Teve ontem início a 10ª edição do Doclisboa. Na sessão de abertura, que esgotou, passou A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata. A inaugurar a secção Riscos, uma surpresa anunciada por Augusto Seabra no início da sessão: a exibição da curta-metragem 2084, de Chris Marker, antes de Age is… de Stephen Dwoskin. Esta secção presta este ano homenagem a estes dois cineastas, que morreram recentemente, assim como a Marcel Hanoun.

2084 – 8,5/10

 Curta-metragem de Chris Marker que de antecipatória não tem apenas o título. Feito em 1984, passados 100 anos do movimento sindicalista em França, o filme com cerca de 10 minutos, oferece mais perguntas do que respostas sobre o mundo em que vivemos, a sociedade e as imagens.

 Já em 1984, o realizador conseguiu antever problemáticas com as quais lidamos hoje, relacionadas com o vídeo e, mais concretamente, com o fim da película. As imagens e o corpo fundem-se em determinados planos, quando são projectadas nos braços dos protagonistas. As formas e ideias dos anos 80, traduzem-se numa escala de cores conforme o que significam – cinzento, preto e azul – intercaladas com perguntas ao cidadão comum.

Os media, o vídeo, a política, as ideologias, a sociedade e as máquinas são transmitidos numa visão tão pessoal e que é ao mesmo tempo tão universal e actual. “No fundo, o século XX não existiu. Ele não foi senão uma longa e interminável transição entre a barbárie e a cultura.”, resume o robô de 2084.

Age is… 7/10

Stephen Dwoskin propõe-nos neste filme uma meditação que pode ser apropriada e subjectivada por cada um de nós sobre os conceitos de envelhecimento e a beleza nesta fase da vida.

A intimidade que marca os filmes do realizador está aqui presente nos grandes planos dos documentados e de pormenores que os caracterizam. A singularidade de cada um, em cada ruga, olhar ou movimento, é plenamente captada, assim como o tímido beijo em frente às câmaras.

O ritmo ao longo de todo o filme é lento – é lento o ritmo das pessoas, é lenta a forma como a câmara se move e é lenta também a Natureza, quer seja através do rio que corre calmamente ou das folhas que abanam devagar com a passagem de uma brisa.

Um filme que nos deixa à espera de um pouco mais mas que sem dúvida faz justiça à memoria do realizador.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.