Para os amantes da sétima arte falada na língua de Camões, o Festival Caminhos do Cinema Português é um ponto obrigatório. A sua XIX edição começou ontem e, até dia 17, apresenta uma programação variada que pretende mostrar todos os tipos de cinema produzido em Portugal. Com todas as dificuldades que os tempos de crise trazem, Vítor Ferreira, diretor do Caminhos, considera o festival não só uma oportunidade de mostrar filmes portugueses mas também de os debater num contexto social.

Espalha-Factos (EF): Caminhos do Cinema Português é mais que um festival de cinema… Que atividades fazem parte do programa?

Vítor Ferreira (VF): As atividades têm vindo a crescer no festival. Aquilo que foi no início uma simples secção competitiva, apenas mostrar o cinema português em competição, passou a incorporar ao longo dos anos diversas atividades: o Caminhos Júniores, que são as sessões de manhã dedicadas às crianças, é uma forma de permitir o contacto, algumas pela primeira vez, não só com o cinema português mas também com o ambiente da clássica sala de cinema; a secção Ensaios Visuais, constituída pelos filmes das escolas de cinema, audiovisual e multimédia, é uma tentativa de criação de um espaço onde os alunos do ensino superior possam exibir os seus trabalhos colocando-os à disposição de um público; a formação, que numa primeira fase consistia em realizar workshops na semana do festival, atualmente, é um curso completo de cinema que se prolonga ao longo do ano e que permite criar ao festival uma dinâmica anual de aprendizagem; e temos outras atividades como a retrospetiva que, este ano, é sobre o erotismo no cinema português. Outro projeto, já realizado com alguma consistência, é o Caminhos do Cinema Mundial que, em que cada ano, é dedicado a um país. Na presente edição é a Irlanda. Esta atividade incorpora uma novidade este ano: para além da mostra dos filmes, vamos ter em Coimbra uma exposição de fotografia de artistas plásticos irlandeses, também por ocasião de um outro festival. Ao longo dos anos, o festival tem incorporado atividades que lhe dão uma dimensão considerada e, acima de tudo, a capacidade de atrair diferentes tipos de público e de corresponder às diferentes solicitações das pessoas da cidade e da região.

EF: Houve alguma inovação em relação às edições anteriores? Como a caracteriza?

VF: Houve inovação ao tentar consolidar as Master Sessions que são debates que pegam na temática dos filmes que estão a concurso. A ideia é transformar aquilo que era uma sessão simples de cinema num debate de intervenção social, cultural ou sobre uma determinada temática de um filme. No ano passado foram introduzidas com os temas sobre a praxe e os sem abrigos e este ano alargámos o espetro. No fundo é transformar o filme num pretexto para uma discussão mais alargada, coisa que não existia antes no Caminhos. A discussão cingia-se ao filme em si e não ao que o filme poderia propiciar em debate. Isto é uma inovação porque é a consolidação de uma experiência que foi feita no ano passado e que, este ano, vamos alargar a quase todos os dias do festival. Não a todos porque era impossível lidar com tanto debate… Mas pelo menos solidificar este tipo de sessões para que o público também se habitue a ir ver os filmes e a pensar sobre eles e sobre o que representam no nosso contexto social e político.

EF: Ao nível dos filmes a concurso, como são escolhidos os que são exibidos?

VF: Primeiro, só podemos escolher os filmes mediantes o número de inscrições que se apresentam ao festival. Nisso também se notou uma evolução. No início era quase preciso choramingar aos produtores e realizadores para que eles nos cedessem os filmes e hoje processa-se exatamente o contrário: os realizadores inscrevem os filmes e dada a quantidade, este ano foram cerca de 200, fazemos uma seleção. Era impossível mostrar tudo numa semana, só se fizéssemos sessões de manhã, à tarde e à noite. Neste ano por exemplo houve longas-metragens que ficaram de fora porque é impossível programar mais do que as 13 longas que temos. O critério essencial é “todo o cinema português”. Ou seja mostrar todo o tipo de tendências, desde os realizadores mais consagrados aos realizadores menos consagrados, tentar equilibrar o programa com isso e não cair no erro de mostrar só um tipo. Nós queremos ter os realizadores de cinema comercial e de cinema de autor. Mostrar um bocadinho de todas as tendências. Se programássemos mais longas, por exemplo, estaríamos a ir contra um outro critério de seleção: ter um bocadinho de todos os estilos (da curta, da animação e do documentário). Este tipo de equilíbrio é difícil mas acho que a programação deste ano o reflete. Também intervém, como é lógico, a qualidade do argumento, às vezes são escolhas subjetivas das pessoas da organização que veem os filmes e os avaliam. A última palavra é minha, mas antes passa pelo crivo da Margarida Mateus, a nossa programadora, que recomenda os filmes com base em tudo o que viu. É impossível para mim, como diretor, ter uma noção clara de todos as obras.

