É bastante impressionante assistir a Andrew Bird tomar o seu famoso violino e assobio, juntar-lhe o riff de uma guitarra, a suavidade de um xilofone e camadas e mais camadas em loop até que uma peça inteira de música seja criada. Ontem à noite, na Aula Magna, Bird fez isso com uma mestria que comprovou que é um dos maiores singer-songwriters dos últimos anos.

Foi numa sala bastante composta que Andrew Bird iniciou timidamente o concerto com Hole in the ocean floor, música de Break it Yourself, editado este ano, e que o músico veio apresentar. Quase pegada a ela surgiu Why? numa viagem a Swimming Hour (2001) com a insanidade de Bird a manipular as máquinas à sua volta. Logo aqui os presentes se aperceberam que ali se presenciaria muito mais que um concerto, uma vez que Bird revelou, para além do virtuosismo e criatividade musical, uma excelente capacidade para a narração e dramatização de histórias.

À terceira música um conjunto de três juntou-se a ele – baixo/contrabaixo, bateria/teclados e guitarras – e o próprio assinalou a felicidade de voltar a Portugal e de estar cá com a sua banda, prometendo tentar não se demorar tanto a regressar. A Nervous Tic Motion of the Head To The Left” foi a primeira incursão pelo maravilhoso e conhecido Andrew Bird & the Mysterious Production of Eggs (2005). Esta música, como a que se lhe seguiu – Desperation Breeds, faixa de abertura de Break It Yourself  – ganhou ao vivo um ar mais rockeiro, com Bird a dedilhar a guitarra elétrica com a sofisticação clássica que lhe conhecemos.

Seguiu-se a gelidez de Fiery Crash pegada a Danse Caribe e de imediato a nostálgica Effigy, a mostrar-nos a limpidez e a beleza da voz de Andrew Bird.

Sem St. Vincent, surgiu um dos momentos altos da noite, com Lusitania, tema que brilha como o sol sob um mar que marulha. “Podia ser sobre o vosso país, mas é sobre um navio (não é, de todo)“, conta Andrew Bird.  Na verdade, o escritor e compositor usa imensas metáforas para cantar as relações e esta canção é isso mesmo: uma excelente metáfora sobre os cenários de guerra para onde somos arrastados pelo amor.

Passou depois por Orpheo Looks Back (que foi escrita numa varanda na Graça) e com Give it Away (música em que colabora Eleanor Friedberger dos Fiery Furnaces, também ela bastante amada pelo público indie português) iniciou uma sequência intimista em que se juntou à volta do mesmo microfone com os restantes elementos da banda, acompanhados agora por contrabaixo, guitarra acústica e, na bateria, “vassourinhas”.

Na mesma toada surgiram When That Helicopter Comes (versão dos Handsome Family – sim, é verdade – incluída em Hands of Glory, EP lançado recentemente), Sovay (linda e suicida), MX Missiles ( sobre como sobreviver “entre os 14 e os 22 anos”) ou a catastrófica Something BiblicalAndrew Bird mostrava assim que além de um escritor de músicas fabuloso, é também um contador de histórias encantador, que consegue abordar os temas mais profundos mas também os mais corriqueiros com uma delicadeza e detalhe ora obscura, ora ternurenta.

De volta às camadas de som enlaçadas pelos vários instrumentos, o músico apresentou ainda Three Wild Horses (som folk, sem espinhas), PlasticitiesFatal Shore, Eyeoneye e Tables and Chairs, temas mais rockeiros e igualmente intensos.

Os elogios e a troca de amor com o público (“We love you“, gritou uma fã mais entusiasmada, e obteve a resposta “I love you too“) deixaram claramente a audiência rendida, que no final do concerto “abraçou” a banda com uma grande ovação de pé.

Houve ainda lugar a um bem conseguido encore que se iniciou com If I Needed You, versão de  Townes Van Zandt incluída em Hands of Glory Railroad Bill, do mesmo EP, teatralizada com muito jeito por Bird; Don’t Be Scared, a canção que o músico julga ser encorajadora; e para finalizar a apoteótica Fake Palindromes, num regresso à magia de 2005.

Se os discos de Andrew Bird são primorosos, ao vivo o seu talento e excelência sobressaem ainda mais. As lindas cantigas são musicalmente riquíssimas e o seu harmonioso assobio, por vezes vacilante, joga com a intensidade do violino e das interpretações quase teatrais. Estamos perante uma ave rara, sim senhor.

 

Fotografias: João Churro