A 31.ª edição de mais um Portugal Fashion teve o seu arranque esta terça-feira, 16 de outubro, em Lisboa. O evento que prosseguirá no Edifício da Alfândega do Porto sob o tema Timeline, compreendendo 33 desfiles a acontecer entre 17 e 20 de outubro, iniciou-se, pela segunda vez consecutiva, no MUDE – Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo. 

A decisão de uma vez mais abrir o Portugal Fashion em Lisboa prende-se com a vontade do projeto ir o mais longe possível na promoção da moda portuguesa (…) e Lisboa (…) capta as atenções do mundo” esclarece Francisco Maria Balsemão, presidente da entidade responsável pelo evento – ANJE.

Espaço Bloom é o nome dado ao acontecimento propulsor de toda uma panóplia de desfiles, que tem como objetivo a promoção de jovens talentos na área da moda, que farão desfilar os seus mais recentes trabalhos numa passerelle  informal e multiartística.

Já o público aguardava, ansiosamente, pelo iniciar das coleções primavera/verão 2013 quando uma atmosfera enigmática cercou todo o ambiente. O cenário que se assemelhava a um armazém vazio abandonado envergava apenas uma série de cortinas brancas, bancos minimalistas e uma grande coluna preta.

Os holofotes ligaram, a música começou e as primeiras peças, da autoria da promissora Susana Bettencourt, causaram de imediato um impacto aos olhos de quem assistia. A estilista, que já teve encomendas da própria Lady Gaga, apresentou a sua coleção intitulada de “Tile”. Com base na técnica da azulejaria, a jovem criadora “explora a forma como as vivências e as ligações individuais se cruzam para fundar experiências colectivas”. Entre as cores ditas típicas dos azulejos portugueses (azul, branco e amarelo), Susana Bettencourt acrescenta ainda o preto e pequenos apontamentos encarnados em peças particulares. Com calças compridas de cinta subida, vestidos largos (também eles compridos), blusas e coletes soltos, a estilista instantaneamente fez surgir o sentimento primaveril. Com as já habituais malhas jacquard e outras malhas finas estampadas, a açoriana atribuiu um toque de fluidez à silhueta feminina.

Seguiu-se o desfile de Hugo Costa, que caracteriza as suas produções como “urbanas” e destinadas a “pessoas cosmopolitas”. Este designer apresentou uma colecção designada de “Dreamer” e inspirada nos “miúdos de rua” do Rio de Janeiro, “contrapondo a pureza dos sonhos com a agrura da realidade”. É visível uma ruptura, destacando dois momentos ao longo da coleção. No primeiro, denota-se uma supremacia de tons claros como o branco e o azul, enquanto no segundo são os tons neutros que adquirem maior preponderância. Baseadas no grunge da rua, o aspeto dito inacabado das peças, bem como o estampado raramente assumido, as propostas de Hugo Costa para a próxima estação são “descomprometidas, relaxadas, que invocam (…) a identidade individual de cada um”. As diversas camadas sobrepostas foram característica comum em algumas das suas peças, onde foi também possível observar a utilização de materiais mais pesados, como sarjas, em oposição a malhas frágeis.

Após um curto intervalo, iniciou o segundo de três desfiles duplos do evento. Foi a vez de Andreia Lexim, participante do Acrobactic e do ExpoWorld Fashion, apresentar a sua proposta Primavera/Verão 2013. A colecção “Canvas” desta estilista é onde, afirmado pela própria, “explora a relação espaço-vazio-conteúdo”. As roupas, onde prevalecem as cores branco, vermelho, bege, azul e preto, destinam-se ao quotidiano da mulher contemporânea e urbana. Com tecidos esvoaçantes, fechos e bolsos de cor diferente, casacos cintados, blusas assimétricas e formas geométricas e arquitetónicas, esta estilista apresenta uma colecção uniforme e revigorante.

Com o auxílio da música, dá-se um agravar da tensão como que prenunciando a colecção mais “dark” que se seguiria. As peças assimétricas de tecidos recortados, com fechos caídos e linhas essencialmente retas, contribuíram para a imagem de uma mulher de poder e misteriosa. Esta colecção da estilista Diana Matias, que se estreou no espaço bloom do Portugal Fashion em 2010, conjuga transparências com calças de cabedal e ainda vestidos que, apesar de retos, acentuam a feminilidade e a elegância da figura da mulher. Toda esta produção, centrada apenas no branco e preto, segue a linha das suas coleções anteriores, havendo alguma exposição de partes do corpo feminino.

Seguiu-se o segundo e último intervalo do acontecimento e a, anteriormente usada, cortina desapareceu, cedendo lugar a uma parede branca com diversas luzes da mesma cor, que reluziam alternadamente.

Com recurso a material de campismo, como as próprias peças de uma tenda, formam-se roupas “de cariz sportswear mas de forma clássica” afirma o autor, Estelita Mendonça. Esta nova colecção masculina que se seguiu pretendeu conservar as peças vincadas, porém fazê-lo através de novas construções, originando uma imagem nova e forte. Desde camisas pretas com transparências, a corsários escuros e até mesmo gabardines compridas, com a fusão ousada de tecidos diferentes o estilista procurou fugir ao pré-conceito do “típico vestuário” masculino. Como já havia sido visto, esta colecção só veio reafirmar que este criativo de 24 anos continua a apresentar linhas e conceitos inovadores.

O último desfile do dia coube a Daniela Barros, formada pela Escola de Moda do Porto. Inspirada na divindade dakini, a criativa afirma: “É uma personagem bipolar e bidimensional, rígida mas feminina, bela e de carácter instável. O carácter trântrico e divino é traduzido pelo fluido e branco, justaposto pelo negro e cróceo, que com elementos metálicos e estruturados compõe o espetro obscuro. A silhueta ambígua é contraposta pelos estampados que aludem ao equilíbrio dos elementos”. Peças assimétricas, camisas transparentes, casacos com aplicações de fechos e ainda chapéus que remetiam para a equitação, a estilista soube conjugar um visual entre o easy-to-wear e o vanguardista. Tendo sempre atenção especial às linhas e à silhueta, Daniela Barros apresentou uma coleção dentro do branco e preto que contrapunha peças rígidas a peças fluidas e não desiludiu, mostrando ser mais uma promessa no mundo da moda.

Todos os criadores, embora novos, já dão exemplos da sua consistência enquanto profissionais, revelando um apurado sentido estético, bem como grande qualidade no produto final. Após o primeiro dia do Portugal Fashion, fica a curiosidade aguçada para os outros que virão, contando com nomes como Fátima Lopes, Júlio Torcato, Luís Buchinho, Katty Xiomara, Storytailors, entre outras referências da moda portuguesa.