26 de Outubro – No oitavo dia do Doclisboa’12, um filme a não perder – Terra de Ninguém de Salomé Lamas, uma espécie de revelação entretanto já confirmada, e ainda Sofia’s Last Ambulance, de Ilian Metev.

Terra de Ninguém – 9/10

Salomé Lamas já se tinha destacado o ano passado com a curta metragem Golden Dawn, apresentada na última edição Doclisboa e também com A Comunidade, que passou no Panorama, já este ano. Nesta edição do Doclisboa, estreia a sua primeira longa-metragem.

Paulo de Figueiredo fala em frente à câmara. Está sentado numa cadeira, numa espécie de casa abandonada. No final, a realizadora explica que pretendia uma espaço mais anónimo, menos familiar para ambos. Compreendemos facilmente porquê. Voltamos a Paulo de Figueiredo, que mais ou menos ordenadamente, vais contando: que era comando, que foi para Angola, durante a Guerra Colonial, que matou indiscriminadamente e que se tornou mercenário. Conta as suas estórias, inseridas na história, sem pudor ou qualquer tipo de arrependimento.

Um filme com várias camadas – sociais, políticas e humanas – que toca questões como a identidade e a humanidade, passando pelo colonialismo e pelas formas de poder. Uma narrativa impressionante, filmada com precisão e pensada ao pormenor, que aguardava com expectativa e não desiludiu.

Sofia’s Last Ambulance – 8/10

Ilian Metev, considerado uma revelação, apresentou o filme pela primeira vez em Cannes e esteve agora no Doclisboa, antes de estrear Sofia’s Last Ambulance na Bulgária.

Krassi, Mila e Plamen são os protagonistas do filme e tripulantes de uma ambulância em Sofia, na Bulgária – que não é a última, mas quase. Existem na cidade treze ambulâncias para 2 milhões de habitantes. O trabalho acumula-se e requer esforços extra. As chamadas são muitas vezes resultado de problemas sociais, mais do que físicos, mas neste filme quem os chama nunca é mostrado, não é isso que interessa. O que interessa realmente são estas pessoas, que salvam vidas diariamente e que lá vão recorrendo ao sentido de humor para sobreviverem às tristezas a que assistem.

Um bom documentário, fruto de vários anos de trabalho, que se distingue pelos planos aproximados e pela posição que a câmara ocupa, muitas vezes dentro da ambulância.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.