A Festa do Cinema Francês arrancou em Coimbra e presenteia-nos com um cartaz para todos os públicos. O dia de ontem apresentou um clássico da animação, um romance, um drama e um documentário.

O Teatro Académico de Gil Vicente inaugurou oficialmente a 13ª Festa do Cinema Francês na passada quinta-feira, exibindo a comédia Je me suis fait tout petit – com Vanessa Paradis – e seguiu a noite passada com La planète sauvage, um clássico de referência do cinema de animação, Un heureux événement, um bem-disposto romance divido entre o drama e a comédia, Le fils de l’autre, uma história de grande valor humano, e Indignados, um documentário poderoso e revoltante.

UN HEUREUX ÉVÈNEMENT – 6/10

Um romance dramático com momentâneas pitadas de humor, assim se define Un heureux événement. O casal do filme conhece-se em circunstâncias interessantes, já que Barbara era cliente do clube de vídeo onde Nicolas trabalhava. E é precisamente no início que se desenrola o momento mais delicioso e original do filme: a troca de elogios e perguntas tipicamente provocadoras que são feitas e respondidas através dos títulos de DVDs, como Catch Me If You Can. A partir daí, assistimos ao crescimento do casal – e, maioritariamente, do ponto de vista de Barbara – enquanto família, tudo graças ao nascimento de um bebé. Tecnicamente bem conseguido e visualmente interessante em determinados momentos, mais até do que seria exigido, são muito daquilo que o faz valer enquanto filme. Há referências pontuais de fazer as delícias dos cinéfilos e a própria intimidade com que acompanhamos a gravidez e os primeiros tempos de Barbara como mãe ajudam também a uma agradável visualização numa obra que peca pelo facilitismo, nomeadamente na sua reta final.

LE FILS DE L’AUTRE – 7.5/10

Esta é uma história de grande sensibilidade: Joseph e Yacine foram trocados à nascença – o que, por si só, já constitui algo verdadeiramente traumático – e, como se não bastasse, o primeiro é israelita e o segundo palestiniano, o que faz entrar em confronto toda uma série de ideais e preconceitos – ou, neste caso, a inexistência deles. Le Fils de L’Autre é interessante, não só porque trata um tema tão sensível e simbólico, mas também porque Lorraine Levy o faz com grande sensibilidade. «Continuo a ser Judeu?», pergunta Joseph, inevitavelmente. Contudo, ambos têm tanto de diferente como de igual. Apesar das diferenças culturais que os afastam, existe o desejo mútuo de conhecer os verdadeiros pais e progressivamente se cria uma relação de confiança e amizade que transpõe preconceitos.

INDIGNADOS – 7/10

Sendo tecnicamente correto, Indignados aproxima-se mais da docuficção do que do documentário e trata um tema tão atual como há dois anos atrás, quando o francês antifascista Stéphane Hessel redigiu Indignai-vos!, o livro que está na origem do trabalho Tony Gatlif. Durante hora e meia acompanhamos Betty, que, fugida do continente africano, se encontra agora na Europa à procura de trabalho. Betty é fictícia, mas a sua personagem vive num cenário dolorosamente realista, na rua e no meio de tantos outros, onde pernoitar numa tenda é já um luxo a que poucos têm acesso. Para além de viver fora de quatro paredes, não tem lugar fixo, pelo que se aventura com os mais completos desconhecidos, de país em país, na esperança de que o próximo seja melhor do que anterior. Pelo meio de interrogações e detenções e de cenários degradantes, Betty é conduzida até à espanhola Madrid, no preciso momento em que os “indignados” se manifestam em plena Porta do Sol contra a crise e o desemprego que o país atravessa. A obra de Gatlif divide-se em duas metades demasiado diferentes e desequilibradas, que podiam até funcionar independentemente, já que a primeira, dinâmica, irreverente e quase surrealista, entra em choque com um segundo momento, distante, banal e carente de poder. Indignados é, contudo, uma peça de grande valor e que merece preservada, nem que seja pela carga simbólica, tão contemporânea, que representa.

A Festa do Cinema Francês segue, esta noite, às 23h30, com a antestreia de L’exercice de l’État, um drama político de Pierre Schöller.