Na passada sexta-feira o Espalha Factos encontrou-se com os Salto no Porto para uma entrevista. Foi com boa disposição e num tom de conversa entre amigos que as palavras se foram desenrolando.

Guilherme Tomé Ribeiro e Luís Montenegro formaram os Salto em 2007, quando abriram um concerto d’Os Azeitonas. No entanto, os primos sempre estiveram ligados à música, uma vez que a vertente artística lhes está no sangue. O baterista Tito apenas se juntou à banda este verão, após o lançamento do álbum, mas era um elemento há muito esperado.

Os Salto prometem várias surpresas até ao final do ano. Parece que deixar o público em expectativa é já uma das suas imagens de marca.

EF: Num ano passaram do quase anonimato para uma das bandas portuguesas mais ouvidas. O que pensam ter causado essa mudança?

É o fator single e o fator rádio. A culpa foi dessas pessoas que se lembraram, começámos a passar na Comercial, na Antena 3, na Vodafone… E depois o pessoal vai começando a ouvir, nem que seja só de conhecer o nome. Mas também nos últimos dois, três anos fomos dando alguns concertos sem ninguém nos conhecer. Fomos tocando muito e isso deu para garantir um público pequeno, assim quando o álbum saiu não éramos totalmente desconhecidos. E criámos expetativa, o que foi fixe porque o álbum demorou. E também produzimos o EP do Lucas Bora-Bora e fizemos o refix, o que ajudou as pessoas. Ir a concertos nossos é sempre divertido, dá sempre para rir um bocado, nem que seja pelas palermices que vamos dizendo.

EF: Esperavam uma reação tão positiva por parte do público?

Teve piada porque nós começámos a tocar muito antes de gravar. Os concertos apareciam, ninguém nos conhecia mas o pessoal contratava por ser uma cena fixe. Não havia propriamente uma identidade já feita. E era numa altura em que andávamos só os dois num carro, com o nosso manager e, por isso, eramos uma banda super portátil. Houve uma altura em que tocámos em Lisboa, Coimbra, Leiria, Viseu. E depois há histórias: chegar a um sítio e não haver hotel, ou não haver técnico de som, sei lá…

EF: Como se sentem por “Deixar Cair” ser considerado um dos hits deste Verão?

É fixe ver que o pessoal gosta, mas não ligamos muito ao facto de ser considerado um hit. É mais uma música nossa, da qual gostamos, mas não nos deixa tão entusiasmados ao ponto de achar que fizemos grande coisa. É ótimo que a música seja ouvida, mas ainda há mesmo muito que fazer.

EF: E porquê este tema como single?

Foi uma decisão muito complicada, nós não sabíamos o que podia ser o single. Havia para aí cinco ou seis músicas que podiam ser um single, por isso estávamos assim um bocado à nora. É tipo escolher um filho, mas depois os amigos, a editora e assim vão ajudando. É preciso que sejam músicas simples, uma coisa imediata que fique no ouvido. Por norma é assim, mas não há regras.

EF: Ainda acerca do vosso álbum, o tema “Tempo que Mudou” não foi incluído. Porquê?

Nós gostamos imenso da “Tempo que Mudou”, mas tal como algumas outras não foi incluída. Tínhamos de fazer uma seleção e esta já tinha saído numa colectânea da Amor Fúria, já estava editada. E pronto, chegámos a uma altura em que tivemos de pensar o que pôr no álbum: se o que já tínhamos, se músicas novas. Foi mais para refrescar. E nós gostamos tanto da música que continuamos a tocá-la ao vivo, até fizemos uma versão nova.

EF: Já passaram por vários festivais de verão. Qual é a sensação de deixar o recinto e passar para o palco?

É ótimo porque agora não pagamos bilhete. No SBSR foi onde sentimos mais a sensação de que no ano passado eramos público, talvez por ser o palco principal e porque há três anos que vamos ao festival todo e isso é muito estranho. Olhas do palco e parece tudo mínimo. E estás num sítio onde já tocaram bandas que adoras: Arcade Fire, Arctic Monkeys, Strokes, Hot Chip. Tu vais a entrar e dizes “Fogo, eu não sou ninguém”. É muito estranho, ficas um bocado borrado. Mas o maior desafio vai ser no palco principal do Paredes de Coura, porque é o festival que mais se identifica connosco. E depois claro que se conseguires um destaque bom a nível de horário… E tipo no Optimus Alive nem nos consigo imaginar, é o maior palco, é gigante é imensa gente.

EF: Qual a melhor recordação que têm de um concerto vosso?

Olha do Arraial do Técnico foi alta cena. Havia um homem vestido de vaca a fazer crowdsurfing, um cubo gigante em esferovite aos saltos; teve piada, é pessoal divertido. Mas o Paredes de Coura marcou muito. O público estava a aderir, gritava, cantava as músicas e batia palmas sem ter que lhe pedir nada. O pessoal a dançar, a tenda super cheia e ainda gente lá fora a forçar para entrar, estava ótimo. Foi mesmo especial, nós parávamos de tocar e o público começava com cânticos, foi espetacular. No Optimus Alive! do ano passado apanhámos o concerto dos Coldplay no final, então estava o pessoal todo a sair de um concerto intenso e introspetivo, de contensão energética e  Apanhou-nos na tenda ali ao lado. De repente tínhamos uns sete mil macacos a curtir!

