No sexto dia do Lisbon & Estoril Film Festival grande filmes preencheram a programação. Destaque para a longa-metragem em competição do realizador espanhol Jaime Rosales intitulada Sueño y Silencio e Go Go Tales de Abel Ferrara com a participação especial de Willem Dafoe. O realizador e ator deste último filme estiveram presentes no final da sessão para uma conversa descontraída, com muitas surpresas.

Sueño y Silencio – 6/10

O filme ora a preto e branco, ora a cores, inicia com uma tela a negro, onde o pintor desenha com borrões de tinta aguada um quadro alegórico da infância. Esta imagem é uma pista para adivinhar o tema, que iria ser explorado durante o filme.

Uma família feliz espanhola vive nos arredores de França. A mãe é professor de espanhol na escola, o pai é arquiteto numa empresa britânica e as duas filhas Célia e Alba são inseparáveis nas suas brincadeiras. A morte de uma das meninas vai gerar a desunião e o desespero na estrutura familiar, sendo o sonho o único escape para poderem seguir em frente.

O filme está recheado de planos peculiares: os travellings longos em espaços vazios, planos estáticos e mudos de paisagens, planos fixos em que os intervenientes dialogam fora de campo e planos que espiam a ação das personagens entre brechas de portas ou espelhos.

Por vezes não sabemos com quem as personagens estão a falar e por isso fica a dúvida se interagem com alguém real ou com a imagem ficcionada da filha que faleceu.

É um filme forte e interessante, mas que se perde nestes planos pouco claros, em que a passagem de cenário e a ordem cronológica se tornam confusas.

Por: Sara Alves

Go Go Tales – 7/10

Também unidos por um sonho, Ray e Jay, donos do cabaret Paradise, tentam recuperar o seu estabelecimento, apostando as poucas economias que têm na lotaria. Quando descobrem que acertaram na senha vencedora dá-se conta de que afinal a perderam acidentalmente.

A procura incessante e secreta pela senha gera uma enorme confusão no cabaret: as strippers queixam-se da falta de pagamento, o principal financiador do clube desiste de investir e o Paradise fica em vias de fechar. Estas são as Go Go Tales, histórias de Cabaret.

Com planos de pormenor eróticos e travellings lentos que transmitem a perspetiva do cliente ao observar as strippers, o filme conseguiu reproduzir o ambiente de um cabaret na perfeição. Ficamos a conhecer as ansiedades e a vida de cada stripper e principalmente as dificuldade do gerente Jay, excelentemente representada por Willem Dafoe.

O que peca na história é a falta de ação durante todo o filme. O cenário torna-se repetitivo, pois estamos sempre enclausurados no cabaret e o objetivo de encontrar dinheiro para salvar o Paradise é o único motivo que desenvolve o filme.

Go Go Tales é uma longa-metragem contemporânea, que mostra a realidade de um cabaret nos nossos dias.

Por: Sara Alves

 À conversa com Abel Ferrara e Willem Dafoe

Depois da exibição do filme Go Go Tales, de 2007, o público pôde colocar algumas questões aos grandes autores do filme, Abel Ferrara e Willem Dafoe, acompanhados pelo produtor português e diretor do LEFFest, Paulo Branco. O Espalha Factos esteve no local para contar alguns dos destaques da conversa.

No início de um diálogo claramente informal, observou-se imediatamente a boa disposição e sentido de humor do realizador Abel Ferrara, extremamente descontraído e com enorme vontade de falar do filme que, em português, está traduzido como Histórias do Cabaret. Paulo Branco apresenta os convidados afirmando, que só na passada semana conseguiu obter a confirmação da presença destas personalidades, mesmo em tempo de poder ser disponibilizada essa informação no programa do festival.

Posto isto, Ferrara toma as rédeas do diálogo para falar um pouco sobre Go Go Tales, nomeadamente a personagem principal interpretada por Willem Dafoe, Ray Ruby. “Ray Ruby é o nosso alter-ego, é um sonhador e uma pessoa de esquemas. Não se pode animar alguém como ele, é necessário alguém com soul connection (dirigindo-se a Willem Dafoe)”.

É desta forma que as primeiras questões vão fluindo, e refere-se a questão da banda sonora e da música. A esta Ferrara responde que “Não temos direitos musicais. Eu próprio escrevi a música Star of Mine.” Ainda sobre o processo de desenvolvimento do filme, o realizador conta que o clube de strip foi construído pela equipa e foi aí que fizeram o casting das dançarinas.

Ainda com Go Go Tales em mente, Paulo Branco pergunta se Ferrara se considera verdadeiramente independente e se faz os filmes que realmente quer. A esta questão, o convidado admite alguma independência, apesar da tirania do fator económico. “Tens de fazer um filme apesar das disparidades e da crise. Eu mesmo, nasci durante a crise, se são cineastas nunca esperem que a crise acabe.”

Durante este evento, Willem Dafoe não se mostrou muito conversador, em comparação com Abel Ferrara, mas tratou sempre de responder às questões colocadas pelos fãs, acerca de outros papéis feitos pelo mesmo. Mostrou também descontração e foi a razão de algumas gargalhadas do público, especialmente quando lhe perguntam se existe algum paralelismo entre Norman Osborn, de Homem Aranha, e Ray Ruby, ao que o ator responde “Bom… ambos são interpretados por mim”. Quem ainda esperava ver o ator a realizar, apercebeu-se das suas verdadeiras intenções relativamente a esta matéria: “Eu não penso muito em realizar. Gosto de ser vida, de ter a possibilidade de sentir impulsos diferentes”.

Dafoe ainda reflete sobre qual o papel mais desafiante: ser Cristo (no filme de Martin Scorcese) ou Anticristo (no filme de Lars Von Trier). Estabelece algumas diferenças, como o facto de Cristo ser uma personagem que “afasta mais” a narrativa mas no final indica que “foram os dois, personagens divertidos de fazer.”

A dada altura, o Espalha-Factos indaga os dois convidados pedindo-lhes a sua opinião acerca do cinema português e se este tem potencial para crescer. Rapidamente, Ferrara empresta o seu microfone ao produtor português, revelando desconhecimento sobre o assunto. Assim, a questão é contornada e referem-se os cortes na cultura pelo Governo que já levam o cineasta a dizer: “Se estás à espera do Governo para fazer um filme, esquece. Tens que fazer um filme inspirado, não se trata meramente de uma questão monetária. Aliás, o 4:44 Last Day on Earth (o mais recente filme do realizador) ainda está a ser pago”. É uma pergunta que gera outras perguntas, em relação aos filmes portugueses que podem ser vistos no festival, ou às escolas de cinema nacionais, sobre as quais Paulo Branco, achou por bem não emitir nenhum parecer.

Foi assim que esta conversa aproximou o público português de Hollywood, num ambiente descontraído e divertido, onde, no final, os fãs puderam tirar fotos e receber autógrafos de um dos protagonistas desta edição do LEFFest, Willem Dafoe.

Por: Simão Chambel