Os dois últimos dias da 13ª edição da Festa do Cinema Francês na cidade universitária reservaram algumas das obras mais interessantes entre aquilo que de melhor o cinema de França tem para oferecer.

A 13ª Festa do Cinema Francês chega ao fim em Coimbra. O Teatro Académico de Gil Vicente exibiu na terça-feira, dia 30, a animação Le Tableau, a comédia familiar Sur la piste du Marsupilami e o documentário Journal de France. Ontem, dia 31, quarta-feira, houve lugar para a animação Zarafa, o drama Elles e a comédia L’art d’Aimer.

SUR LA PISTE DU MARSUPILAMI – 5/10

A moda de adaptar personagens de desenhos animados a filmes de imagem real já chegou a Hollywood há algum tempo e o francês Alain Chabat não quis ficar para trás. A grande diferença reside no facto de que esta adaptação consegue ser ligeiramente melhor – ou menos ridícula, se preferir – do que as versões americanas com as quais estamos familiarizados. Todos nós conhecemos o Marsupilami, aquela espécie de macaco amarelo com manchas negras e uma cauda de vários metros. Sur la piste du Marsupilami é altamente inspirado na banda-desenhada original, consequentemente transformada em série de animação. O jornalista Dan Geraldo é enviado para uma pequena vila em Palômbia, país fictício, com o intuito de realizar uma reportagem que decidirá o seu futuro. Logo se vê atirado para a prisão quando, ainda que sem querer, destrói a coleção de vestidos de Celine Dion, a musa do ditador. Aí conhece Pablito, que o ajuda a fugir e se compromete a conduzir Dan até à tribo local de modo a poder realizar a sua reportagem. Quando, pelo meio de embrulhadas e situações bizarras, dão de caras com o Marsupilami, até então uma lenda, percebem que esta é a verdadeira descoberta que merece ser tornada pública em televisão.

Ao invés de ser desvendada aos poucos – coisa com a qual o filme só beneficiaria – a criatura perde logo a sua mística, no primeiro minuto, quando nos é mostrada e tomamos consciência de que é real, enquanto que, para os residentes locais, não passa de um mito. As cenas idiotas, a roçar o absurdo, são inevitáveis, sobretudo durante a segunda metade, mas é possível que nos arranquem, pelo menos, um sorriso ou, na melhor das hipóteses, uma ou duas gargalhadas. Mas tem também os seus momentos, nomeadamente aqueles em que o Marsupilami é protagonista – surpreendentemente, o CGI da personagem é de elevado requinte, o que lhe confere grande realismo. Cumpre aquilo a que se propõe: Sur la piste du Marsupilami é uma interessante comédia familiar recheada de humor fácil, descomprometido e minimamente divertido.

ZARAFA – 8.5/10

Zarafa é inspirado na história de uma das primeiras girafas na Europa, oferecida pelo Paxá do Egito ao rei francês, Carlos X, em 1827, na tentativa de evitar conflitos bélicos. O filme é narrado por um ancião africano às crianças da vila, enquanto nós assistimos ao desenrolar da aventura. Maki é um menino de dez anos tornado escravo. Ao fugir, encontra uma família de girafas e, quando a mãe de uma delas é morta, o menino compromete-se a defender o pequeno animal, que dá nome à obra, até ao fim. Ao aperceber-se de que a intenção é levar a girafa até Paris, Maki arranja forma de se infiltrar no balão de ar quente que os transportará até ao Egito, local a partir de onde prosseguem seguidamente para o seu destino final.

Este é um conto apaixonado e apaixonante sobre o amor único e genuíno de uma criança por um animal, o próprio que, no fim, lhe mostra o caminho certo a seguir. Faz lembrar, inúmeras vezes, alguns dos grandes clássicos da Walt Disney e as obras do também francês Sylvain Chomet – como Les triplettes de Belleville ou L’illusionniste – não só pelo seu valor simbólico, mas também pelo próprio desenho e animação tradicional. As cores quentes, os deslumbrantes cenários – que da savana e do deserto vão até à tão característica Paris – e as personagens cativantes atribuem-lhe uma ternura rara no cinema contemporâneo, que, não agradando exclusivamente aos mais pequenos, é provável que sejam os crescidos a lembrá-lo por muito mais tempo. Se Zarafa não é uma pequena obra-prima da animação, certo é que não anda muito longe desse estatuto.

ELLES – 7/10

Assistir a Elles pressupõe, desde logo, uma disposição mental séria, uma vez que não se trata de uma obra leve e facilmente digerível. A sempre exemplar Juliette Binoche interpreta Anne, uma jornalista da revista Elle a quem cabe redigir um artigo sobre o meio da prostituição entre as jovens residentes em Paris. À medida que o prazo de Anne escasseia, a par da pressão, não só da sua editora, mas também da família, assistimos a recordações e histórias das duas jovens com quem a jornalista passou algum tempo com o intuito de investigar a temática. Elles é verdadeiramente interessante, sobretudo pela forma como vemos o mundo de Anne desabar aos poucos, fruto da dificuldade em distanciar a vida pessoal da vida profissional, ao ponto de se relacionar, mais do que lhe é devido, com uma das jovens, ao mesmo tempo que questiona o valor da sexualidade e aquilo que separa a mulher comum da mulher que se prostitui pelo dinheiro fácil. É forte e desconcertante em todos os aspetos, seja a nível visual, nomeadamente pelas cenas de violação e de fetiches sexuais que são apresentadas, seja a nível psicológico, dada a intimidade com que acompanhamos este complexo período de vida da jornalista e das jovens. Recomendável, se visto com a disposição adequada.

Dezanove filmes depois, Coimbra despede-se da 13ª Festa do Cinema Francês. Já passada por Lisboa, Almada, Faro e Porto, segue para Guimarães, onde encerra oficialmente. De agora em diante, resta esperar pela próxima edição, enquanto, por França, se estreia e produz.