Um antigo segredo de estado serve de mote ao mais recente filme de Ben Affleck que, depois de A Cidade (2010), regressa à realização com Argo. Uma época conturbada de difíceis relações entre Estados Unidos da América e Irão reúnem-se num filme que quer pintar um “bonito retrato” dos norte-americanos.

Affleck é também protagonista de Argo e reuniu um elenco de nomes sonantes como Byan Cranston, John Goodman ou Alan Arkin que fazem muito pela longa-metragem. Apesar do tom americanizado que se sente até ao fim, há grandes momentos de tensão a que é impossível ficar indiferente.

Baseado numa história verídica, Argo trata do caso da operação de risco para resgatar seis americanos na crise dos reféns no Irão, que esteve em segredo de estado durante décadas. A 4 de Novembro de 1979, quando a revolução iraniana atinge o seu ponto de ebulição, militantes islamitas invadem a embaixada dos Estados Unidos da América no Teerão e fazem mais de 50 reféns. Contudo, no meio do caos, seis americanos conseguem escapar e encontrar refúgio na casa do embaixador do Canadá. É só uma questão de tempo até os seis serem encontrados e provavelmente mortos, mas um especialista da CIA, Tony Mendez, surge com um plano arriscado para fazê-los sair do país em segurança.

Um filme cujo argumento tem por base acontecimentos reais deixa sempre o espectador com uma maior curiosidade acerca da concretização, principalmente quando já conhece esses acontecimentos. Mas mesmo que os desconheça, a expectativa continua presente. No caso de Argo, Ben Affleck consegue prender a nossa atenção de forma ímpar, mas comete um erro: opta por beneficiar o lado americano da história. Os norte-americanos saem como “os bons da fita”, e deixa-se para um plano secundário, quase inexistente, a questão dos EUA terem abrigado o deposto Xá do Irão, o que desencadeou tal revolta dos iranianos.

O filme começa com uma espécie de contextualização histórica, útil, apesar de monótona. Depois disso é que a acção começa a desencadear-se perante os nossos olhos atentos. A revolta e invasão da embaixada, a fuga dos seis funcionários americanos para casa do embaixador canadiano e o inesperado plano de Tony Mendez para os tirar do país em segurança. Argo está repleto de diálogos de grande qualidade e com um humor bem colocado. Os momentos finais são emocionantes, apesar de previsíveis, mesmo para quem não conhece a história.

A utilização de imagens de arquivo é um dos aspectos positivos deste Argo, que melhor consegue colocar o espectador na época em que tudo acontece, intercalando o arquivo com a ficção. Mesmo a montagem, principalmente perto do final, que alterna entre cenas que acontecem ao mesmo tempo, faz um trabalho interessante, aumentando a tensão que se vive na própria sala de cinema. A banda sonora do sempre exemplar Alexandre Desplat muito contribuiu para todo o ambiente que se sente.

De destacar é toda a ideia que percorre Argo do Cinema ser usado para salvar estes norte-americanos, e nos dá a conhecer os bastidores de Hollywood. “Se vou fazer um filme falso, que seja um êxito falso!”, refere a certa altura o produtor Lester Siegel, e é isso mesmo que se pretende que seja esta a operação – um sucesso. A ficção científica, tão em voga na época, é a chave do argumento do falso filme, Argo, e, a propósito, Planet of the Apes é um dos clássicos que aqui são recordados.

No elenco, Ben Affleck tem uma interpretação competente. Já Cranston tem muito mais para dar do que o que a personagem de Jack O’Donnell lhe proporciona, mas o seu desempenho é, como sempre, muito bom. John Goodman, na pele de John Chambers, responsável pelo departamento de caracterização de muitos filmes de ficção científica em Hollywood, e Alan Arkin, como Lester Siegel, produtor deste falso filme, proporcionam-nos momentos bastante divertidos e cheios do seu talento.

Argo é um bom filme, mas que está a ser sobrevalorizado pela crítica internacional. É um thriller dramático com momentos intensos, mas repleto de uma espécie de americanização que não cai bem. A história é verídica mas contada por americanos, para ser vista e adorada, principalmente, por eles mesmos.

7/10

Ficha Técnica:

Título Original: Argo

Realizador: Ben Affleck

Argumento: Chris Terrio, a partir do artigo Escape from Tehran, de Joshuah Bearman

Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin

Género: Drama, Histórico, Thriller

Duração: 120 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.