Depois do primeiro bom dia de [email protected]’12, chegava o segundo dia, completamente imaculado em azeitice. Num dia onde iriam subir ao palco Cartola’s Band, Tua, TFAAUAV, Union Sounds e Quim Barreiros, estava prometido o forrobodó. Num claro incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas (era necessário esvaziar o stock), a música passaria para segundo plano e acabei por optar por me quedar em casa, numa tentativa de regenerar o fígado para os dias que se avizinhavam. Depois de ter revisto o This Is England, filme do grande Shane Meadows (também realizador do exímio Dead Man’s Shoes) e que conta, na sua banda sonora, com a presença de uma cover de Please, Please, Please Let Me Get What I Want, original dos grandes The Smiths, acabei por me ir deitar com a bandeira de Portugal na mão.

Depois do serão bem passado em casa da noite anterior, aproximava-se o terceiro dia de [email protected]’12. Neste dia, iriam subir ao palco Coelho Radioactivo, Paus, Os Azeitonas, Hallux Ft. Marcus e Dj Didz. À imagem do primeiro dia, a escolha para cabeças-de-cartaz do dia 3 do evento dava-me vontade de chorar. O principal nome do dia, para a organização, seriam Os Azeitonas, o que, por muito custoso que seja, até se percebe: neste momento, e apesar de (quase) ninguém conhecer a discografia deles, gozam de uma popularidade estrondosa junto de muita gente, tudo fruto de um daqueles fenómenos que me transcendem: o fenómeno Ídolos, que os catapultou da banda de “Quem és tu, miúda?” para a banda de Anda comigo ver os aviões e de “Quem és tu, miúda?”. Só.

O primeiro nome a subir ao palco foi Coelho Radioactivo, alter-ego de João Sousa, que nos apareceu acompanhado pela sua banda. Tendo recentemente lançado Estendal, o seu primeiro longa-duração (podem ler, aqui, a crítica do Espalha Factos a Estendal), confesso que estava com muito boas expectativas para o concerto deste jovem cantautor português. O início do concerto não poderia ter sido melhor, e deu-se ao som de Cover Me (Slowly), música que serve de introdução ao álbum Microcastle, dos sempre muito apetecíveis e fantásticos Deerhunter. Estava, desde logo, prometido um bom espetáculo musical. Àquela hora, o recinto estava ainda praticamente deserto e os ânimos ainda estavam bastante calminhos, até para os meus lados, mas este aspecto parece que não afectou muito a prestação de Coelho Radioactivo, que, como ele disse, “estava no seu primeiro concerto do género”. Com uma sonoridade a apresentar uma textura bastante apetrechada por suaves traços psicadélicos, os traços folk da música de João Sousa nunca se esvaíram e edificavam uma agradável e conexa ponte entre a pop e o rock. A nível vocal assombravam-me lembranças de nomes como, por exemplo, o mestre Sérgio Godinho, que é, por certo, uma influência para Coelho. Com a escolha de músicas a incidir maioritariamente em Estendal, era evidente a alegria com que João Sousa e a sua banda estavam a tocar e facto é que essa alegria estava a ditar um belíssimo concerto.

A alegria era tanta que o pedal da bateria acabou por se partir. Enquanto não havia bateria, o Coelho Radioactivo acabou por improvisar e nos tocar um dos seus temas mais antigos, num belo momento puramente folk. Cantava para um professor, dizendo “és uma besta”, enquanto, um dos meus amigos, que se encontrava junto de mim, me dizia que era sobrinho desse mesmo professor. Já com um pedal novo, o concerto prosseguia para o seu fim, sempre com uma atitude bastante enérgica da banda, que foi conseguindo captar as atenções do público. À medida que o concerto cavalgava para o seu fim, o recinto ia-se enchendo de pessoas, que, julgo, se iam apercebendo que tinham chegado com alguns bons minutos de atraso. O concertou desenlaçou-se com Coelho Radioactivo a despedaçar-se em agradecimentos a quem esteve por lá para assistir ao seu concerto. Depois do belo espetáculo proporcionado pelo jovem aveirense, estou certo que ali reside um enorme potencial da música portuguesa. Um nome a quem devemos estar bem atentos (podem começar a atentar nele através da sua página de Facebook).

