Cerca de cinquenta anos volvidos sobre a sua estreia, eis que Lola, o grande clássico do cinema francês, veio abrilhantar 13ª Festa do Cinema Francês, integrada este ano na programação da Capital Europeia da Cultura (CEC). Coube pois a Guimarães saborear, em primeira mão, a versão restaurada desta obra de Jacques Demy. Uma honra que, como vem sendo hábito, a plateia vimaranense não descartou.

O nome da personagem principal dá título ao filme, de resto anunciado ao púbico a partir de uma graciosa imagem de Anouk Aimée, enigmática, destemperada, olhar intrigante, uma mulher que ao primeiro relance pode ser tudo, daquelas que estimulam a imaginação masculina e acicatam a desconfiança (ou admiração) feminina. Ao primeiro relance, o sugestivo busto de Lola faz antever um filme escorreito, leve, descontraído, apaixonado, insensato e talvez meio louco. Aquela expressão diz tudo: a ordem é para desdramatizar.

Assim foi. Depois do seu visionamento, toma-se consciência da contribuição preciosa que foi o minucioso trabalho de restauro do filme, com recurso à tecnologia atual, levada a cabo em conjunto pela Fondation Technicolor pour le Patrimoine du Cinéma e pela Fondation Groupama Gan pour le Cinéma. Outros trabalhos idênticos têm sido feitos, num louvável esforço de perpetuação de obras cinematográficas de grande qualidade, que merecem ser descobertas pelo público atual.

Lola é “dançarina” num clube de diversão frequentado por militares americanos, em Nantes. Dessa cidade saíra há muitos anos o grande amor da sua vida, Michel, de quem engravidara. Lola, de feitio genuíno mas inconscientemente sedutora, senhora de uma beleza que faz sofrer tanto outros como a ela mesma, vive uma vida desprendida, entre o seu filho pequeno, o cabaret, e a partilha da alcova com namoricos ocasionais.

Certo dia, reencontra Roland, um antigo amigo de infância que reacende a sua paixão por ela. Demy pinta o quadro logo no início do filme, quando (o agora rico) Michel volta a Nantes. Cidade pequena, feita de pequenos cruzamentos pessoais, deliciosamente interligados, o enredo desenvolve-se sob o espectro de Michel, que teima em não dar de si de imediato, deixando Roland e Lola revisitarem o passado e lançarem as sementes para um futuro a dois.

Roland acaba por ser o epicentro tragicómico do filme: ele é a vítima de uma visão idílica da vida, perdido nos seus sonhos, ansioso por um propósito maior que a ilumine e lhe confira um sentido. Até o crime se lhe apresenta como opção válida para o livrar do tédio quotidiano. Depois de falhanços continuados, Roland vê na reencontrada Lola a sua tábua de salvação. Pura ilusão, a vida volta a pregar das suas e Roland vê, impotente, Michel voltar para reclamar o que é seu.

Lola é a longa-metragem fundadora da filmografia de um dos incontornáveis nomes da nouvelle vague francesa. Extremamente bem musicado, tal torna-o apelativo aos sentidos, especialmente as melodias de cabaret – que incluem uma tentadora Lola cantando “c’est moi, c’est Lola!” para uma câmara que parece dançar com ela.

Um filme sobre os caprichos do destino, sobre o que ela dá e tira, sobre a liberdade de agir segundo os anseios humanos, mas também uma apologia do escape, da redenção, e do retorno ao que nos preenche e faz feliz. Enfim, um filme sobre a vida.

 

8/10

Ficha Técnica:

Título original: Lola

Realizado por: Jacques Demy

Escrito por: Jacques Demy

Elenco: Anouk Aimée, Marc Michel, Alan Scott, Jacques Harden, Elina Labourdette

Género: Clássico

Duração: 85 minutos