A crise fez-se sentir, no passado sábado, no Coliseu dos Recreios: A “sala mítica” de Lisboa receberia Fausto Bordalo Dias com pouco mais de metade da sua capacidade ocupada, e com um público pouco recetivo e desconhecedor do último trabalho do cantautor português.


Como já havia sido demonstrado no vídeo de apresentação do concerto, Fausto decidiu mostrar todos os temas do seu último trabalho discográfico – Em busca das montanhas azuis, disco de dois volumes – à excepção do tema O perfume das chuvas, faixa que encerra o segundo volume, por considerar tratar-se de uma canção “demasiado intimista” para ser tocada em salas como os Coliseus.


Os temas foram apresentados exatamente pela mesma ordem do disco, tendo a divisão entre os dois volumes sido feita através de um momento instrumental, protagonizado por João Ferreira e Mário João Santos, percussionistas que acompanharam Fausto, não só neste espetáculo, como também na gravação do álbum, num duelo de baterias com um ritmo tipicamente português.


Em busca das montanhas azuis é o disco que fecha a “trilogia” de discos iniciada por Fausto há trinta anos, que retrata as viagens dos portugueses pelo interior do continente africano, concluindo assim os temas cantados nos álbuns Por este rio acima (1982) e Crónicas da Terra Ardente (1994).


Fausto Bordalo Dias fez questão de lembrar que, apesar de serem cantadas as viagens por terras africanas, todos os ritmos das canções de Em busca das montanhas azuis são “exclusivamente portugueses”. Tal foi possível comprovar em temas como Velas e navios sobre as águas (canção que serve de single de apresentação do disco),  E viemos nascidos do mar, ou até pelos coros em Por altas serras e montanhas, a fazer lembrar os cantares populares portugueses.


Após os 22 temas de Em busca das montanhas azuis, Fausto Bordalo Dias e os seis músicos que o acompanharam dirigiram-se para a “boca de cena” e interpretaram o tema Na Ponta do Cabo (canção de Por este rio acima), apenas com voz e percussão, final já habitual nas viagens de Fausto ao vivo.


Na sua página oficial de Facebook, Fausto tinha desafiado os fãs a escolherem o tema para o encore do concerto. Lembra-me um sonho lindo foi a escolha do público, mas a “impossibilidade de ensaiar o tema” levou a que Fausto, pedindo desculpa aos presentes, substituísse a canção por Navegar, navegar, um dos seus maiores êxitos, e que foi o único tema que o público demonstrou saber toda a letra e acompanhou, de pé, marcando o ritmo com palmas.


A crise económica que hoje atravessamos tem graves implicações na cultura, e o concerto de Fausto foi um exemplo disso: sendo um cantor e letrista de grande importância para a música portuguesa, o artista mereceria um Coliseu esgotado ou perto disso, e tal esteve longe de acontecer.

Porém, a escolha de interpretar integralmente um disco e de o reproduzir ipsis verbis quer nos arranjos quer no alinhamento talvez não tenha sido a melhor, tendo em conta que o público mostrou não conhecer a maioria dos temas de Em busca das montanhas azuis. A audiência estava claramente à espera dos clássicos e ficou à deriva.

Os espaços vazios na sala levaram também a que as letras das canções se perdessem e fossem de difícil compreensão, o que não só é pena, tratando-se de poemas magníficos (ou não fosse Fausto um dos maiores letristas da música portuguesa), como também gerou descontentamento em alguns elementos do público, que fizeram questão de manifestar o seu desagrado.

Contudo, é bom saber que, em tempos nos quais se questiona o conceito de “serviço público” e se dá pouco destaque à cultura, o concerto foi transmitido em direto através da Antena 1 e que foi gravado com vista a ser transmitido futuramente na RTP1.

Dia 25 de outubro é a vez do Coliseu do Porto receber Fausto e os seus músicos, “em busca das montanhas azuis”. Fica o desejo de que sejam recebidos de melhor forma e em maior número.

Fotografias por Catarina Mendes