O Dia do Juízo Final é um thriller psicológico que retoma, como vários críticos já disseram, a célebre questão: Será que os fins justificam os meios?

Yusef, outrora conhecido como Steven, afirma ter colocado três bombas nucleares no coração dos Estados Unidos, gravando um vídeo para o efeito onde mostra os dispositivos. Rapidamente o vídeo começa a circular pelos meios de comunicação e o seu resultado é viral, causando o pânico de muitos, sobretudo quando as bombas estão programadas para explodir em apenas três dias.

Ao mesmo tempo que toma conhecimento da situação, a Agente Brody do FBI e a sua equipa são destacados para colaborar com as forças armadas num local secreto onde já se encontra Yusef que entretanto havia sido capturado. Em colaboração com o pouco ortodoxo Henry, terá de interrogar o terrorista e descobrir a localização das bombas antes que seja tarde demais.

Antes de tudo, é crucial avisar que este filme não é para os estômagos mais sensíveis: cenas de tortura são uma constante ao longo da trama, pelo que se é uma pessoa que se impressiona com facilidade o melhor é ficar em casa.

A nível temático, O Dia do Juízo Final tem uma abordagem forte e realista (será?) acerca dos métodos de interrogatório usados para extrair informações. Se, no início, os militares apenas expõem o prisioneiro a banhos de água fria, quando Henry assume o controlo o caso muda de figura e assistimos à completa selvajaria e alienação dos direitos humanos. Todos (público e próprias personagens) ficamos chocados com as formas de tortura que são impingidas a Yusef: chega a ser doloroso assistir a certas cenas. Sempre que Henry se ausenta da “sala do terror”, a Agente Brody tenta consolar o prisioneiro, insistindo para que este acabe com o seu sofrimento e revele a localização das bombas.

A par das sugestões mais evidentes, existe também uma leve linha simbólica e política no desenrolar da ação, assumindo o papel de crítica aos comportamentos de “quem manda” que, no fundo, acabam por não decidir nada. O facto de o interrogador ser negro, pode também levar a pensamentos de hegemonia de raças e a uma irónica troca de papéis: neste caso é o escravo africano – representado pelo negro – que subjuga o senhor branco e americano. Daí, talvez, a fúria incontrolável que em certos momentos toma conta de Henry.

Carrie-Anne Moss interpreta a Agente Brody, a única mulher no meio de um elenco maioritariamente masculino, e que, ainda para mais, tem um papel de poder superior em relação aos restantes. Sem grandes flutuações na personagem, a sua hombridade é que nos acalma e faz-nos pensar que tudo acabará bem. Samuel L. Jackson na pele de Henry acaba por ser uma incógnita: ora o herói, ora o vilão, ora o herói outra vez. Não há como saber de que lado é que está.

Contudo, o motor de toda a trama reside num único e extraordinário personagem: Yusef. Michael Sheen é quem manda: todos os twists da ação são provocados por si, a própria mudança de comportamento dele é um elo fulcral para a manutenção do suspense e do final surpreendente.

Sem grandes apontamentos técnicos, o filme não tem grande oscilação de planos, apresentando uma imagem muito limpa e plana, sem grandes variações na perspetiva visual. O foco da ação reside na sala de interrogatórios, onde o realizador brinca com o factor luz/sombra e utiliza esporádicos, mas bem empregues closes a Yusef e à sua expressão sofrida e aterrorizada.

No fim, a resposta fica sem ser dada, originando um desfecho ambíguo e incerto, o que nos coloca na posição de decidir a premissa referida no início: Será que os fins justificam os meios? Eu acho que – parafraseando o título original – It’s unthinkable!

7.5 /10

Ficha Técnica:

Título Original: Unthinkable

Realizador: Gregor Jordan

Argumento: Peter Woodward

Elenco: Carrie-Anne Moss, Gil Bellows, Martin Donovan, Michael Sheen, Samuel L. Jackson

Género: Drama, Thriller

Duração: 97 minutos