com a abertura do seu novo negócio.

O filme retrata a geração dos pais do realizador: irreverente, inconsequente e egocêntrica. Segundo Axel, nesta história os pais pretendem continuar a sua juventude, divertindo-se na discoteca e esquecendo das suas responsabilidades, sem dar importância ao futuro dos seus filhos.

O ponto de viragem do acidente está de tal forma bem construído  que o espectador consegue identificar-se com Janne, quando este reage à morte que provocou. A extraordinária performance de Johannes Brost, um ator desconhecido no mundo do cinema, é irrepreensível.

A parte mais emocionante do filme é o momento de catarse em que Janne dança sozinho na discoteca para esquecer a morte do seu empregado, quase como um adolescente que enterra as suas frustrações numa pista de dança, recorrendo aos efeitos do álcool e drogas.

É um filme surpreendente que levanta muitas questões e transmite um conceito de família completamente diferente dos padrões a que estamos habituados.

Por: Sara Alves