19 de Outubro – Neste segundo dia do Doclisboa’12, vimos Investigações sobre os homossexuais que não se podiam afirmar na sua época, o início da competição portuguesa nas curtas e longas-metragens e ainda o realizador Roman Polanski numa conversa franca sobre a sua vida e carreira.

Les Invisibles – 8.5/10

Segundo Pedro Fortes, da programação do Doclisboa, Les Invisibles é um filme que se foi tornando uma escolha cada vez mais visível para os programadores e não é difícil perceber porquê.

Os invisíveis são homens e mulheres, homossexuais, que nasceram numa época em que a sociedade não respeitava as suas opções sexuais. No documentário, falam abertamente da forma como lidaram com os seus desejos, com o objectivo último da libertação.

Um retrato de proximidade, que se traduz através dos planos e da sinceridade com que estes homens e mulheres relatam as suas próprias experiências. Desde a repressão de sentimentos, às descobertas tardias e à luta activista, o filme faz um recurso inteligente a vídeos e imagens de época dos próprios, que contribui ainda mais para a familiaridade das suas histórias.

Histórias do fundo do quintal – 6/10

São três vozes que debatem a história de uma revolta, com um constante choro de bebé em fundo (será que era uma quarta voz?), enquanto a câmara percorre espaços no fundo do quintal (novo ponto de interrogação), com demasiada pretensão.

No final, o Coro da Achada imprime uma força interessante ao filme (a única, talvez), ao som de Semana Sangrenta, a versão portuguesa de La semaine sanglante, de Jean-Baptiste Clément e Pierre Dupont, que fez agir alguns elementos do público, cantando ao mesmo tempo. Se a alguns espectadores fez agir, a mim não me convenceu.

A curta-metragem foi dedicada pelo realizador a Manuel António Pina, falecido ontem.

O Pão que o Diabo amassou – 7.5/10

Em competição para a melhor longa-metragem portuguesa, este filme leva-nos até à aldeia de Adsamo, uma daquelas aldeias que julgamos perdidas no tempo e no espaço.

José Vieira volta à procura de respostas, de memórias da infância onde o seu pai nasceu. Passam as quatro estações na aldeia sem que muita diferença se faça sentir. O pão que o diabo amassou, conta-nos um habitante da aldeia, experienciou-o a sua mãe, dizia-lhe. Contam-se histórias de outros tempos, tempos de privação, fome e dificuldades extremas. O trabalho era árduo e, é-nos dito como uma verdade absoluta, “o trabalho fode-nos o corpo”.

As pessoas cantam pelas respostas de outrora, partilham histórias dos tempos duros e afirmam as relações à terra que os impediram de se afastar por muito tempo.

Roman Polanski, a Film Memoir – 8/10

Andrew Braunsberg, amigo e produtor do realizador, filma uma conversa que tem com Roman Polanski quando este está em prisão domiciliária, depois de ter sido preso em Zurique, em 2009.

Voltamos à infância do realizador, no gueto de Varsóvia, durante a ocupação alemã, a forma como viu os seus amigos serem levados pelos nazis e, mais tarde, como perdeu a sua mãe, levada para um campo de concentração. Um período que o marcou para sempre e que se reflecte integralmente no filme O Pianista que lhe valeu um Óscar. Depois da guerra terminar, explica como se inicia na realização de filmes, depois de ser rejeitado como actor. Estão presentes os seus sucessos e fracassos de início de carreira, em Londres. Inevitavelmente a conversa passa por Sharon Tate, a mulher assassinada pelos seguidores de Charles Manson. Numa época mais conturbada, Roman Polanski envolveu-se com uma menor, tendo sido acusado e mesmo preso, fugindo depois dos Estados Unidos para a Europa novamente. Continuando a afirmar-se como realizador, conhece a actriz francesa Emmanuel Seigner, com quem continua até hoje.

Uma conversa entra amigos que é filmada, é como se constrói o filme, alternando com imagens das principais obras do realizador assim como fotos de família. Desenvolvem-se as histórias, com calma e franqueza e percebemos o diferimento entre a a imagem que os media passam do realizador e a imagem que este passa de si mesmo.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.