Seguidamente à coerente e boa prestação de Coelho Radioactivo, chegava a hora de começar a abastecer os depósitos. Não sendo importante onde, era começar a empinar umas boas quantidades de cerveja e afins, porque seguidamente iriam-nos ser arremessados Paus e ninguém, no seu perfeito juízo, queria sair do meio do concerto da banda lisboeta para beber uns copos. Com rapidez, o Espalha Factos deu um salto à barraquinha mais próxima, fez as suas compras, e foi directamente para as primeiras filas reservar lugar.

Passava já algum tempo da meia-noite quando o quarteto subiu ao palco do [email protected]’12. Àquela hora, o recinto já se encontrava bem composto. Foi sob uma enorme ovação que a banda de Hélio Morais (que tinha estado no [email protected] dois dias antes, com os Linda Martini), Joaquim Albergaria, João Shela e Makoto Yagyu foi recebida. Sempre com a sua sonoridade bastante original e peculiar, lançaram-nos às feras com Lupiter Deacon, tema de É uma água, o primeiro registo lançado pela banda. Avassaladores e dotados de um som incrivelmente poderoso, a setlist deste concerto fez uma viajem por É uma água e Paus, o longa-duração homónimo da banda (bem, não dava para ir arranjar temas a mais lado nenhum). Com um público bastante interventivo, sempre a bater palmas e a puxar pela banda, ia-se estabelecendo uma ambiência mui agradável e como ainda não tinha sido vista no [email protected]’12. Hélio Morais brincou e disse que “Isto de actuar depois de um dia de Quim Barreiros, é tudo muito mais bem-disposto”. Falar em Quim Barreiros rima com Malhão, e foi-nos tocada a quinta faixa do disco homónimo da banda. Seguidamente chegou um dos pontos altos da noite, com Deixa-me Ser, uma das músicas mais conhecidas do público e que é uma faixa com índices altamente dançáveis. O concerto continuou a um ritmo estoicamente inquebrável ao som de temas como Muito Mais Gente, Língua Franca ou Descruzada, um dos meus temas favoritos da banda.

Sempre com um baixo “maior que a tua mãe” a ser muito bem meneado, com umas teclas saltitantes que te “fazem sentir coisas” e com uma bateria siamesa a ser incessantemente violada pelas batidas demoníacas da dupla composta por Hélio Morais e Quim Albergaria, os Paus estavam a provar-nos o porquê de serem considerados, neste momento, uma das melhores bandas que existem por solos lusos. Enquanto se sentiam saudades de Ocre e se gritava desmedidamente para que se tocasse a mesma, a banda respondeu em Tronco Nu e disse-nos que só haveria tempo para mais uma faixa. Hélio Morais, sempre com a sua habitual boa disposição, atirou-se para o crowdsurfing, tal era a simbiose que se estava a estabelecer entre o público e a banda. Pelo Pulso ditou o fim de um exímio concerto.

No fim da soberba prestação de uns endiabrados Paus, era tempo de fazer a maratona pedonal pelo recinto à procura da cerveja mais barata (um jornalista não pode querer vender só com as mentiras, também tem de ser verdadeiro). Depois de empinar umas quantidades incognoscíveis de álcool, era agora tempo para verter outras tantas quantidades alcoólicas para a goela (sim, é a mesma coisa). Tudo para que Os Azeitonas não me soassem tão medianos e para avivar a esperança de poder dançar e “curtir” ao som da banda d’Os Aviões.

