Mais de três anos depois do lançamento do primeiro álbum, intitulado Fado, Carminho pisou pela primeira vez o palco do Coliseu dos Recreios para mostrar a alma da sua voz e a força do seu talento. Segue caminho para o Coliseu do Porto e, humildemente, canta o seu talento natural para os portuenses no próximo dia 9 de novembro.

Faz-se silêncio porque se vai cantar o Fado. Este é o ritual habitual de todos os concertos de fado e não foi dispensado no primeiro espetáculo de Carminho no coliseu lisboeta mas antes as palmas fizeram-se soar antes da fadista cantar o primeiro fado do último disco lançado no ano passado, Alma.

As palmas fortes do público, num espaço completamente esgotado, acompanharam Carminho ao longo das duas horas de concerto quando os instrumentos soavam elevadamente e a voz da artista descansava. Depois de cantar os primeiros três temas do segundo disco sem paragem pelo meio e com uma voz recheada de força, foi tempo de apresentar os músicos que a acompanhavam nesta primeira experiência em cima do palco português tão simbólico para o país.

Do lado direito encontrava-se Marino de Freitas, na viola baixo, ao centro Diogo Clemente, a tocar a viola de fado e Luís Guerreiro na guitarra portuguesa. O sorriso no rosto da fadista, as pequenas histórias que contou para explicar os temas que cantava e as vénias feitas em forma de agradecimento mostraram a naturalidade da artista, com todos os minutos a comprovarem que o Fado sempre teve um lugar reservado para Carminho. O acompanhamento pela parte do público fez-se sentir novamente com A Bia da Mouraria, um dos temas do primeiro disco da cantora. Contagiou com boa disposição ao cantar esta “história de amor à portuguesa” para todos os presentes.

Com um palco recheado de tons azuis e um vestido igualmente da mesma cor, a fadista tornou o lugar num espaço mais íntimo ao cantar Saudades do Brasil em Portugal, de Vinicius de Moraes. Às tantas ouvia-se do público, nos poucos momentos de silêncio, “Ah fadista!” e também a elevação da jovem a uma “grandeza” quase no final do concerto. De anónimos voavam afirmações de “és linda” e “és grande”, elogios a uma das minhas novas desta geração de fadistas.

Depois de sair do palco para uma pequena pausa, os três músicos que acompanharam anteriormente Carminho ofereceram com precisão e talento um solo instrumental a todos os espetadores. Foram provocados também arrepios, com a voz da artista a ecoar unicamente para cantar Lisboa.

Com uma voz naturalmente bela e encantadora explicou depois a história por detrás do tema Bom dia, Amor de Diogo Clemente. Inspirado no único heterónimo feminino de Fernando Pessoa, de nome Maria José, tratava-se de uma jovem que conhecia a vida de um serralheiro que passava todos os dias na sua rua. Uma história de amor triste já que o tal serralheiro não sabia da existência de Maria José mas bonita pela personagem ter um motivo para se levantar todos os dias, por ter uma razão de ânimo na vida. “Bom dia digo sempre quando vem/ Quando passam por mim os olhos seus./ E mais diria aos olhos do meu bem/ Se ao menos uma vez vissem os meus”, assim cantou a fadista para todo o público.

Um dos melhores momentos da noite ficou guardado para a interpretação de um tema que a mãe, a fadista Teresa Siqueira, lhe ensinou. Quando Carminho abandonou o palco e deu lugar à mãe para cantar, a surpresa estava presente na cara dos espetadores. Para delícia de todos, Teresa Siqueira cantou também a música Cansaço e deu a conhecer, de uma forma majestosa, a origem do talento da filha.

O fim do espetáculo foi anunciado por Carminho, que se preparava para cantar a Marcha de Alfama. O tributo ao bairro onde a cantora cantou durante muitos anos contou novamente com a participação dos espetadores, com as palmas a ecoar consoante o ritmo da música. E não ficou por aqui, com a cantora a apelar para que cantassem com ela. Graças a toda a força e entusiasmo das pessoas, ainda continuou no palco e finalizou o espetáculo ao cantar os temas Escrevi o teu nome no vento e Meu Amor Marinheiro, dois temas do primeiro álbum.

Fez silêncio para cantar o Fado e os corações pararam durante duas horas no Coliseu. Apesar de não serem necessárias mais provas para se saber que estamos perante uma das melhores fadistas portuguesas, os ouvidos presentes na sala cheia da sala lisboeta elevaram-se até aos céus.

Fotografias: Rita Sousa Vieira