Uma das sagas adolescentes de maior sucesso a nível mundial foi sempre marcada, quase desde o início, por uma qualidade muito inferior à popularidade que detém. Eis que o capítulo final veio contrariar essa tendência: A Saga Twilight: Amanhecer Parte 2 deixa o romance num plano secundário e a acção acontece.

Os livros de Stephenie Meyer (que nunca li) são um sucesso mundial, e os filmes seguiram-lhe os passos. Reunindo uma legião de fã por todo o planeta, a saga Twilight deu origem a cinco filmes (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e os dois Amanhecer), todos eles sucessos de bilheteira, mas uma desilusão cinematográfica – à excepção do derradeiro.

Amanhecer Parte 2 deixa de lado as “lamechices” a que os seus precedentes nos habituaram. A indecisão constante de Bella, entre o vampiro Edward e o lobisomem Jacob, o dilema em tornar-se ou não vampira, e pouco mais do que isso. No ano passado, na primeira parte deste Amanhecer (muito nublado, como expliquei na crítica que pode ser relida aqui), o casamento e posterior gravidez da protagonista lançaram os dados para a última longa-metragem da saga.

O filme começa no ponto exacto onde o anterior terminou. Bella desperta transformada: agora é mãe e, finalmente, vampira. A “recém-nascida” Bella nunca se sentiu tão viva e detém agora capacidades fora do comum. Ao mesmo tempo, Jacob Black vê o seu destino marcado por Renesmee, a excepcional filha de Bella e Edward. A chegada da criança funciona como elo de ligação para esta família alargada, mas acaba também por desencadear forças que ameaçam destruí-los a todos. Os Volturi acreditam que Renesmee constitui uma ameaça ao seu poder e existência e querem destruí-la. Para protegerem a sua família, Bella, Edward e os Cullen recorrem à ajuda de vários aliados, um pouco por todo o mundo, e preparam-se para a batalha final.

O realizador, Bill Condon, mantém-se desde Amanhecer Parte 1, mas faz um trabalho superior, onde a ligeira mudança no argumento também ajuda. Apesar da fantasia continuar (de outra forma não poderia ser), o último filme distancia-se da passividade dos anteriores, onde nada acontecia, para nos proporcionar uma experiência diferente e mais violenta, no meio de vampiros e lobisomens. A história flui e há um sentido, há motivos que fazem a história finalmente avançar. O regresso dos Volturi, que já no terceiro filme da saga proporcionaram momentos de tensão, muito contribui para estes desenvolvimentos, e a segurança da pequena Renesmee é o centro de tudo. A acção avança e cativa atenções, e é atingido um clímax excelente, que culmina num twist surpreendente.

Os momentos desnecessários continuam a existir, claro, e o romance nunca poderia ser deixado de parte, ou estaríamos num filme de uma outra qualquer saga de vampiros. Amanhecer Parte 2 continua a ser um filme feito para agradar ao segmento de público do costume, mas que, desta vez, consegue surpreender os restantes. O impacto que é conseguido, perto do fim, com a batalha perde-se um pouco nas cenas posteriores que pretendem lançar aos fãs uma espécie de nostalgia dos cinco filmes. Por outro lado, parece que se quer arriscar um pouco mais, e chegar mesmo a parodiar momentos tão comuns nos filmes anteriores como, por exemplo, o facto de Jacob aparecer constantemente em tronco nu. É quase impossível que o mais descrente em relação à saga não esboce um sorriso no momento em que o lobisomem se despe para o pai de Bella, dado o sarcasmo que lhe está inerente.

Tecnicamente, e principalmente no início do filme, quando a Bella vai fazer a sua primeira caçada, a câmara mostra-nos as novas sensações que a “recém-vampira” experimenta pela primeira vez. Nota-se um cuidado especial em tentar que o espectador sinta a mesma diferença de sensações que a protagonista sente. Os efeitos especiais voltam a não ser especialmente interessantes, mas, por outro lado, a banda sonora continua um dos pontos mais fortes dos filmes da saga Twilight. Neste Amanhecer Parte 2, para além do compositor Carter Burwell, podem ouvir-se temas de Feist, Green Day, St. Vincent ou Christina Perri, por exemplo.

O elenco habitual tem muita companhia neste último filme. As novas personagens que surgem para a batalha contra os Volturi não trazem nada de novo, mas entre elas podem encontrar-se alguns casos curiosos que é interessante acompanhar. O regresso dos Volturi, por seu lado, presenteia-nos, uma vez mais depois de Eclipse, com Michael Sheen como Aro, sempre com uma prestação cheia de classe. Dakota Fanning, na pele de Jane, continua a mostrar ser uma jovem talentosa.

Quanto ao trio protagonista, Stewart, Pattinson e Lautner, destaque para a actriz, que consegue superar-se. Aro diz-lhe, a certa altura: “A imortalidade assenta-te bem”, e parece não se enganar. Ao interpretar, finalmente, uma vampira, Kristen Stewart torna-se mais impulsiva e agressiva, e só lhe fica bem. A actriz, conhecida pela sua inexpressividade, estava à espera de uma personagem com uma maior profundidade para se revelar um pouco mais. Não sendo surpreendente, a actriz consegue proporcionar momentos mais agradáveis do que nos restantes quatro filmes, enquanto experiencia a sua nova condição enquanto vampira e mãe. E aqui entra a pequena Mackenzie Foy, como Renesmee, filha do casal protagonista, que prova ter muito potencial.

A imortalidade não assentou bem apenas a Kristen Stewart. Desta vez, as salas de cinema vão receber um amanhecer diferente. Amanhecer Parte 2 vem dar alguma dignidade a uma saga que parecia totalmente perdida. O Sol não brilha mas já espreita.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2

Realizadores: Bill Condon

Argumento: Melissa Rosenberg, a partir do livro de Stephenie Meyer

Actores: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Sheen, Dakota Fanning, Peter Facinelli, Elizabeth Reaser, Mackenzie Foy, Ashley Greene, Jackson Rathbone, Kellan Lutz, Nikki Reed

Género: Aventura, Drama, Fantasia

Duração: 115 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.