Cenas da vida conjugal é a adaptação do texto de Bergman em cena no Teatro Nacional D. Maria II. Pela mão do autor convidado António Pedro Marques, o Espalha-Factos deixa um olhar sobre esta peça.

João (Adriano Luz) é professor universitário, Mariana (Margarida Marinho) é jurista; são casados há dez anos e têm duas filhas pequenas. Os dois abrem a primeira cena com uma pouco convincente encenação de prosperidade material e emocional burguesas, criada para uma jornalista (Paula Mora) que os entrevista na qualidade de casal-modelo.

João, de blazer e cruzar de perna académicos, pomposo, paternalista, rapidamente abandona a conversa e deixa Mariana a sós com a (sua amiga) jornalista, que aproveita para introduzir perguntas às quais Mariana vai (não) responder com insegurança suficiente para arrancar um pedaço da máscara. Perguntas acerca, por exemplo, da infidelidade, tema que vai rapidamente reaparecer, e com consequências incendiárias para a relação.

Nas cena seguinte, que João apresenta por uma pequena janela na quarta parede, são apresentados embates aparentemente inócuos entre marido e mulher. Há queixumes atirados ao ar sobre as respectivas mães, cuja tirania dos jantares de domingo Mariana tenta contrariar (sem sucesso). Há um cansaço físico (o cansaço do “nine to five”) a promover um cansaço mental, espiritual e afectivo. Aparentemente, nada de novo no reino da conjugalidade; mas João, sempre sarcástico, algo frio também, abre aqui algumas brechas graves que Mariana parece não (querer?) ver –“estamos quase a ficar cansados” um do outro, diz, premonitório.

E João é misógino e espicaça Mariana. Relativiza sentimentos, foge a perguntas demasiado importantes para não terem resposta: é uma criança cansada. De Mariana, nervosa, por vezes incoerente, intui-se um declínio sexual já tendente para a frigidez (“eu não desejo nada”; ou veja-se a fuga, para procurar os filhos, ao início auspicioso de uma relação sexual). Na terceira cena, a imaturidade emocional de João vai ter uma manifestação quase grotesca, quando, perante o anúncio da gravidez de Mariana, reage de um modo incrivelmente frio, quase por teimosia. Numa decisão tão basilar como é a de ter um filho, não há entendimento entre o casal, e João é incapaz de dizer com clareza que não faz qualquer tenção de vir a ser pai pela quarta vez. Duas semanas depois, um aborto, previsível.

Até à quarta cena, portanto até ao intervalo, não fiquei particularmente impressionado nem com o texto nem tampouco com a prestação do duo, assim como da encenação, por arrasto. Adriano Luz foi demasiado grandiloquente num tipo de texto que o desaconselha; a toada de parada-resposta não foi conseguida, ou foi até boicotada por Adriano Luz, em momentos em que parecia fazer sentido existir. Margarida Marinho esteve num plano superior, mas o momento de interacção com Paula Mora foi francamente mau, com tempos de reacção a fazer lembrar as minhas próprias prestações enquanto actor (muito amador e nada amado).

Em relação a Solveig Nordlung tenho algumas reservas, hipotéticas dada a minha ignorância da língua sueca, quanto à tradução. Particularmente nesta primeira parte da peça, há muitas expressões e sintaxes que não surgem nunca num diálogo entre duas pessoas íntimas, e que acabam por fazer a trama andar um pouco aos tropeços. Bergman também não está totalmente isento de culpas na folha acusatória: a reacção de João na terceira cena é bastante inverosímil.

De qualquer maneira, as sementes do mal foram lançadas e já pegaram, e é para mostrar isso mesmo que serve a primeira metade da peça, de ritmo mais baixo. A partir daqui, Bergman introduz sem pudor a artilharia pesada, e o palco vai tornar-se numa passerelle de defeitos e ridículos íntimos. Na casa de campo, qual ilusão desfeita de idílio pastoral de fim de semana, João diz a Mariana que se apaixonou por Paula e que vai no dia seguinte partir com ela para Paris, em estadia prevista de sete meses. Ora é excessivamente violento na sua frontalidade, ora tenta emendar-se de maneiras risíveis (“apaixonei-me por Paula, mas ela nem é nada de especial”). Está confuso e envergonhado. Já Mariana reage num desespero humilhante: se a um tempo grita, a seguir oferece-se, submissa, para fazer a mala a João (que, repitamo-nos, acabou de anunciar que vai abandonar a família por outra mulher). Insiste que João lhe descreva a amante, que lha mostre; insiste em fazer-se desmoronar por completo, tanatinamente. Assiste-se a um autêntico linchamento emocional, e, agora sim, os talentos de Adriano Luz e de Margarida Marinho começam a mostrar-se, e com afloramentos de magistralidade.

Até ao final vamos assistir a uma sucessão de humilhações, retornos, fugas, incoerências, gritos, confissões, choro… E os dois vão manter um equilibrado tête-à-tête para provar qual é mais imaturo e cruel. João regressa e deixa-se inferiorizar perante Mariana, que o humilha com evidente prazer. Voltam a ter sexo, traindo os respectivos amantes, e de seguida agridem-se fisicamente. Deturpam o passado para poderem espetar a adaga mais fundo. Manifestam desejos sinceros de assassinato mútuo. São, em suma, dois farrapos cuja baixeza moral faz qualquer criança mimada parecer ter decorado a Metafísica dos Costumes.

O epílogo também não é redentor para nenhum dos dois: acabam juntos (em adultério) mas só a amnésia emocional apaga a violência do que se passou, nunca a capacidade de perdão. João e Mariana, como aliás é deixado claro em muitos momentos da peça, estão inevitavelmente destinados um ao outro; é forçoso que se mantenham em órbitas mútuas, por maior que seja o sofrimento que daí advenha.

Uma nota para a cenógrafa Ana Paula Rocha, que representa bem o seu papel: sóbria, minimal, a decoração de cena passa despercebida e deixa que o foco pouse onde deve: sobre o texto e sobre o par.

E no fim, desce o pano e sobra-nos uma triste verdade universal que, porém, traz aposto o bálsamo para continuarmos a suportar o fracasso quotidiano: apesar de ninguém saber muito bem o que raio anda cá a fazer, por vezes “aqui, no meio da noite, eu realmente existo e aperto-te nos meus braços”.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

Texto de António Pedro Marques