A noite foi cinzenta, choveu torrencialmente, mas, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, os The Gift contrariaram totalmente este cenário. Num concerto dividido em três “atos”, houve tempo e espaço para tudo: dos temas mais intimistas e melancólicos às “explosões” de cor, passando pelos clássicos, este espetáculo foi um best of dos 18 anos de carreira da banda alcobacense.

O radialista, e amigo de longa data da banda, Álvaro Costa, foi o responsável por receber um Coliseu praticamente esgotado. Com a função de narrador (ou até, como se auto-intitulou, de “bobo da corte”) do espetáculo, foram vários os “talvez” pronunciados sobre o que iriam ser as próximas (quase) três horas de concerto, deixando o público repleto de expetativas.

Abre-se o pano e é com Black – tema instrumental de Primavera, o último disco de originais dos The Gift – que o primeiro ato do espetáculo começa, ainda sem Sónia Tavares em palco. Num cenário intimista, a preto e branco, onde a voz e o piano foram os personagens principais, a primeira parte do espetáculo foi dedicada ao álbum Primavera, à exceção do tema Are You Near? (de AM-FM). Nuno Gonçalves (teclista, compositor e mentor da banda) confessou estar “orgulhoso” do sucesso dos últimos dois discos de originais do grupo, bem como da respetiva digressão (Primavera/Explode) pelo estrangeiro.

O sentido de humor da banda é sempre uma constante nos seus espetáculos, e ontem não foi exceção: a dificuldade de todos os membros da banda com a língua francesa fez com que houvesse a necessidade de chamar ao palco François, técnico de som do grupo, para pronunciar o título do tema Les tulipes de mon jardin.

Primavera, tema que dá nome ao disco, teve dose tripla: foram tocadas duas das três variações instrumentais que fazem parte do álbum, assim como a sua versão original, cantada em coro por toda a plateia do Coliseu.

Fecha-se o pano. Nuno Gonçalves e Sónia Tavares ficam do lado de cá, à boca de cena, apenas com um microfone e um piano portátil, para interpretar Fácil de Entender. Sónia e Nuno dirigem-se para o meio da plateia e, logo no início do tema, o piano deixa de funcionar. O problema técnico seria rapidamente resolvido, mas a falha resultaria num dos momentos mais bonitos da noite: um “dueto” a capella entre Sónia e o público.

Álvaro Costa voltaria para dar início à segunda parte do espetáculo. “Acreditam em magia?” foi a pergunta feita pelo radialista, enquanto pedia à plateia que se levantasse e virasse de costas. A magia aconteceu, com a banda a surgir no camarote presidencial, interpretando o tema 5 minutes of everything. Seguir-se-iam, no mesmo espaço, o tema Aquática e uma “versão mais íntima” de Me, Myself and I. “Todos nós, quando vimos ao Coliseu, dizemos sempre: um dia ainda hei de ver um espetáculo no camarote presidencial. Eu hoje consegui!”, foram as palavras de Sónia Tavares, deslumbrada com a vista panorâmica sob um Coliseu quase cheio.

A banda regressaria ao palco para a terceira e última parte do espetáculo: provavelmente, a melhor das três e, indiscutivelmente, a mais animada.

O terceiro ato começou com o tema Mother of my Mother, cantado e tocado ao piano por Nuno Gonçalves, sozinho em palco. No início desta terceira parte, foi possível regressar aos tempos de AM-FM, mais não fosse pela cortina transparente que “tapava” o palco, e que só viria a cair no refrão de Music, hábito que marcou o início dos concertos da tour AM-FM.

Os temas que se seguiram (tais como Waterskin, Driving you slow e RGB) transformaram o Coliseu dos Recreios numa pista de dança. A plateia sentada não impediu o público de se levantar e dançar ao som da “explosão” de energia dos The Gift. Houve ainda espaço para apresentar um novo tema, com o título “provisório” de Doctor: o refrão fica no ouvido e a energia do tema vem na linha de Explode.

The Singles, a música de 12 minutos, seria o último tema, antes dos encores. Álvaro Costa voltou ao palco para as despedidas, com um sentido “Viva Portugal, vivam os Gift!”, e a banda regressaria para o tema 645 (que, curiosamente, foi tocado pela primeira vez no Coliseu dos Recreios, em 2006) e para uma versão arrebatadora de In Repeat, com o theremin de Nuno Gonçalves e as vozes do público a encherem a “sala mítica”.

A despedida seria feita ao som de Can’t help falling in love, de Elvis Presley, de forma bastante emotiva e com o sorriso de missão cumprida dos sete músicos.

Apesar das falhas técnicas (que proporcionaram alguns momentos de humor), dos discursos de Álvaro Costa com demasiados lugares comuns, de terem faltado alguns clássicos (como, por exemplo, a emblemática Ok, Do you want something simple?), e de se notar que a banda está mais contida em palco (provavelmente, por já ter atingido a maioridade), os The Gift mostraram a sua versatilidade e o porquê do seu sucesso quer em Portugal, quer além fronteiras. As melodias, as letras e a voz poderosa de Sónia Tavares (que mesmo a sussurrar consegue encher uma sala com as dimensões do Coliseu) puseram as emoções à flor da pele.

Uma noite que começou com inúmeros “Talvez” acabou repleta de certezas: “Talvez seja realmente único, inspirado, iluminado ou tudo aquilo que um final com letras grandes significa”. Foi tudo isso e talvez mais.

Fotografias por Catarina Mendes