Estávamos em 2010 quando os Tame Impala lançaram Innerspeaker, álbum exímio pelo qual me deixei viciar completamente e que catapultou a banda australiana para a montra da música alternativa. Depois de um ano sem nada editar, a banda regressou em Outubro passado, com um já afamado Lonerism na bagagem. É sobre este longa-duração que hoje nos vamos debruçar.

Enquanto não paria o seu mais recente registo, a banda australiana foi aguçando o apetite dos fãs (como eu) com o lançamento de Apocalypse Dreams e Elephant. A verdade é que estas duas faixas, que foram publicadas durante o verão, eram absolutamente apaixonantes e seguiam a linha sonora tendencial de Innerspeaker, mas evidenciando ainda mais distorção e um abuso excessivo e cintilante de sintetizadores. Por isso, era de esperar que as minhas expectativas para Lonerism estivessem bem no topo.

Editado pela Modular Recordings, o segundo LP da banda foi condimentado com 12 desnorteantes e atordoantes faixas, sempre mergulhadas e incrassadas em sintetizadores e distorção de uma maneira bastante salubre e sapiente. Muito à imagem de Innerspeaker, o seu anterior longa-duração, é inevitável não nos lembrarmos dos dourados 60’s e 70’s quando escutamos a sonoridade produzida pela banda australiana, o que nos demonstra que não houve uma grande preocupação em renovar a sua música.

O início de Lonerism dá-se com Be Above It, uma faixa razoável onde a panóplia instrumental acata uma tarefa meramente atmosférica enquanto a voz de Kevin Parker, provocando-nos um sentimento saudosista em relação a John Lennon, se vai fundindo turvamente com o elóquio da percussão e das guitarras, que nos soam, aqui, bastante subtis. O alinhamento do registo traz-nos, de seguida, duas das malhas de Lonerism: Enders Toi e Apocalypse Dreams.

É inegável dizer-se que os alicerces da música dos Tame Impala se prendem à influência de The Beatles. A verdade é que a musicalidade dos australianos recupera o psicadelismo inerente aos tempos mais brilhantes e enfeitiçadores dos britânicos, sobretudo marcados por Revolver (a Tomorrow Never Knows está, neste momento, a acenar à sublime Keep On Lying), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e as malhas mais concitantes e cenosas do White Album, conferindo-lhe, através de um abuso estropiador e ousado de distorção e sintetizadores, uma paisagem cliché de uns “Beatles em ácidos”. Esse mesmo ritmo psicadélico ganha uma nova faceta, mais jovem, fresca e desconcertante, provocando uma frenética fusão entre a neo-psychadelia e o space rock, fazendo levitar o ouvinte, abruptamente, numa viagem espacial, como está patente, em, por exemplo, Elephant.

Assinalando os pontos altos do registo, sou obrigado a mencionar a explosiva (ao terceiro minuto da faixa percebe-se o porquê de referir como “explosiva”) Apocalypse Dreams, a brilhante Keep On Lying, o single Elephant, a espacial Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything We Could Control e até a mexida Enders Toi. Quantos aos pontos menos bons de Lonerism, é inevitável não falar de algumas músicas bastante medianas como Why Won’t They Talk To Me?, Feels Like We Only Go Backwards e Sun’s Coming Up (Lambingtons), que contribuem bastante para uma falta de coesão no registo. Outros pontos que também não são do meu agrado: a mesmice entre algumas músicas que integram o álbum e o facto de cansar após algumas audições seguidas, algo que não acontecia em Innerspeaker.

Em compêndio, Lonerism é um bom disco. Não tão bom quanto se esperava, é verdade, mas é um belo disco para se ouvir quando se procura música desafiante ou se sentem saudades da fase mais psicadélica dos Beatles, em 2012. Menos bom e inovador que o seu irmão mais velho, Innerspeaker, foi uma pena que os Tame Impala tenham tentado abrir o apetite para Lonerism com duas das melhores faixas do registo, elevando a expectativa de tudo e todos para níveis altíssimos, como foi o meu caso. A alguns cumpriram essas expectativas, a mim não conseguiram.

Classificação Final: 7.9/10

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945