O Teatro Académico de Gil Vicente exibiu, no âmbito do programa Cinema à Segunda, O Meu Maior Desejo de Hirokazu Koreeda. Uma obra nipónica de sensibilidade única.

Hirokazu Koreeda sempre demonstrou um dom para histórias de carácter humano. De entre os seus filmes mais reconhecidos, como Maborosi, After Life e Still Walking, há um que se destaca. Esse é Nobody Knows – ou, como por cá o conhecemos, Ninguém Sabe. E se há algo que o une com o mais recente trabalho de Koreeda é que são ambos protagonizados por crianças.

O Meu Maior Desejo toma lugar no Japão e narra a história de dois irmãos separados pelo recente divórcio dos pais. O mais velho, Koichi, vive com a mãe e com os avós em Kagoshima. Já Ryu vive com o pai em Fukuoka. A ambição máxima de Koichi é conseguir a reconciliação dos pais para que possam voltar a estar juntos. Uma nova porta se abre quando descobre um segredo que poderá ser o ponto de viragem: se pedirmos um desejo no exato momento em que os TGVs se cruzam, este tornar-se-á realidade. Tudo acontece durante o período de perigo iminente que a cidade atravessa de ficar devastada pelo vulcão local, pelo que Koichi vê aí a sua oportunidade. Se conseguir que o vulcão entre em erupção, isso significa que a família não tem outra hipótese senão juntar-se novamente.

A primeira metade da obra de Koreeda leva o seu tempo, mas fá-lo a um ritmo que demonstra uma delicadeza única. Consegue ser contemplativa de uma forma tão singular e deliciosa, já característica do cinema japonês, sem exceder os limites da sensatez. A sua intenção é contextualizar a vida e o dia-a-dia de Koichi no típico quotidiano nipónico. Ele é um rapaz como outro qualquer. Levanta-se, faz a cama, limpa o quarto e segue para mais um dia de escola. No dia em que Koichi nos é apresentado pela primeira vez, pede-se à turma que entregue um trabalho sobre a profissão do seu pai. Aí alguém se dirige ao professor e explica que «o Koichi não tem pai». Os irmãos contactam diariamente, às escondidas, com o tipo de conversa mais ingénua e inocente que só pode ser proveniente da mente de uma criança, apenas para tranquilizar a saudade. Até ao dia em que o irmão mais velho explica o plano que pretende pôr em prática.

Durante a segunda parte, assistimos ao desenrolar do plano de Koichi e dos seus amigos, que tentam vender de tudo com o propósito de angariar dinheiro para a viagem até ao local onde os TGVs se cruzam. Do outro lado, o irmão mais novo faz o mesmo. Enquanto isso, apercebemo-nos da ingenuidade inerente a cada um dos desejos das crianças. Há quem queira ser atriz, desenhar melhor sem esforço, correr mais depressa ou trazer à vida o seu animal de estimação. E é no momento em que, finalmente chegados ao destino final, algo se formula na mente de Koichi e este compreende a dimensão e as consequências do seu desejo, aceitando aquilo que o futuro lhe reserva.

O Meu Maior Desejo é uma espécie de ensinamento de culpa e um puxão de orelhas à eterna infantilidade egoísta em nós contida. É, ao mesmo tempo, uma ode à infância e à condição de ser criança.

8 /10

Ficha Técnica:

Título Original: Kiseki

Realizador: Hirokazu Koreeda

Argumento: Hirokazu Koreeda

Elenco: Koki Maeda, Ohshirô Maeda, Ryôga Hayashi

Género: Drama

Duração: 128 minutos