Linhas de Wellington tem percorrido o país com a presença parcial do elenco. Coimbra recebeu no passado dia 8, cortesia do Teatro Académico Gil Vicente, o filme de Valeria Sarmiento, apresentado pelos atores Nuno Lopes e Soraia Chaves e o produtor Paulo Branco.

A ideia de criar Linhas de Wellington surgiu originalmente do cineasta chileno Raoul Ruiz, falecido em 2011, que chegou a iniciar a pré-produção do projeto. A convite de Paulo Branco, Valeria Sarmiento, companheira de Ruiz, sentiu na pele a obrigatoriedade de dar continuidade àquilo que o marido havia iniciado há alguns anos atrás, em forma de homenagem.

A obra de Sarmiento conta um pedaço histórico de Portugal de tanta importância que, um pouco à semelhança de toda a nossa História, acaba sempre por não ser imortalizada, passando apenas de memórias, o que se estende inevitavelmente ao grande ecrã. 27 de setembro de 1810 é a data que dá início à narrativa, aquando da derrota das tropas francesas, lideradas pelo marechal Massena, pela mão do exército anglo-português do general Wellington. No entanto, vitoriosos, portugueses e ingleses retiram-se na tentativa de atrair as tropas inimigas a Torres Vedras, localidade onde Wellington construíra linhas fortificadas com uma limitada probabilidade de serem derrubadas. Enquanto isso, o comando anglo-português cumpre a missão de evacuar todo o território preenchido entre o campo de batalha e as linhas do general, tornando-o impossibilitado de ser aprovisionado por parte dos franceses, que não teriam outra hipótese senão ir ao encontro de Wellington.

É altamente importante, desde logo, esclarecer que este está longe de ser um épico de guerra ilustrado por heróis. Este é sim um retrato de homens, mulheres e crianças, indiferenciados pela idade, que se veem atirados para um cenário sanguinário, o «inferno na Terra», como algures é dito, onde jamais desejariam pertencer.

Linhas de Wellington é uma das experiências mais assombrosas e intimistas que é possível vivenciar desde há algum tempo, sobretudo porque, muito embora seja uma coprodução luso-francesa, é quase possível afirmar que é um produto do nosso Portugal, inteiramente filmado por cá e grandemente protagonizado pelos nossos. Trata-se de uma obra, incrivelmente bem escrita, que prima pelo equilíbrio narrativo durante as suas extensivas duas horas e meia de duração. Apesar das inúmeras figuras, algumas puramente fictícias e outras reais, é difícil encontrar aquela com a qual não sentimos significativa empatia e/ou intimidade. Para além de que, aqui, todas as personagens têm exatamente o protagonismo que merecem e que lhes é exigido para a ligação e o desenvolvimento da história.

Entre o nosso vasto elenco, vemos Nuno Lopes, José Afonso Pimentel, Soraia Chaves, Adriano Luz, Victória Guerra e Albano Jerónimo – com destaque especial para Lopes e Guerra –, ao lado dos internacionais de luxo Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Isabelle Huppert, Michel Piccoli, Chiara Mastroianni e o incontornável John Malkovich, que tantas vezes trabalhou com Ruiz.

É inevitável pensar o que seria Linhas de Wellington dirigido pelo cineasta, tal como originalmente foi pensado, mas é também perfeitamente seguro afirmar que seu legado foi bem entregue. Valeria Sarmiento deu seguimento e limou as arestas a um projeto de que Ruiz, seguramente, se teria sentido orgulhoso. Um pequeno grande pedaço de História de imensa qualidade para referência futura que fazia falta ao Mundo e, sobretudo, aos portugueses. Dá vontade de acreditar que Linhas de Wellington é o início de uma era em que, finalmente, poderemos ver a nossa tão rica e poderosa História adaptada ao grande ecrã.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Linhas de Wellington

Realizador: Valeria Sarmiento

Argumento: Carlos Saboga

Elenco: Nuno LopesJosé Afonso PimentelSoraia ChavesAdriano LuzVictória Guerra, Albano Jerónimo, John Malkovich, Catherine DeneuveMathieu AmalricChiara Mastroianni

Género: Drama, Histórico, Guerra

Duração: 180 minutos