Napoleão Bonaparte bem se pode vangloriar por ter conquistado uma grande parte do território europeu, mas há uma ilha em particular que ele nunca conseguiu ocupar, a Grã-Bretanha. Os Gojira, apoiados pelos seus compatriotas Trepalium e Klone, decidiram rectificar os erros do passado, lançando-se numa tour mundial, com especial foco no Reino Unido.

Este que vos escreve, aproveitando a sua excursão académica às terras de sua Majestade, decidiu reportar o campo de batalha que foi o Rescue Rooms em Nottingham. Sem Horácio Nelson para os defender, os ingleses estiveram indefesos perante as ofensivas e foram impiedosamente pulvorizados pelo melhor que a cena de groove metal francesa tem para oferecer, resultando num cenário onde os galeses distribuiram pancadaria a rodos e deixaram o público a pedir por mais brutalidade.

OK, chega de história europeia e metáforas bélicas, sigamos com o relato das festividades. Às 18:15 horas em ponto (ou não seria esta a terra da pontualidade), os Klone subiram ao palco para dar inicío à noite. Sem querer entrar em conotações infelizes quanto ao seu nome, a verdade é que o sexteto de Poitiers não prima exactamente pela originalidade e variedade, dando preferência à dicotomia verso suave/refrão pesado e à utilização de riffs arrastados e a meio tempo mas sempre com peso monolítico, tendo ainda alguns pormenores técnicos de bom gosto (apesar do som pouco claro que por vezes abafou os ditos pormenores).

Foi por isso muito bem vinda a inclusão de uma música mais rápida como All Seeing Eye com o seu pedal duplo demolidor, qual tanque francês (ok, esta foi a última). Com isto dito, não se quer dar a entender que os Klone são uma banda aborrecida, nada disso. São sim competentes naquilo que fazem e justificaram a sua posição como banda de abertura, sendo infindavelmente mais interessantes ao vivo do que em CD. Destaque ainda para a interessante cover de Army of Me (original da Bjork), para o portento do baterista Florent Marcadet e para a abordagem vocal grandiosa de Yann Ligner, com um aspecto algo remniscente a  Freddy Mercury (é o bigode, é sempre o bigode).

Alinhamento

Intro + The Eye of the Needle Part.2
Give Up the Rest
All Seeing Eye
Rocket Smoke
Dreamer’s Hideway
Army of Me

O que se verificou a seguir foi uma volta de 180 graus, com os Trepalium a mostrarem que têm originalidade para dar e vender. A sua estirpe de “boogie death metal” apanhou de surpresa a audiência britânica, variando entre riffs de natureza mais groovy (nota-se uma pontinha de influência norte-americana), outros riffs mais a pender para o death metal frântico e pervertido, e outros ainda a primar pela influência de música de cabaret (daí o “boogie”), muitas vezes misturando  estes três elementos na mesma música. Foi, portanto, uma performance variada, uma banda sonora perfeita para um circo de palhaços assassinos.

Encabeçados pelo lunático Kéké, de rastas até ao fundo das costas, a actuação refrescante deste colectivo oriundo de Boismé primou-se pela mestria das 6 cordas dos guitarristas, disparando solos atonais e riffs angulares a torto e a direito e (mais uma vez) facto da banda ter um polvo injectado com esteróides atrás da bateria, de seu nome Sylvain Bouvier. Para se ter um gostinho do espectro onde estes gauleses se inserem, nada melhor do que ouvir a selvática Prescription of Crisis do mais recente álbum ou a valsa macabra de Sick Murder Boogie (que até conta um momento de saxofone e doo-wop).

Alinhamento

Heic Noenum Pax
Prescription of Crisis
Insane Architect
Worst F(r)iend
Decayed Emotions
Sick Boogie Murder
Daddy’s Happy
Necropolis
Usual Crap

A cereja no topo do bolo nesta noite de saudável violência seria a actuação dos Gojira. Os naturais de Bayonne, a caminho do estatuto de banda internacionalmente reconhecida, não só pelos préstimos músicais mas também pela mensagem de responsabilidade ecológica e de sustentabilidade que defendem, assinaram uma prestação incólume. Com boa parte do alinhamento a pertencer ao seu mais recente álbum L’ Enfant Sauvage (lançado este ano) e ao anterior The Way of All Flesh, a sua sonoridade é algo dificil de descrever. Imaginem os ruídos que o estômago da Mãe-Terra faz quando esta tem fome, tamanho chavascal aproxima-se daquilo que os Gojira fazem ao vivo, especialmente quando lançam uma bomba atómica como Backbone sobre os mais incautos, capaz de fazer deslocar placas tectónicas.

Abrindo com a explosiva Explosia (não pude resistir…), seguir-se-ia um trio de petardos do álbum From Mars to Sirius. A partir daí, o resto da actuação seria composta quase exclusivamente por temas dos dois álbuns anteriormente referidos (com a excepção da mais velhinha Wisdom Comes), com, por exemplo, o ritmo quase dançável do single L’Enfant Sauvage, a espástica Toxic Garbage Island, a secção melodiosa e contemplativa de The Art of Dying e The Axe, com direito a uma versão prolongada. Todo o concerto, pois claro, a contar com um Joe Duplantier energético, comunicativo e em boa forma vocal, a abusar das pinch harmonics como de costume.

Antes de se terminar o setlist, tivemos direito a um solo de bateria excepcional de Mario Duplantier, a apostar mais na criação de padrões rítmicos interessantes e quase tribais e menos na exploração do seu kit e Vacuity, a música mais desinteressante do concerto, com o seu teor repetitivo. Para encore, para equilibrar o buraco deixado pela música anterior, The Gift of Guilt, uma das melhores do novo álbum. De apontar a ausência de Clone, do longínquo Terra Incognita, que até à data tinha figurado em todos os concertos da banda, a coesão do conjunto (mais apertada do que o Bloqueio Continental) e a qualidade sonora que os técnicos de som proporcionaram.

Assim sendo, não há mais nada a dizer senão que a França conseguiu a sua vingança ao fim de mais de três séculos. Os beligerantes gauleses chegaram ao ponto de esfregar na cara a sua conquista apoteótica com Mario Duplantier a atirar-se para o público em cima de uma prancha de Bodyboard (talvez dando um novo significado à expressão) crowd-surfing?). Com tanta vontade de conquistar outros países, fica no ar uma questão: Porque é que ainda não invadiram o território luso? Esperamos ansiosamente pela resposta.

Alinhamento

Explosia
Flying Whales
Backbone
The Heaviest Matter in the Universe
L’Enfant Sauvage
The Art of Dying
Toxic Garbage Island
Wisdom Comes
Oroborus
Solo de Bateria
The Axe
Vacuity

Encore

The Gift of Guilt

* Por opção do autor, este artigo foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.