Luz dramática, personagens aprisionadas não só na sua ilha e na sua casa de vigas de madeira, mas sobre tudo em si e no que escolheram no passado. Até 17 de novembro, Miguel Guilherme, Isabel Abreu e Sérgio Praia dançam a Dança da Morte, no São Luiz, em Lisboa.

De uma casa-gaiola vê-se o mundo lá fora, mas é tão difícil sair. O exterior é intocável, é só admirável. A ilha onde vivem Alice e o seu marido, Capitão Edgar, podia ser a sua própria casa. Estão longe de tudo e de todos e o que os afasta é o ódio, a sensação de que todos são seus inimigos, a certeza de que todos são imorais, eles os dois os mais imorais de todos e, unidos nisso, essa é a sua única cumplicidade. A possível morte morte do egoísta extremo Capitão Edgar muda alguma coisa? Trará esperança ou ansiedade?

A trama do sueco August Strindberg não tem altura para ser revisitada. É para sempre. E sem dúvida que ganha com a encenação de Marco Martins e os cenários de Artur Pinheiro. Opções por vezes quase cinematográficas, tentam, por exemplo, ultrapassar a coesão de espaço a que o teatro obriga. Em palco há sempre uma pequeno castelo, como que o plano geral do sítio onde vivem, que coexiste com o plano aproximado da vida do casal: a sua casa.

Há pormenores, da música à luz, que não são fruto da aleatoriedade e que proporcionam acima de tudo, momentos interessantes, bonitos, de exteriorização, talvez, de um pensamento que, nunca se podendo contar, pode às vezes mostrar-se.

Neste trabalho o destaque está desde o início dado a Isabel Abreu e Miguel Guilherme, que imprime um inigualável sarcasmo, provavelmente ausente de todos os outros Capitães Edgar já interpretados. Também a prestação de Sérgio Praia se vai assumindo como elo chave na peça. A entrada de Sérgio Praia poderia parecer um momento de alívio, de oportunidade para respirar. Torna-se vez disso a prova de que nesta ilha quanto mais gente, mais gente transformada.

Esta ilha e esta casa surgem como o espaço em que a imoralidade não é regrada, não tem leis punitivas acima de si, talvez nem mesmo as da consciência. É por isso que é o estado humano tão puro. Tudo pode acontecer. O lugar do arrependimento surge no limite da situação. Talvez arrependimento não seja a palavra certa. Talvez seja só a iminência da morte que leva a escolher morrer voluntariamente para começar de novo. “Quando a morte começar, talvez a vida comece.”

Fotografias: Rita Sousa Vieira