O Substituto é um filme de Tony Kaye – realizador do aclamado American History X – e protagonizado de forma notável por Adrien Brody.

O assunto, seguramente, não é novidade. O cinema europeu, principalmente, tem-se dedicado ao conflito entre professor e aluno e a demonstrar o seu quotidiano, sobretudo no que toca a estratos sociais mais baixos e problemáticos. Dois casos flagrantes, e bem sucedidos, foram os filmes A Onda – do alemão Dennis Gansel – e A Turma – do francês Laurent Cantet.

Apesar de algumas semelhanças entre os filmes referidos, O Substituto vem acrescentar algo ao tema: uma nova perspetiva maioritariamente centrada no papel do professor. Na trama, o sistema escolar constitui um objeto secundário que serve de complemento e ao mesmo tempo de base para acompanharmos os fantasmas e as vivências do atormentado professor substituto, Henry Barthes. Esta mudança de foco vem desenvolver novas questões e conceções acerca da vida de um professor, sobretudo vem trazer humanidade a uma profissão que é tratada pela sociedade como impessoal e automática, quando na verdade são eles que moldam o nosso futuro.

Tony Kaye fez poucos filmes, a sua experiência baseia-se mais em documentários e vídeos de música. Contudo, a sua habilidade trouxe-nos uma cinematografia muito completa: a variedade de planos utilizados é enorme, bem como o estilo subentendido do documentário, a animação em stop motion como metáfora aos sentimentos “escondidos” pelos professores, a mudança de cor das cenas, o grão da imagem entre vários outros efeitos que se conjugam na tela e nos surpreendem a cada minuto. A banda sonora é sublime e “não tira a sensação de realismo” ao filme como tantas vezes acontece. Inevitavelmente tenho de destacar uma música: Empty de Ray LaMontagne, um habitué nestas andanças, já que grande parte do seu trabalho é utilizado na Sétima Arte. Vale a pena ouvir.

Henry Barthes pode não ser melhor que Władysław Szpilman de Polanski, mas anda lá perto. Adrien Brody incorpora um homem atormentado pelo passado, pelo medo de se relacionar e de se aproximar das pessoas (por isso é que escolheu ser professor substituto). Ao longo do filme ele vai dando o testemunho acerca da sua experiência como professor e é notória a sua desesperança na profissão, os sonhos que se desfizeram através dos acontecimentos que ditaram visão pessimista (ou realista?) da vida e da sociedade.

O restante elenco ajuda a compor a aura de desespero que está patente em todo o filme, destaque para: Marcia Gay Harden como a diretora da escola que está prestes a ser dispensada; Lucy Liu como psicóloga escolar e Sami Gayle: uma prostituta adolescente que Henry acolhe.

Ainda antes de ver o filme, estava à espera de algo relacionado com o já referido A Turma: uma viagem no quotidiano escolar, alunos violentos, mas que mudariam aquando a chegada do novo professor que lhes ensinaria algo acerca do significado da vida. Contudo, não há nenhuma mensagem de esperança no filme, os alunos não melhoram, nem o professor consegue fazer a diferença. Se a trama já se inicia mal, a tendência será sempre para piorar: mais tragédia, mais sofrimento, mais desespero. E é este realismo chocante que surpreende: nada acaba bem, não conseguimos ficar descansados relativamente ao futuro de Henry.

No fundo, a sequência final acarreta consigo uma mensagem que, durante todo o filme, Henry tentou passar aos seus alunos e a si próprio: não temos o poder de controlar absolutamente nada, nunca conseguiremos fazer a diferença, estamos destinados ao fracasso e a assistir à miséria mental com que a sociedade nos obriga a conviver. O que nos resta é protegermo-nos dos outros e dos seus julgamentos, impedindo-os de aceder e mudar aquilo que temos de mais precioso: a nossa individualidade. Somos aquilo em que acreditamos. E temos de acreditar naquilo que somos.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Detachment

Realizador: Tony Kaye

Argumento: Carl Lund

Elenco: Betty Kaye, Adrien Brody, James Caan, Lucy Liu, Marcia Gay Harden, Sami Gayle

Género: Drama

Duração: 1oo minutos