De regresso à cidade onde foram felizes, e que lhes serviu de inspiração para o nome do penúltimo disco de originais (Lisbon, de 2010), os norte-americanos The Walkmen regressaram ontem à noite a Lisboa para apresentar  Heaven, editado no início de junho. Depois de uma passagem pelo Optimus Primavera Sound, tocaram pela segunda vez a solo em Portugal, na Salta TMN ao Vivo.

Inicialmente agendado para o Coliseu dos Recreios, o espetáculo mudou-se para a Sala TMN ao Vivo (a crise, domingo à noite, a passagem recente pelo nosso país, podem ser alguns dos motivos para explicar a pouca procura de bilhetes). Poucos, mas bons, os cerca de mil presentes partilharam o amor com o quinteto de Nova Iorque e Filadélfia.

Impecavelmente vestidos, como é costume, subiram ao palco às dez em ponto e, ao longo de cerca de hora e meia, desfiaram dúzia e meia de canções que atravessaram os seus seis discos de originais.

O início fez-se com três músicas do novo disco: os dedilhados de guitarra em Line By Line que o público desde logo acompanhou; The Love You Love cantado com a raiva de um refrão pouco promissor (“Baby it’s the love you love, not me”) e Heartbreaker,  doce infusão pop, com a sala já rendida. Hamilton Leithauser foi mestre de cerimónias mas sem reivindicar o protagonismo para si. Nas vozes , e por vezes nas guitarras, cantou de alma e coração, esticando as cordas vocais quase até à rutura.

Seguiu-se uma passagem por Lisbon, com Blue As Your Blood, de riffs prolongados e Angela Surf City, tocada e cantada com a intensidade do rock mais visceral, soou como um pulsante hino.

On The Water  trouxe o maravilhoso You and Me (2008) com Hamilton de voz quase arranhada que foi amaciando com o chá que trouxe no início. Foi, aliás, alternando entre uma doçura quase sussurrada e uma raiva tão forte que, em In The New Year  as veias do pescoço quase lhe saltam ao repetir insanamente “It’s all over”.

Seguiu-se 138th Street, tema quase acústico de Bows + Arrows (listado por muitos críticos como um dos melhores do ano de 2004) que mostra bem a qualidade vocal de Hamilton. Em Dond Está La Playa regresso a You & Me com guitarras fabulosas e estrondosamente densas a provar que Hamilton Leithauser, Paul Maroon (guitarra, piano), Walter Martin (órgão, baixo), Peter Bauer (baixo, órgão) e Matt Barrick (bateria) são, antes de tudo, exímios músicos, que inclusivamente foram trocando de instrumentos entre si.

Viajámos de seguida até A Hundred Miles Off  (2006), com All Hands and the Cook, canção irada, com final intenso,  em que a voz potente e sexy de Hamilton é ela própria um instrumento.

De regresso a Lisbon, houve espaço para o rock gingão de Woe Is Me, interpretada teatralmente e a melodiosa Juveniles.  A tudo isto o público reagiu no primeiro acorde, cantando e entoando refrões, com a apoteose a acontecer no “semi-hit” The rat.

Houve ainda tempo para regressar a Heaven com Love Is Luck, We Can’t Be Beat e o tema-título do disco, onde todos cantaram em uníssono o dramatismo e a fatalidade do amor.

Despedidas ensaiadas, a banda voltaria para um encore com três músicas: I Lost You, “dor de corno” exacerbada;  Everyone Who Pretended To Like Me Is Gone, do seu primeiro disco de originais (2002) e Another One Goes By (cover de Marc Mazarin incluída em A Hundred Miles Off ), que Hamilton tocou de mão no bolso, qual adolescente tímido e apaixonado.

O que há de especial em The Walkmen é a forma como cantam majestosa e dolorosamente as nossas vidas através de guitarras, elétricas e acústicas, em tons que vão da fúria à doçura em meia dúzia de acordes. Foi amorável.

Os corações foram abertos, na primeira parte, pela guitarra de Filho da Mãe. Em apenas seis músicas Rui Carvalho mostrou a genialidade dos seus dedilhados de guitarra, apresentando temas de Palácio (editado pela Rastilho Records e produzido por Makoto Yagyu e que “já não está à venda“). “Temos pena”, acrescentou.

“Eu sou Filho da Mãe, vocês também”, assim se apresentou o pequeno prodígio. Somos todos, mas uns são filhos de outra gente, por continuarem a ver concertos completos através de telemóveis e câmaras de filmar. Há de fato filhos de muitas mães.

Fotografia de destaque: Rita Carmo/blitz.