22 de Outubro – À tarde, sessão especial dupla de João Pedro Rodrigues, com dois documentários da década de 90, no âmbito do lançamento do livro de Filomena Silvano, De Casa em Casa – sobre um encontro entre Etnografia e Cinema. Vale a pena referir que Filomena Silvano tinha também integrado a equipa do realizador em ambos os documentários. À noite, Apichatpong Weerasethakul garante sala cheia, com todo o mérito.

Esta é a Minha Casa/ Viagem à Expo – 7.5/10

Em Esta é a Minha Casa, uma família de emigrantes parte de Paris para regressar de férias à sua terra natal, em Trás-os-Montes. As imagens da viagem de carro, onde nunca falta a música popular portuguesa, são alternadas com momentos da sua vida profissional em Paris e com a chegada à terra. Um retrato ainda filmado que continua perfeitamente actual, tocando aspectos como a imigração, a ligação à terra e o Verão em muitas aldeias portuguesas.

Um ano mais tarde, em Paris, a mesma família ouve nos media franceses a promoção à EXPO 98, em Lisboa.  Fazem uma Viagem à Expo, onde desta vez as crianças estão incluídas. A mesma família de emigrantes, num País que é o seu mas que em que são dominados pelo espanto do que não conhecem e que os fascina. O Oceanário, a praia, o Cristo-Rei, o teleférico e até mesmo o Estádio da Luz, são todos descobertos, em pequenas viagens que são geográficas mas também emocionais.

Fado Canibal – 7.5/10

Integrada na secção Verdes Anos, esta é uma curta-metragem produzida pela Universidade Católica do Porto, com realização de Timóteo Azevedo.

O filme centra-se em Adolfo Luxúria Canibal, vocalista e letrista dos Mão Morta. Contudo, quando questionado sobre a sua profissão, Adolfo afirma que é jurista e assume a música como uma espécie de hobbie que tem. É muito com base nesta separação que se desenvolve a história: por um lado, o homem de família que é filmado no sofá com o gato ao colo e, por outro, o músico e performer. Esta distinção é feita não só pelo próprio mas por vários amigos, ligados ao meio musical. Estes testemunhos intercalam-se com concertos dos Mão Morta e com cenas da vida pessoal, estabelecendo-se assim o paralelismo.

Um documentário com uma construção narrativa e cor interessantes, sobre uma figura relevante do panorama artístico português.

Ashes – 8.5/10

Numa colaboração com a MUBI e a edição MUBI da câmara LomoKino, o realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul apresenta uma curta-metragem lomográfica com um final digital.

Para além das metáforas muito próprias sobre a Tailândia, há espaço também para os detalhes mais intimistas, como a rapariga que pinta as unhas e outros pormenores do quotidiano. Belíssimas imagens abundantes em cor e uma nova interpretação a cada visualização.

Esta curta-metragem poder ver vista gratuitamente e na íntegra aqui.

Mekong Hotel – 8/10

Em ante-estreia, o filme foi exibido após Ashes a pedido do realizador. Apichatpong Weerasethakul é conhecido pelas suas narrativas pouco convencionais e pelos planos estáticos simetricamente enquadrados e em Mekong Hotel não foge ao seu estilo próprio.

O Hotel Mekong situa-se no nordeste da Tailândia, onde o rio Mekong marca a fronteira com o Laos. O conhecimento deste facto ajuda a uma melhor compreensão de certos elementos. De facto, e como em outros filmes do realizador, o que seria necessário era um conhecimento profundo sobre a cultura Tailandesa e os seus mitos e aspectos de espiritismo.

Neste filme, documentário e ficção misturam-se, levando ao extremo a proposta da secção Riscos, as fronteiras entre ficção e documentário. Filmado durante as cheias que assolaram a Tailândia em 2011, o filme não esquece essa componente social ou as tensões com os refugiados do Laos, misturando estes elementos com o rio sereno e com uma mãe que vive só em espírito e tem hábitos vampirescos. O som da guitarra clássica ao longo de todo o filme é factor de coesão assim como o final, numa conclusão excessiva, no bom sentido da expressão.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.