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LEFFest 2012 – Início da magia da sétima arte

Arrancou ontem o Lisbon & Estoril Film Festival, que deu a conhecer ao público português dois filmes americanos prestigiados e reconhecidos pela crítica internacional, The Master, de Paul Thomas Anderson e Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin. Estes filmes marcaram a abertura do festival e foram alvo de uma elevada procura, tendo The Master esgotado ainda antes do início do festival, no Espaço Medeia Monumental.

Hoje a magia da sétima arte continua, com destaque para Amour, de Michael Haneke, e para a estreia do primeiro filme em competição, Children of Savarejo realizado pela bósnia Aiba Begic.

Beasts of the Southern Wild (9/10) – 9 de Novembro

Beasts of The Southern Wild transporta o espetador a uma comunidade fictícia, intitulada de Banheira, onde a protagonista, uma rapariga de seis anos chamada Huspuppy, se vê confrontada com certos problemas que vão mudar completamente a sua vida. A essência da narrativa assenta em questões atuais, as do degelo e do aumento do nível da água aliadas a elementos sobrenaturais, como a do reaparecimento da espécie dos auroques que ameaça a Humanidade. A Banheira é uma povoação deliberadamente distanciada da nossa sociedade por barreiras simbólicas e físicas, que tem de enfrentar estas calamidades sem qualquer tipo de auxílio.

É neste contexto que é introduzida a relação de Hushpuppy com o seu pai Wink, personagem que confere uma outra dimensão ao filme, pela complexidade dos seus ensinamentos à filha mas também pela terrível condição de saúde que sobre ele se abate. Relativamente à educação, é uma das partes mais curiosas do filme que reflete sempre a necessidade de se ser forte, num mundo de abandono e solidão.  É uma educação muito específica por se identificar com uma cultura também muito própria, singular, quase que imaginária.

A importância da cultura corresponde a um dos aspetos mais fortes desta película, e é claramente notável pelos modos de vivência destes peculiares personagens, diferentes de todos os outros. De facto, o filme inicia-se com uma cena belíssima em que o contraste de cores e luzes (da escuridão com o fogo de artifício) serve um propósito maior, o da manifestação de uma contracultura sem regras formalizadas e de caráter selvagem como o próprio título sugere. E no meio de toda esta comemoração pela indiferença, nascem autênticos exemplos de um patriotismo incrível, que não necessita de um Estado ou Nação para existir, apenas da união entre os Homens e do valor dessa ligação sem precedentes.

É um filme poético, mágico mesmo pela maneira como comunica a linguagem do coração, através dos olhos de uma criança, ela própria a narradora de uma história sublime, que surpreende constantemente pelo seu equilíbrio: é divertido e simultaneamente melancólico, tranquilo e enérgico. É uma viagem emocional, complementada por uma banda sonora fantástica e adequada aos diferentes momentos do filme, na qual o espetador se revê, na criança que foi, numa altura em que a esperança nos parece ser absolutamente indestrutível.

Tecnicamente, apresenta uma filmagem rica, que incide especialmente para o mundo natural e para a riqueza da expressão humana. É também coerente na medida em que apresenta planos diversificados que contribuem para um maior envolvimento na narrativa, dando tempo ao espetador para se maravilhar e intimidar pela força da Natureza. No entanto, experienciar The Beasts of The Southern Wild pode ser confuso para alguns, pela presença de alguns movimentos bruscos na câmara de Zeitlin.

O final do filme apresenta uma vertente surrealista que reforça o seu valor simbólico e reforça a sua mensagem, tal como a valentia de Hushpuppy, que constantemente procura um sentido para este mundo, e que acaba por ser crucial para o seu equilíbrio. Foi ótima forma de começar o LEFFEST, que deu a conhecer um cinema alternativo mas agradável para todas as audiências.

Children of Saravejo (6.5 /10) – 10 de Novembro

Children of Saravejo, ou Djeca (o título original) segue a história de dois órfãos, Rahima e o seu irmão de 14 anos Nedim, que debatem-se na Bósnia contemporânea, que lentamente recupera de uma guerra impiedosa. É um drama ambicioso que atinge o espetador especialmente pelo poder das expressões e dos olhares captados por Begic, com um enredo que é claramente colocado em segundo plano em virtude das sensações que a realizadora pretende transmitir.

Rahima é a protagonista que trabalha durante várias horas num restaurante gerido por Rizo, uma personagem que é referenciada constantemente no filme mas cuja origem e papel não são devidamente explicados. Ela vive com o seu irmão, um adolescente irresponsável e frustrado, que proporciona o arranque da narrativa ao envolver-se num conflito com o filho de um ministro do governo bósnio. O drama é ainda intensificado quando a protagonista descobre que Nedim está envolvido em atividades criminais, o que lhe confere o papel do jovem desorientado num mundo a que não pertence. E este é, de facto, um mundo desconsolador, assombrado pelo passado. Begic acentua o belicismo inerente à realidade através de efeitos sonoros exemplares e vídeos amadores, que complementam a ação e retratam o sofrimento das vítimas da guerra.

Curioso será verificar como a relação dos dois irmãos é feita de desencontros, contudo a procura de ternura é indispensável nas suas vidas, e é precisamente isso que prova o final do filme. Outro ponto bastante positivo é a representação dos atores que surpreende pela sua naturalidade e pela humanidade das personagens. Marija Pikjic é um dos melhores exemplos desta situação, afirmando-se como uma mulher como tantas outras: lutadora, independente, trabalhadora,etc. E a própria filmagem traz uma transparência da realidade quase documental o que se enquadra bem com as intenções da própria fita.

No entanto, o argumento deixa algumas questões por não ter sido corretamente explorado e limado, especialmente em aspetos na narrativa que não são devidamente resolvidos ou mesmo apresentados. Ainda assim, Children of Saravejo transmite uma perspetiva muito verdadeira que chega a ser perturbante, voltando a refletir nos valores da família, e como estes são afetados pelas problemáticas do mundo atual.

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