Uma das figuras mais proeminentes da Cafetra Records, Éme (aka João Marcelo) tem vindo a ganhar, nos últimos tempos, alguma notoriedade na “cena” alternativa nacional, algo que tanto se deve à sua estabelecida carreira a solo como pelo seu papel enquanto frontman d’Os Passos em Volta (banda “flagship” da pequena editora lisboeta). O seu primeiro longa-duração, Gancia, foi lançado a 21 de Maio e é dele que vamos falar hoje. 

Quando comecei, em 2011, a “descobrir” a nova vaga de artistas e bandas alternativas nacionais e a Cafetra Records começou a ganhar popularidade (muito graças às Pega Monstro e à sua Paredes de Coura), confesso que de todos os nomes que iam surgindo o que menos interesse me suscitou foi o Éme; depois de ter ouvido o rudimentar e básico Passa-se alguma coisa estranha aqui, EP de 2011 do artista, não fiquei muito bem impressionado e decidi deixar passar.

No entanto, admito que quando soube que o João Marcelo estava para lançar o seu primeiro LP fiquei bastante curioso, em grande parte porque queria averiguar qual a evolução das suas capacidades enquanto músico a solo. Por isso, quando o disco ficou disponível para audição e download no Bandcamp do artista, decidi dar-lhe uma chance e ouvi-lo, algo de que não me arrependo nem um pouco; apesar de não ser um álbum brilhante, Gancia é uma sólida estreia no formato longa-duração que só pode deixar Éme orgulhoso de si próprio.

Uma das primeiras coisas que notei neste Gancia foi a forma como, estilisticamente, este se afasta da Folk de Passa-se alguma coisa estranha aqui e se aproxima, ainda que timidamente, de territórios mais Indie Pop, colocando-se num meio-termo entre a introspecção acústica e a extroversão mais catchy. Na produção, levada a cabo por Éme (com uma ajuda d’O Cão da Morte e B Fachada) assistimos a nova ruptura parcial: apesar de se manter a estética Lo-fi e caseira presente no EP, a verdade é que encontramos também uma franca melhoria na qualidade do som e da gravação, o que, juntamente com o aumento da panóplia de efeitos (destaque para o belo detalhe da reverberação presente em alguns temas), ajuda a dar um aspecto mais composto e trabalhado ao álbum.

No que à lírica diz respeito, neste LP Éme traz-nos uma forma de escrever que já se tornou numa das características mais únicas e especiais dos discos da Cafetra e que muito me agrada: letras sórdidas e esquisitas que, apesar da sua estranheza, acabam por ser bastante intimistas e pessoais na forma como relatam os medos, os anseios e as expectativas da juventude, o que faz com que capturem na perfeição o seu zeitgeist. Quanto aos vocais, vale a pena destacar as belíssimas harmonias entre a voz aguda de Éme e os backing vocals etéreos de Júlia Reis (Pega Monstro).

No entanto, apesar de todas as suas qualidades, Gancia está longe de ser um disco imaculado e sem falhas. A encabeçar a lista de defeitos está, na minha opinião, uma certa homogeneidade que peca por se sentir em demasia e que acaba por, ao fim de algumas audições, se traduzir em alguma monotonia sonora. Aliado a isso está uma inconsistência que se vai revelando de forma pontual ao longo do álbum e que acaba por lhe afectar o balanço e a harmonia.

Quanto a escolhas de peças individuais, tenho de apontar a terna Adormecer, a fervilhante 35 – 98, a viciante Fetra, a doce Sibéria e a intensa Parque como as minhas faixas favoritas deste Gancia. Por outro lado, a insípida Super Pai e as desinspiradas Sonho Mau e Paz acabam por ser, na minha opinião, os pontos mais fracos deste disco e que cortam algum do seu momentum e  ritmo.

Resumindo, este Gancia apresenta-se como um belo disco de Indie Pop em português que, para além de se revelar numa muitíssimo respeitável estreia em longa-duração de Éme, também ajuda a estabelecer a Cafetra Records como uma das mais interessantes labels independentes a actuar em Portugal neste momento. Apesar de demonstrar alguns defeitos que o impedem de ser uma obra brilhante, a verdade é que este álbum atesta a enorme evolução de Éme enquanto escritor e compositor de canções. Agora só me resta esperar pela próxima edição da Cafetra, mas até lá vou-me deliciando com esta pérola que é Gancia.

Nota Final: 7.0/10

Para ouvir o stream e fazer o download (legal) do disco, basta clicar aqui.

Fotografia: Rita Sousa Vieira

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945