Há poucas “terras estranhas” que nos são tão familiares como as sonoridades dos Keane. Um Campo Pequeno pouco cheio, mas caloroso, recebeu este sábado a banda britânica, pela terceira vez este ano no nosso país, com o quarto álbum de originais, Strangeland, na bagagem. Já nos habituámos a tê-los cá, somos os seus “amigos de Lisboa” e rendemo-nos sempre à simpatia e energia que transmitem – mas esta noite foram eles que se renderam verdadeiramente ao público português.

Os também britânicos Zulu Winter aqueceram o ambiente do recinto lisboeta, como banda de abertura dos Keane em toda a sua digressão de Strangeland. Ao longo de cerca de meia hora de concerto, encantaram o público que começava a juntar-se com êxitos como Key to My Heart ou We Should Be Swimming, apresentando o álbum Language, mas sobretudo apresentando a sua banda aos portugueses. Muito expressivos em palco, mostraram-se um grupo de indie-rock bastante coeso e interessante, que abriu bem a sessão para o concerto tão aguardado. E Will Daunt e companheiros saíram do palco, a recolher os instrumentos, sob ovação.

Tom Chaplin entra em palco silencioso, expectante, sorrindo com o êxtase em que a plateia e as bancadas já se encontram. Os Keane abrem com uma canção do último álbum, You are Young, passando pela enérgica On the Road, mas depressa regressam aos clássicos que fazem deles uma banda tão amada em Portugal. A Bend & Break e The Lovers are Losing, juntam-se Is it Any Wonder? e My Shadow, esta última uma balada do EP de 2010.

Intercalando os novos êxitos com os antigos, vão continuando a conquistar os presentes com a maravilhosa voz de Chaplin e o teclado de Tim Rice-Oxley, que juntos encantam com A Bad Dream e a belíssima Try Again, dedicada aos fãs portugueses. Chaplin pergunta se está tudo bem, se estamos a gostar. Não precisa de outra resposta que não os assobios e as palmas que recebe. Richard Hughes, o baterista, agradece ao público, já visivelmente emocionado com o entusiasmo que chega ao palco.

Passam pelo novo álbum, com a favorita de Tom, The Starting Line, e pelo clássico Nothing in My Way, mas é com o primeiro single de Strangeland, Silenced by the Night, que o público se começa verdadeiramente a fazer ouvir. “Agora vocês vão cantar ainda mais alto”, diz Tom, abrindo caminho para um regresso ao primeiro disco, Hopes & Fears, com Everybody’s Changing. Todos a sabem e todos a entoam em uníssuno, num dos primeiros grandes momentos da noite, que segue com We Might as Well be Strangers.

Eles insistem, mas a estranheza já se foi há muito. Depois de Day Will Come, Spiralling eleva o ritmo pop do concerto e leva Tom a pedir ao público para fazer mais barulho, para as pessoas nas bancadas se levantarem ao som da nova Disconnected. Pouco depois dizia que estava já emocionado, “a adorar cada momento deste espetáculo”, e que dificilmente algum de nós esqueceria esta noite. Não estava enganado.

O clímax atinge-se com, este sim, o momento da noite: uma maravilhosa viagem por três das músicas que fazem dos Keane os Keane que gostamos. This is The Last Time, Somewhere Only We Know e Bedshaped retiraram-nos o fôlego, e a eles também. Mãos no ar, vozes afinadas (e desafinadas) e muita emoção não os deixaram dar por finalizado o concerto, já com uma hora e meia, obrigando-os a regressar para um encore diversificado. Depois das novas Sea Fog, mais uma balada com Tim, e Sovereign Ligh Café, que nos deixa sempre com vontade de lhes fazer companhia nas tardes do East Sussex, o regresso aos 80s com Crystall Ball, com a qual o concerto ficaria já completo e guardado nos nossos corações.

Mas estava reservada uma surpresa para o final: um segundo encore, com os Keane a quererem ser Queen por uns minutos. E a conseguirem. Chaplin interpreta Under Pressure, dos Queen com David Bowie, como se de uma música deles se tratasse. É ao vermos a sua postura em palco, a sua energia, a sua emoção, que nos apercebemos do poder vocal que aquele sempre jovem de 33 anos consegue verdadeiramente atingir. Não podia ter sido um melhor final de espetáculo.

A verdade é que nunca nos cansamos deles. Chaplin leu um cartaz que dizia “nunca te cales”. No entanto, foi ele quem ficou sem palavras na noite de ontem. Agradeceu ao público, cantou e mostrou a sua simpatia e amabilidade, elogiando os fãs portugueses e o nosso país; mas estes mal o deixavam falar, tal era a emoção que se sentia no recinto.

Com os Keane sentimo-nos em casa e sentimos que eles também o sentem. Têm a maravilhosa capacidade de tornarem os seus espectáculos intimistas, envolvendo as pessoas nas suas canções, interagindo com elas. Para além disso, têm o mérito de não se terem perdido ao longo dos anos, com álbuns mais ou menos consistentes depois do predileto de todos nós, Hopes & Fears. Com este Strangeland, a parada continua alta. E eles continuam a surpreender-nos, em palco e fora dele. Fica o desejo de um regresso a Portugal muito em breve.

Fotografias: Débora Lino