Oriundo da região norte do nosso país, o Coelho Radioactivo (pseudónimo de João Sousa) tem vindo a afirmar-se, nos últimos anos, como um dos mais promissores cantautores da música alternativa cantada em português. Depois de dois EP’s (o singelo ep1, de 2009, e o de “versões” Para Adivinhos, de 2011), o artista decidiu estrear-se em 2012 nos LP’s. Estendal, o primeiro longa-duração de Coelho Radioactivo, foi lançado no mundo virtual a 22 de Setembro, e é dele que vamos falar hoje.

Apesar de apenas ter tomado conhecimento da existência do Coelho Radioactivo no ano passado, a verdade é que quando ouvi o seu primeiro registo, o ep1, senti que as canções ali presentes mostravam um artista com grande potencial. Por isso, e porque também apreciei aquilo que o Coelho foi lançando depois disso (mais propriamente, o Para Adivinhos, a participação na compilação 20 anos de Ruptura Explosiva e a psicadélica sporting de braga conseguiu uma sólida vitória), confesso que fiquei com grandes expectativas para um novo disco do cantautor. E depois de ouvir este Estendal, não posso dizer que tenha ficado desiludido; apesar de não ser uma obra perfeita, a estreia em LP do Coelho Radioactivo é um autêntico mimo.

Quem conhece o percurso de João Sousa sabe que este é um artista um pouco “bipolar”: se nos discos ouvimos um lado mais folk e acústico da sua música, nas suas actuações ao vivo, onde é regularmente acompanhado pelos seus Plutónios, não é incomum sermos presenteados com versões bem mais enérgicas, mais próximas do território indie e folk rock, e que chegam a “roçar” as jams mais psicadélicas que saíram dos anos 70. Curiosamente, uma das primeiras coisas a notar em Estendal é o corte com este status quo, com as duas facetas, à partida antagónicas, a coexistirem no disco e, de certo modo, a complementar-se em algumas das peças mais dinâmicas. Ainda que o lado mais folk do Coelho Radioactivo continue a ser predominante, esta evolução é, a meu ver, um passo significativo.

Também no departamento da produção e do tratamento de som, que esteve a cargo do Coelho Radioactivo em conjunto com João Coração e Rafael Silver, podemos encontrar uma das mais significativas melhorias deste LP. É de louvar a evolução na qualidade de som, que é tremenda quando comparada com a do ep1; em Estendal, nota-se uma sonoridade muito mais “verdadeira”, onde os instrumentos respiram melhor e deixam de parecer “enlatados”. Isto, aliado à “rugosidade” conferida pela falta de “maquilhagens”, overdubs e outros truques de pós-produção, faz com que o disco tenha uma estética muito honesta e autêntica que me agrada bastante.

Ao nível das letras, em Estendal vemos presente uma mistura de um abstraccionismo e de tons mais bucólicos com temas mais introspectivos e amorosos, bem alinhavados por uma capacidade notável de contar histórias sórdidas e caricatas de maneira simples e singela. Quanto ao departamento vocal, o registo grave de João Sousa aparece geralmente como um sussurro gentil que serve na perfeição à lírica do cantautor e ajuda a envolver o ouvinte no ambiente do disco.

Contudo, não posso dizer que Estendal seja um disco perfeito, pois infelizmente existem alguns detalhes negativos que não me agradaram muito. A encabeçar a lista de defeitos está, a meu ver, a falta de um tema ou conceito de base que unifique as canções à sua volta. Isto faz com que, em alguns momentos, o álbum pareça um pouco disperso e solto, tanto ao nível lírico como ao nível da sonoridade. Isto, a juntar a alguma inconsistência que se faz sentir em alguns dos temas, é o suficiente para tirar algum do brilho de Estendal, mas não ao ponto de o impedir de ser um grande disco.

Quanto a escolhas individuais, devo apontar a cristalina Mensagem Para Ursos, a dinâmica Perséfone, a envolvente O Porteiro, a surpreendente São Pedro do Sul e a apaixonante Todo Esse Pó como as minhas peças favoritas do LP. Quanto aos pontos negativos, Olha Que Tarde, Coelho e Vida de Pirata são, a meu ver, as canções mais desinspiradas que encontrei em Estendal, e que revelam alguma da inconsistência acima referida.

Resumindo, com Estendal o Coelho Radioactivo traz-nos uma das mais belas estreias em formato longa-duração que este ano já viu. Com a sua forma muito própria de fazer alternative folk, João Sousa assina neste álbum uma colectânea de canções que o reafirmam como uma das grandes promessas da nova música pop nacional. É certo que, aqui e ali, existem alguns deslizes que impedem este disco de ser perfeito. No entanto, ao olhar para o quadro geral, não tenho dúvidas a afirmar que este Estendal é uma autêntica pérola.

Nota Final: 8.1/10

Fotografia de capa da autoria de Joana Polónia

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945