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LEFFest 2012 – A Arte invade o Festival

As grandes emoções continuam na 6ª edição do Lisbon & Estoril Film Festival. No terceiro dia do festival destacaram-se a obra Bob Wilson’s Life and Death of Marina Abramovic da Sessão CinemArt, artista das artes performativas que já tinha sido retratada no Queer Lisboa e a longa-metragem em competição, Lawrence Anyways, de Xavier Dolan, que contou com a presença de Melvil Poupaud no final da sessão.

Bob Wilson’s Life and Death of Marina Abramovic – 9/10

Tudo começou com um telefonema entre a artista Marina Abramovic e o encenador Bob Wilson. Ela pediu-lhe que ele encenasse uma peça de teatro sobre a sua morte e o seu percurso de vida e foi assim que a peça e o filme ganharam forma.

O documentário debruça-se sobre o processo criativo da peça de Bob Wilson, baseada na vida de Marina Abramovic. A obra em palco foi criada através de uma colisão de ideias produzidas por grandes artistas. Com os rígidos movimentos e rigorosas coreografias de Bob Wilson, a eloquência e versatilidade de Willem Dafoe e a poética combinada com  a voz angelical de Antony Hegarty, criaram-se os componentes principais para o sucesso desta peça, que pretende expor e fazer reviver cada momento da passagem de Marina pelo mundo.

Os dois pólos antagónicos de Marina Abramovic encontram-se em palco durante toda a performance. O passado militar e disciplinado da identidade patriótica conjuga-se com a emotividade e a contemplação criativa de uma artista, que afinal não tem total controlo sobre a fragilidade intrínseca à sua natureza.

É curioso reparar na estranha aliança entre estes dois grandes artistas tão distintos um do outro. A visão de naturalidade, expressividade e tragédia imprimida nas obras de Marina é completamente contraposta com a linguagem técnica desprovida de psicologia e emoção dos movimentos e cenas, que Bob Wilson reproduz na peça. Contudo a simbiose destas duas perspetivas construiu um espectáculo divinal e visualmente apelativo.

O filme mostra igualmente o processo de exploração da artista, que vai relembrado e libertando-se do seu passado, a partir do efeito de catarse que o espectáculo proporciona. O encenador, com o seu toque irónico e contraditório, conseguiu desconstruir os acontecimentos de uma forma artística e realizar uma leitura criativa da vida trágica de Marina, ajudando-a a ultrapassar os seus maiores medos e a ir ao seu próprio encontro.

Por: Sara Alves

Laurence Anyways – 8/10

Com apenas três longas-metragens na sua carreira, não há dúvidas de que Xavier Dolan já marcou uma posição no panorama cinematográfico. Depois de J’ai tué ma mère e Amores Imaginários, o realizador traz-nos Laurence Anyways.

A acção começa no início dos anos 90. Laurence (Melvil Poupaud) é um professor de literatura que vive uma relação amorosa com Fred (Suzanne Clément). No entanto, vive como mulher aprisionada num corpo de homem. Quando decide lidar com isso, a relação entre os dois sofre mutações, enfrentando preconceitos da família e da sociedade ao mesmo tempo que lidam com os seus próprios sentimentos.

O filme acompanha os 10 anos dessa relação, com todas as fases por que passa e as constantes metamorfoses – a metamorfose é, aliás, uma ideia muito forte, traduzida tão bem pela borboleta que sai da boca de Laurence.

Ao longo de quase três horas – e não era preciso todo esse tempo para contar esta história – assistimos às intensas interpretações de Melvil Poupaud e Suzanne Clément nos principais papéis, assim como Nathalie Baye, que interpreta a mãe de Laurence.

É possível encontrar todo o estilo de Xavier Dolan neste filme: o uso da câmara lenta, muitas vezes combinado com os grandes planos de costas, o excelente uso da cor, como na cena da discoteca, e uma banda-sonora perfeita. Entre êxitos dos anos 90 e passagens de música clássica, encontram-se nomes como Kim Carnes, The Cure e Duran Duran assim como Vivaldi, e ainda a belíssima Montagnes & Capulets de Sergei Prokofiev, que não poderia representar melhor o carácter desta relação.

Laurence Anyways sem dúvida revela a maturidade obtida por Dolan. Vencedor da Queer Palm deste ano, em Cannes, é um filme altamente recomendável.

Por: Renata Curado (*)

(*) Por opção da autora, este texto foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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