Àquela hora já tudo se deparava com alguma cegueira, com toda a gente a radiar felicidade, tal como se quer num [email protected]. “I was happy in the haze of a drunken hour”, diria Morrissey, vocalista dos The Smiths. E eis que Os Azeitonas subiam ao palco, para a explosão de alegria de muita gente que por lá andava. Depois de terem começado o espetáculo, fui até lá fora apanhar um pouco de ar e ver se encontrava uns amigos. Acabei por encontrar o Coelho Radioactivo e dar-lhe os parabéns pela boa prestação e dizer-lhe também que podia ter tocado Agoraphobia, o tema que se seguia a Cover Me (Slowly), no alinhamento de Microcastle, um dos grandes dos Deerhunter. Depois disso e de finalmente ter encontrado alguns dos meus amigos, acabei por me deparar com um sujeito que trazia vestida uma camisola de Velvet Underground & Nico, o célebre álbum dos The Velvet Underground. Disse-lhe que estava bem trajado. A conversa fluiu e perguntei-lhe se gostava de The Smiths e Jeff Buckley, ele disse-me prontamente que sim e concordámos que o The Queen is Dead era um mimo, o Hatful Of Hollow era um mimo ao quadrado e que o Grace era uma “cena de génio”. Depois de coisas que realmente interessam para o intelecto de uma pessoa, lá me resignei com a vontade dos meus amigos em ir ver Os Azeitonas.

Com uma sonoridade bastante plastificada, com uns lirismos a fazerem jus ao prefixo do nome da banda e com um recinto inundado em azeite (principalmente as filas dianteiras, local a quem nem tentei ir com medo de me deixar contagiar pelo fenómeno), Os Azeitonas iam dando um concerto alegre, sempre com uma fusão entre a rock e a pop. Menos bons ao vivo do que em estúdio, as tropas comandadas por Miguel Araújo, captavam as atenções de uma ponta à outra: tudo queria saber deles, mesmo quem não engraçava com eles (que o diga eu). Sempre com uma mesmice inerente à transição de faixas (bem, de facto, parecia que só mudava a letra), o clímax do concerto chegou inicialmente com “Quem és tu miúda?”, que é a única faixa deles onde reconheço algum valor. Numa faixa bem pensada, muitíssimo alegre, com uma ponte francamente bem edificada entre a rock e pop, cantarolava-se de uma ponta à outra. E dançava-se, também. Depois de uma série de músicas que ninguém, ou quase ninguém, quis saber, terminava o concerto. Evidentemente, vinha dali um encore, pois num concerto de Azeitonas não se tocar Anda Comigo Ver os Aviões, era uma bronca em pêras. Passado pouco tempo, a banda regressava ao palco e eu deixei-me ali plantado (bem, as minhas capacidades motoras eram já escassas) a praticar o masoquismo e a ouvir a balada dos Aviões. Depois da dor, o fim, e o concerto dava-se por terminado (acho que a sequência foi esta).

Depois do fim do espetáculo d’Os Azeitonas, pouco existe para relatar. Ou poucas são as memórias do que existe para relatar. Como já disse anteriormente, conseguir assimilar tudo num local onde a cerveja atinge preços de saldo é como encarnar Tom Cruise numa qualquer Missão Impossível. Contudo, ainda houve tempo para assistir a Hallux Ft. Marcus, uma dupla de DJ’s que mesclavam azeite e forrobodó brasileiro, tudo ingredientes indispensáveis para se dançar. Quanto a DJ Didz… sim! Bem, não. Na verdade, nem sei. Não fui, nem vi, mas estava lá.

Terminava assim um dia de extremos. Desde a pseudo-surpresa proporcionada pela magnífica actuação de Coelho Radioactivo e da sua banda à mesmice musical, a que o público aderiu em massa, d’Os Azeitonas, desde o maravilhoso e desconcertante concerto dado pelos Paus à festa azeiteira e loucura que Hallux Ft. Marcus nos deram, foi um dia positivo de [email protected]’12. Era agora tempo de descanso, pois anda restavam mais dois de festa.

Fotografia: Afonso Ré Lau

Texto: Emanuel Graça

Agradecimentos, novamente, para o grande e incontornável Afonso Ré Lau 

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945