EF: Voltando ao passado. O que vos fez querer seguir carreira na música?

Luís Montenegro: A culpa foi dele! Não, dos nossos pais por nos deixarem. O meu pai era pianista, o do Guilherme tocava guitarra e ouvia mesmo muita música. O nosso avô tocava violino e a avó é grande pianista de jazz dos anos 20. Desde pequeninos que nos fazem ouvir boa música, depois entrámos no conservatório. No 12.º estávamos os dois em Ciências, eu a querer medicina, até que o Guilherme descobriu um curso altamente de Produção e Tecnologias da Música, na Escola Superior da Música aqui no Porto. E pronto, fomos para lá e é um alto curso.

EF: E agora? Tendo em conta o panorama nacional e todos os cortes do Estado relativamente à Cultura, o que pensam do futuro de um artista?

LM: A nível de apoios está um bocado mau, mas a nível de público não. O que aconteceu no final da II Guerra na Alemanha está a acontecer cá. As pessoas estavam mal, não tinham dinheiro para muita coisa e viraram-se para a arte, porque era a única forma de se sentirem bem. É o que acontece agora: as pessoas em vez de se fecharem em casa a lamentar, vão a museus e a festivais.

Guilherme Ribeiro: Mas quanto ao ser artista, eu não acho que o Estado tenha de me dar dinheiro para eu fazer música em casa. Podia dar-me alguns benefícios, haver uma margem para evoluir dos recibos verdes para outra coisa, mas dar dinheiro à cultura do nada não. Apoiar a Educação Cultural sim, e isso tem decrescido muito e é pena. Mas nos EUA não há Ministério da Cultura, é safem-se e cada um por si.

LM: O publico está sedento. Quem tem um bom produto acaba por vender. É claro que temos consciência que não podemos andar a gastar o salário em festa.

GR: É tentar ser sustentável e não atribuir as culpas aos outros.

EF: E aquele preconceito de que um artista não trabalha, apenas se diverte?

É mais ser criador. Quem trabalha numa empresa de marketing ou de publicidade, não diverge muito daquilo que fazemos. Cada vez mais os empregos exigem criatividade. Mas mesmo assim as pessoas vão nos dizendo umas bocas. Mas sendo criativo arranjas ideias que te fazem ganhar dinheiro com a música sem ser cantar ao vivo ou fazer álbuns.

EF: O que surge primeiro, a música ou a letra?

GR: Tudo surge primeiro que a letra. Nós não somos poetas, mas gostamos de ser nós a escrever. É um processo, é uma aprendizagem que faz parte. Fazemos uma música em dois, três dias, enquanto a letra demoramos duas, três semanas, até mais… Ficamos ali a batalhar e depois é engraçado. Nós gravámos o álbum quase todo em casa do Luís, lá num anexo, e às vezes ficávamos horas a ouvir os mesmos 20 segundos e as pessoas iam lá ver o que se passava, perguntar se estávamos loucos, porque faltava uma palavra e não saíamos de lá.

http://www.youtube.com/watch?v=Lx966iSYzaA

EF: E a criação das músicas, é uma inspiração ou um processo demorado?

A música toda não é de inspiração. Mas há determinados pormenores e melodias que sim. Vais na rua, lembras-te, e depois trabalhas à volta disso. Mas sabes que passando muitas horas em estúdio é difícil distinguir inspiração da procura de soluções, e isso é das coisas mais fixes do processo de criação. Transformar o que tens, brincar com aquilo que conheces, ter espírito aberto e depois colar.

EF: O curso que fizeram ajuda-vos?

Muito mesmo, sem este curso não sabíamos nem um décimo. Nós temos muita autonomia na parte da produção. Podíamos fazer um disco tecnicamente sozinho só por termos tirado esse curso, desde gravar, masterizar, e até própria produção e pequenos detalhes. Aquele curso mudou a nossa vida, tinhas de ver um concerto antes e depois do curso. Éramos só duas guitarras e agora se quiséssemos podíamos ser doze, e somos três! É claro que havia tipos que só iam tocar 10 segundos do concerto, mas podíamos…

EF: Como é que se lembraram de juntar o Tito aos Salto?

O Tito é grande amigo de há anos, só que ele vivia em Vila Praia de Âncora, em Viana de Castelo, e a esta distância era impossível ele fazer parte da banda. Mas este ano ele veio viver para o Porto e como já tínhamos pensado nele… E queríamos crescer enquanto espetáculo depois de sair o álbum. Ter um tipo que toca como ele toca faz muita diferença em palco, fica muito fixe.

EF: E têm projectos para médio e longo prazo?

Claro, muitos! Mas não os podemos revelar ainda. O segundo álbum está a ser preparado, mas a par disso estão a acontecer mais cenas. Cenas que envolvem outras bandas… O álbum saiu em julho e em setembro já havia necessidade de fazer mais, tem de haver mais coisas para fazer. Parar é morrer.