EF: As animações e os documentários têm uma presença forte nesta edição. A qualidade destes géneros está ao nível da dos congéneres europeus?

VF: Eu penso que sim. Ao nível das animações, sim. Eu fiquei agradavelmente surpreendido pela quantidade de animações presentes este ano, acho que são bastantes. Normalmente não há tanta animação porque é um trabalho moroso, não é como filmar pessoas reais, é muito mais difícil: uma cena de cinco minutos, se calhar, chega a demorar um ano inteiro a fazer. Ao nível do documentário, sempre tivemos grandes documentários de qualidade, se calhar, ao nível dos melhores da europa. As produções deste género já dão uma marca do cinema português. Ao longo dos anos, tendo em conta a diversidade de programação, fomos sempre dando hipóteses ao documentário e à animação porque festival de curtas e de longas há muitos. Quanto a festivais de documentário, em Portugal, só conheço um, o DocLisboa, onde as produções portuguesas, por vezes, nem têm acesso. No que toca à animação, pelo que ouvi na comunicação social, está em risco de fechar o único que tínhamos que era o Cinanima de Espinho.

EF: O festival atrai profissionais interessados no cinema português?

VF: Ainda não temos essa capacidade. Era uma coisa que ansiávamos mas não há recursos financeiros para implementar esse projeto. A nossa ideia era transformar a cidade de Coimbra num mercado de cinema português: convidar produtores e, essencialmente, distribuidores estrangeiros para virem à cidade ver o que se produz de cinema português. Porque temos aquela coisa muito portuguesa: “nós é que temos de ir lá fora”… Pois porque não inverter as coisas? Porque não pensar em Coimbra como palco de vendas de filmes e de produções e simultaneamente promover o país ao nível do turismo, da cultura, etc? Mas nós preferimos ir gastar milhões para mostrar os filmes em Cannes. Talvez seja mais fácil comprar um charter e trazê-los cá todos do que montarmos uma barraca no festival de Cannes. Isto é a minha humilde opinião. No entanto, não nos é possível implementar este tipo de projetos por falta de recursos. Se houvesse uma estratégia do nosso governo para a cultura onde estivesse claramente explicado o que é que se pretende e como se pretendem as coisas, acredito que era um projeto que teria pernas para andar e que poderia ser uma mais-valia até para a região centro. No entanto promove-se o Algarve para que um ou dois grandes nomes lá vão filmar e gastam-se milhões a subsidiar esse tipo de filmagens. E eu acredito que seja pouco o retorno que eles trazem. Até porque as nossas câmaras fazem exatamente o mesmo com as telenovelas.

EF: Ao nível do financiamento, com que apoio contam para a organização do festival?

VF: O financiamento que temos para esta edição é mais ou menos equivalente ao da edição anterior. Não é o suficiente mas o festival é feito à custa de voluntariado, à custa de “casmurros” que estão aqui a trabalhar sem receber nada. E é assim que se consegue fazer esta atividade. Mas se as coisas continuarem assim, não vejo muitas possibilidades que a edição de 2013 se venha a realizar. Aliás considero que há um contrassenso da política: parar de imediato o financiamento de determinados projetos que já estão consolidados e que têm um papel ativo no território, neste caso na região centro. É um corte cego. Atividades, como por exemplo o Caminhos, que chegaram ao patamar onde estão muito à custa do vencimento público. Acho que tem de haver uma clarificação das políticas culturais que queremos para o país: dizer que tipo de projetos interessa apoiar. Isso nunca foi feito. E por nunca ter havido a coragem de seriar aquilo que se apoia é que estamos nesta crise. Depois há um corte cego que tolhe todas as organizações, nomeadamente aquelas que até têm um papel ativo e que têm demonstrado resultados. Este ano já houve dois festivais de curtas-metragens que fecharam as portas por falta de financiamento público. O caso do Faial Filmfest nos Açores e o caso do Festival Internacional de Curtas-metragens de Évora.

