De elogiar, desde já, são as intenções de colocar numa longa-metragem um momento e uma figura da história portuguesa de quem pouco se fala e se conhece. Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus é um bom filme para quem quer conhecer melhor a história do país. A ideia começa por parecer boa, pena é a concretização estar bem longe disso.

Com a invasão de França pelas tropas nazis, milhares de refugiados formam fila junto do consulado português em Bordéus, na esperança de obterem um visto para Portugal. Sousa Mendes, o Cônsul de Portugal na cidade, está obrigado a respeitar a circular de Salazar, que determina a proibição expressa de concessão de vistos a quaisquer refugiados judeus. Deparando-se com um terrível dilema: conceder vistos, arriscando a sua carreira diplomática e o sustento da família ou não o fazendo, todas aquelas pessoas teriam como destino os campos de concentração nazis.

O filme começa, nos dias de hoje, onde um homem que, em criança, conhecera Aristides, relata as histórias de ambos, que se cruzam a determinado momento, a uma jornalista. O homem, judeu de verdadeiro nome Aaron Apelman, sofreu uma série de desencontros com a sua família, sendo um dos que se vê obrigado a recorrer ao consulado português em Bordéus. Por sua vez, Aristides, o homem que salvou mais de 30 mil vidas, deparou-se com uma série de dilemas e dificuldades ao longo da sua tomada de decisões. Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus começa por apresentar-nos a primeira história que nos leva ao decorrer de toda a acção.

Aparentemente, o argumento tem potencial para resultar num bom filme histórico, mas não é isso que acontece. Os diálogos são fracos, muito longe do razoável e daquilo que a figura merecia. Às personagens falta-lhes muita profundidade. A acção vai decorrendo mas não chega a cativar em nenhum momento. Há ainda uma grande incoerência de idiomas no filme: português, espanhol, francês, nos locais e momentos menos apropriados. A solução seria, talvez, todo o filme em português, evitando-se tanta incoerência linguística.

 

Apesar de contar com nomes de destaque no elenco como Vítor NorteCarlos Paulo, João Cabral, Laura Soveral, Leonor Seixas ou São José Correia, o casting esteve longe de ser certeiro, não havendo um actor que realmente se destaque, e onde as interpretações são, na sua maioria, muito forçadas. Mesmo Vítor Norte, de quem se esperaria algo à altura da importância da personagem, não nos oferece um desempenho acima do mediano. Só Carlos Paulo consegue proporcionar-nos alguns bons momentos de interpretação.

Em termos técnicos só de destacar as cores frias que acompanham toda a história de Sousa Mendes, condizendo com o ambiente sombrio, de insegurança e medo, proporcionado pela guerra e pela perseguição aos judeus que se vivia. Contudo notam-se alguns problemas de montagem e edição de som.

Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus foi um verdadeiro tiro ao lado. Uma história que merecia ser contada, sim, mas não desta forma. Falta-lhe profundidade, emoção e maior empenho.

3/10

Ficha Técnica:

Título Original: Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus

Realizadores: Francisco Manso e João Correa

Argumento: António TorradoJoão Nunes

Actores: Vítor Norte, Carlos Paulo, João Cabral, Laura Soveral, Leonor Seixas, São José Correia

Género: Drama, Histórico

Duração: 90 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.