Em 2008, Matt Bondurant publicava The Wettest Country In the World, a história do seu avô Jack e dos seus irmãos, que eram contrabandistas de whisky durante a Lei Seca nos EUA. Quatro anos volvidos, o australiano John Hillcoat transforma a história num medianamente bem-sucedido western que, apesar de não ser perfeito, cumpre o propósito de ilustrar as aventuras dos famosos três irmãos Bondurant.

Os anos 20 foram marcados pela proibição da manufaturação e venda de bebidas alcoólicas e também pelo proliferamento de atividades de bootlegging – que é o mesmo que dizer contrabando de bebida. Na pequena localidade de Franklin County, os irmãos BondurantForrest, Howard e Jack – gerem um bar e um negócio ilícito de produção e venda de álcool. Tudo corria com relativa normalidade até à chegada do adjunto de Xerife Charles Rakes que exige aos bootleggers uma parte dos seus lucros o qual, Forrest recusa. A partir daí iniciam-se uma série de atentados e “avisos” contra à vida dos três irmãos, que mesmo assim não cedem.

O argumento de Dos Homens Sem lei é da responsabilidade de um dos meus músicos de eleição, Nick Cave – que já tem colaborado várias vezes com Hillcoat. Dizia Cave na apresentação do filme, que tivera de adaptar a história para um contexto um pouco mais suave, moderando, assim, cenas de brutalidade desmedida descritas no livro. Tendo em conta que a maior parte do filme incide em atos de violência física – alguns dos quais me fizeram abrir involuntariamente a boca e fechar um olho – bastante sugestiva e visual, fazendo lembrar até um pouco Tarantino, principalmente no seu último filme, não quero imaginar se Cave tivesse sido estritamente fiel à obra original. Ainda assim, a trama está bem construída, com diálogos convincentes e uma estrutura temporal adequada. Porém, não existe nenhum ponto de clímax ao longo do filme, toda a ação mantém o mesmo ritmo, variando apenas no final, o que nos faz estar constantemente à espera de um turning point que não chega a acontecer.

Centrando-me na parte interpretativa, confesso que estava com uma ideia já negativa e até um pouco preconceituosa da qualidade de Shia LaBouf e Tom Hardy como protagonistas. Na verdade, não posso dizer que foram terríveis, mas também não me surpreenderam nem mudaram a minha opinião. O Shia – como Jack, o irmão mais novo – manteve a mesma postura que nos outros filmes; só mudou o sotaque, que aliás está muito bem feito: não consegui perceber nada do que ele disse. Já Tom Hardy, o irmão mais velho, está perfeito para o personagem: um homem pouco falador, de olhar vago, que não demonstra muita emoção, mas com uma atitude de líder. Não sei se Hardy teve de se esforçar muito – pois nunca o achei um ator com muita profundidade emocional – mas o certo é que conseguiu trazer para o ecrã uma excelente e agradável interpretação. A completar o trio de irmãos está Jason Clarke, o mais louco de todos eles: que embora com uma participação menos vistosa também não esteve mal.

Em oposição temos o vilão da história, Rakes – que por ser de um meio maior e citadino tem um comportamento muito mais exuberante e profundo que os simples e rurais irmãos. Guy Pearce dá tudo e mais alguma coisa de si e maravilha-nos com a sua crueldade e o seu olhar louco. Fiquei apenas desapontada com toda a publicidade a feita à participação de Gary Oldman que se aparece em dez minutos de filme é muito. Sendo a sua personagem um dos mais poderosos chefes contrabandistas do estado, poderiam muito bem explorar a sua influência e aumentar-lhe o protagonismo, deste modo o filme ganharia muito mais.

A nível mais técnico gostei de algumas alusões – propositadas, ou não – a outros filmes de gangsters e ao trabalho de outros realizadores como é o caso de Tarantino, que já referi, e ao compatriota do realizador, Andrew Dominic. A sonorização também foi um aspeto interessante e bem conseguido, principalmente nas cenas de luta e nos silêncios que envolviam decisões chave para o percurso do filme.

Em termos de banda sonora – uma parceria entre Nick Cave e Warren Ellis – continuo sem me decidir se adorei ou odiei. Em certos momentos, a música – que isoladamente é de inegável qualidade – acompanha lindamente a ação, noutros ridiculariza completamente a trama.

No geral, o filme tinha potencial para ser muito melhor, apesar de não ter falhas de maior, são as pequenas incongruências e defeitos, que comprometem a sua possível genialidade. Em adição, Shia LaBouf ainda não me convenceu, estou à espera que o seu desempenho em Nymphomaniac de Lars Von Trier mude radicalmente a minha perspetiva: ou não.

7 /10

Ficha Técnica:

Título Original: Lawless

Realizador: John Hillcoat

Argumento: Nick Cave

Elenco: Gary Oldman, Guy Pierce, Jason Clarke, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Shia LaBeouf, Tom Hardy

Género: Western, Thriller

Duração: 115 minutos