A programação do Lisbon & Estoril Film Festival não deixa de surpreender.No quarto dia do festival  foram exibidos os filmes em competição Winter Go Away! e Después de Lucia, bem como as longas-metragens Holy Motors, de Leos Carax, e La noche de enfrente, do realizador Raúl Ruiz, que receberam grande aceitação pelo público. Já o quinto dia do LEFFest foi marcado pela retrospetiva a Hou Hsiao-Hen e por outras homenagens,  mas também por dar voz a realizadores mais desconhecidos, cujos filmes fazem parte da seleção “Em competição” do festival. The Shine of Day, de Tizza Covi e Rainner Frimmel, e Student, de Darezham Omirbayev, foram as películas exibidas ao público, a 13 de novembro.

Na sessão de Student, no Espaço Medeia Monumental, os espetadores puderam ainda contar com uma conversa com o realizador, que apresentou o filme, e respondeu a algumas perguntas no final do mesmo.

Winter Go Away ! – 8/10 (12 de novembro)

O documentário, realizado por  10 jovens cineastas da Escola Russa de Cinema Marina Razbezhkina, retrata a realidade atual e política da Rússia. Desde as estratégias usadas pela força opositora ao regime e o abuso de poder usufruído pelos apoiantes de Vladimir Putin, o filme consegue captar o ambiente frenético e revolucionário durante a campanha eleitoral de Fevereiro/Março deste ano.

Todo o filme é construído por imagens desprovidas de uma voz off condutora da ação, isto é, são os narradores/intervenientes espontâneos que se colocam à frente da câmara e descrevem os acontecimentos por vezes de forma parcial e exagerada.

Apesar do domínio rígido exercido pelo governo de Putin, os grupos de oposição também não são o melhor exemplo. Por vezes usam esquemas e ações de protesto pouco ortodoxas e de verdadeiro show-off promocional, como foi o caso das Pussy Riot e da sua demonstração numa Igreja Ortodoxa. A banda punk ganha imenso destaque neste filme, quando acompanhamos a sua ação de protesto e a sua visão em relação à falsa Rússia unida, defendida por Putin na sua campanha eleitoral.

Winter Go Away! é uma expressão de protesto contra Putin e um hino aos movimentos políticos da Rússia. A veracidade dos depoimentos e das imagens apresentadas no filme valeu a sua exibição no Festival de Locarno na secção intitulada Cineastas do Presente.

 Por: Sara Alves

The Shine of Day – 8/10 (13 de novembro)

Dois artistas e familiares encontram-se à porta de casa em Hamburg. O tio é um profissional do circo que, entre muitas habilidades, lutava com ursos em plena arena. O sobrinho é um ator de teatro, que divide o seu trabalho entre Hamburgo e Viena, sendo reconhecido pelos seus papéis e pela sua vida muito ocupada mas solitária. Estas duas almas perdidas reúnem-se para falar sobre o passado familiar e o percurso das suas vidas.

O filme retrata assim a relação conflituosa entre irmãos, a aproximação entre dois desconhecidos que têm tudo em comum e reflete sobre as escolhas de vida de cada personagem. Uns são livres realizando as suas paixões, outros ficam aprisionados às convenções sociais exercendo um trabalho pouco apelativo, mas reconhecido.

O perfil intimista do filme e a forma como as imagens são captadas transportam o espetador para dentro da casa onde tudo acontece, quase como convidados à assistir às inúmeras conversas que os protagonistas realizam. Esse sentimento de pertença àquela família é reforçado enquanto conhecemos profundamente cada interveniente da história.

Em contrapartida, quem estava à procura de um filme de ação com uma história muito frenética, enganou-se na sala. A longa-metragem pretende analisar a psicologia de cada personagem e a sua visão do mundo, por conseguinte falta-lhe algum acontecimento intrigante que pudesse captar a atenção do público de uma forma mais intensa.

The Shine of Day é um hino à liberdade e à procura incessante da realização de um sonho. Um filme com várias lições de vida e recomendado a toda a família.

Por: Sara Alves

 

Student – 7/10 (13 de novembro)

Student baseia-se na conhecida obra de Dostoevsky, Crime e Castigo, que é inscrita num contexto atual que conduz o espetador ao núcleo do capitalismo e à reflexão de alguns dos grandes problemas contemporâneos.

O protagonista é um estudante de Filosofia solitário que vai começar a refletir sobre a sua condição, num mundo onde os mais poderosos ditam as regras, como o sugere a sequência inicial do filme, e outros belíssimos momentos de cinema que evidenciam a crueldade do Homem e o seu aspeto mais selvagem. Depois de uma aula marcante em que se trata das vantagens do capitalismo e de alguns princípios fundamentais da teoria de Darwin, e profundamente influenciado por um meio onde os contrastes sociais são uma realidade, o jovem vai roubar uma loja em Almaty acabando por cometer homicídio.

A cena do crime é um dos pontos altos do filme, dotada de grande tensão e com uma enorme proximidade ao espetador, que claramente vê as expressões e indecisões do estudante até à altura decisiva na qual a transgressão é cometida. É um momento intimista no qual não falta a esperança para a salvação do estudante relativamente aos seus intentos.

Depois do crime vem o castigo, uma culpa incontrolável que consome o estudante, e que pauta a maior parte da película. É uma parte mais aborrecida e repetitiva, que vem introduzir segmentos anteriormente vistos e que, por essa razão, não têm grande razão de ser. As representações dos atores são outro dos pontos negativos, especialmente a do protagonista, que não apresenta carisma ou energia para transmitir as emoções da sua personagem, dotada de uma dimensão psicológica que poderia ter sido muito melhor explorada pelo ator.

O mérito vai para Omirbayev em algumas cenas absolutamente notáveis, em que evoca o espaço psicológico, ou seja, a consciência e os sonhos das personagens, conferindo-lhes uma dimensão surrealista sólida. O realizador consegue surpreender também ao criticar mordazmente o capitalismo, comparando-o à vida selvagem através de documentários que se sobrepõem à ação principal. Os diálogos sobre esta questão estão bem conseguidos e conseguem encaminhar o público a uma reflexão necessária sobre a sociedade e as regras que a constituem.

Apesar de faltar alguma originalidade e firmeza a Student, este é um filme que consegue surpreender pelo realismo, sobretudo por abordar os grandes contrastes sociais que nos inquietam e revoltam, mas também por mostrar que a maior força do ser provém da honestidade e da responsabilidade.

Por: Simão Chambel