É conhecido pelas colaborações com os conterrâneos Pulp, Elbow ou Arctic Monkeys, mas o nome do britânico Richard Hawley fala só por si. Editou este ano o seu 7.º disco de originais – Standing at the sky’s edge (Parlophone) – que atingiu imediatamente o terceiro lugar nos tops britânicos, e veio apresentá-lo a Lisboa, na Sala TMN ao vivo.

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Pode não saber as letras ou os acordes de cor (tocou sempre com um atril à sua frente) mas Richard Hawley – cantor, compositor e produtor – é um pequeno génio da guitarra e dono de uma portentosa voz, capaz de eriçar todos os pelinhos do corpo.

Foi precisamente com Standing at the sky’s edge, tema que dá nome ao disco e que nos fala de uma solidão partilhada, que começou o concerto. Seguiu-se-lhe Don’t stare at the sun com o seu magnífico instrumental, devidamente explorado pela fabulosa banda de mais quatro elementos, e assim, à segunda música, percebemos que sairíamos dali com o coração mirradinho.

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Tratou-se de facto um concerto estilo road movie, com paisagens e miradouros de saudade, melancolia e nostalgia, salpicada de uma doçura apenas narrável pelas guitarras.

Assim foi na brilhante sequência iniciada com Hotel room, que nos levou em viagem até Coles corner, de 2005. Passou por Tonight the streets are ours, faixa-título do filme Exit Banksy through the gift shop e que aparece nos Simpsons, facto que Hawley mencionou num dos seus diversos e espirituosos apartes. Parou em Seek it, num regresso ao disco deste ano, e uma das suas mais belas canções, a recordar-nos que Richard Hawley é, antes de tudo, um quebra-corações.

Soldier on, retirada de Truelove’s Gutter (2009), «a canção mais sossegada que alguma vez escrevi», foi épica. Num silêncio quase sepulcral pedido pelo próprio cantautor, e que o público cumpriu, gelou a composta sala TMN ao Vivo.

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Com Leave your body behind you voltou o pulso firme nas guitarras, elas que são donas e senhoras deste disco, seguindo-se-lhe Beforeque mostra todos os elementos nos quais se move o álbum: inqueitude, raiva, melodia.

Passagem por Open up your door, música do anúncio dos gelados Häagen-Dazs no Reino Unido e regresso a Truelove’s Gutter  para Remorse code, a que se seguiu Time will bring you winter, momento de transição instrumental, para terminar com Down in the woods.

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Lady solitude, retirado de Lady’s bridge (2007) deu o mote a um encore que terminou com a imperdível The Ocean, que, mesmo à beira-rio e não à beira-mar, caiu que nem ginjas.

Terminava assim um concerto intimista mas poderoso, pelo qual passaram guitarras e mais guitarras em constante rotação. As músicas variam de uma harmonia melodiosa, quase um sibilado de amor, passando rapidamente a desordem e a ruído que nos levam a mergulhar num mar de confusão e distorção. Em palco estiveram cinco elementos, todos eles soberbos e talentosos, que se desfizeram em agradecimentos ao público português. Saímos todos com um sorriso nos lábios e o coração sangrando de felicidade.

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As honras de abertura couberam à dupla de folk britânica Smoke Fairies, composta por Katherine Blamire e Jessica Davies, que acabou de editar pela Third Man Records, editora de Jack White, o seu segundo disco de originais Blood Speaks, produzido pelo próprio White.

Fotografias: Beatriz Nunes