EF: Há quanto tempo preside ao festival? Como chegou até aqui?

VF: Quando eu cheguei ao festival não havia diretor, havia apenas uma equipa de organização. O que obriga a que haja alguém que assine como responsável pelo projeto é o programa de apoio a festivais em território nacional. Para além de obrigar a que haja um diretor, obriga a uma coisa mais caricata: essa pessoa tem de ter pelo menos cinco anos de experiência em festival se não nem se pode candidatar. Se eu não assinasse, não havia mais ninguém que pudesse assinar. A não ser que se começasse agora outro festival em “Alguidares-de-Baixo”, tivesse lá cinco anos a projetar para salas vazias, como alguns festivais portugueses fazem. É um ponto básico do programa de apoio a festivais e pelo menos metade do financiamento do Caminhos vem de lá. O Caminhos do Cinema Português, ao longo dos anos, têm incorporado pessoas que entram e saem. Mas na chefia, no cargo de diretor, é impossível por causa desta imposição. O festival tem a curto prazo de arranjar uma estrutura permanente porque se não corre o risco… Porque é impossível organizar este conjunto de atividades com pessoas que trabalhem ou estudem. Eu estou aqui a fazer um esforço porque devia estar a fazer investigação para o meu doutoramento. Porque é isso que ao fim do mês me permite comer, não é o festival.

Breve História do Festival

Tudo começou como um projeto complementar ao curso de língua portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, decorria o ano de 1988. O Festival Caminhos do Cinema Português (nome que se mantém desde a primeira edição) era, na altura, apenas uma mostra de cinema que convidava os alunos do curso de verão de português a conviverem com a língua e com o seu cinema. Esta iniciativa voltou a acontecer em 1989 e 1993 e tornou-se regular a partir de 1996. Este ano, o Caminhos celebram a sua XIX edição sem saber se para o ano poderão continuar. “Até ao momento as coisas para 2013 estão muito indefinidas: não se sabe se há concurso de apoio a festivais em território nacional da parte do financiamento público”, explica Vítor Ferreira.

Programação da XIX edição

Nesta edição, o Caminhos conta, pela primeira vez, com 13 longas-metragens a concurso e, também pela primeira vez, têm filmes na sua programação que tiveram grande afluência de público quando estiveram no circuito comercial. Florbela, Balas e Bolinhos, Morangos com Açúcar – O Filme, A Última Vez que Vi Macau, entre outros. Segundo a programadora Margarida Mateus a seleção dos filmes pretende “desmistificar aquela ideia de que o cinema português é um cinema de elites, mais de autor”. A programação é pensada para que, ao entrar na sala de cinema, o público tenha acesso, para além do filme, a uma curta ou a uma animação que, segundo Margarida Mateus vai “despertar o interesse para outras sessões e fazer com que o público goste de cinema português”.

Flyers na caixa de correio?

A adesão tem vindo a evoluir progressivamente. “As pessoas, às vezes, dizem que não tomaram conhecimento de determinado evento. Nós já equacionámos fazer 150 mil flyers e levá-los pessoalmente a cada caixa de correio conimbricenses, mas depois verificámos que isso era muito caro”, conta Vítor Ferreira entre risos. A divulgação do festival é visível por toda a cidade e pela zona centro e, para além disso, o Caminhos conta ainda com a página oficial, do Facebook, e através da parceria com jornais nacionais. “Isso tem-se repercutido nas sessões que têm sistematicamente vindo a aumentar os números e a consolidar as bilheteiras.

Pode consultar a programação do Caminhos do Cinema Português em www.caminhos.info.