Ontem à noite, o espaço do Lux Frágil em Lisboa recebeu os You Can´t Win Charlie Brown (YCWCB), em concerto de homenagem à banda norte-americana dos anos 60 The Velvet Underground. O alinhamento comportou as 11 faixas do álbum The Velvet Underground and Nico, todas composição de Lou Reed

Quem ia já sabia para o que ia. Percebeu-se desde início que a generalidade do público presente era fã. Houve quem lá estivesse para recordar The Velvet Underground; houve quem lá estivesse mais por YCWCB; e houve ainda aqueles que, conhecendo as duas bandas, quiseram matar a curiosidade e desvendar qual seria o resultado de uma fusão entre 2012 e 1967. Vou ter de me antecipar e dizer que resultou, em boa verdade, numa harmonia exímia.

Um cacho de bananas no topo de uma coluna foi o que mais se aproximou da presença real dos The Velvet Underground, em alusão à capa do álbum a ser homenageado. Não seria, contudo, dessa forma que mataríamos a fome.

Sunday Morning abriu a primeira brecha no véu. Foi precisamente a sensação de acordar a um domingo de manhã que pairou sobre a sala, um bem-estar diferente mas simultaneamente estimulante. Tornou-se imediatamente inequívoca a versatilidade invejável que os YCWCB impregnam em cada uma das interpretações, à semelhança do que fazem também nas músicas do seu repertório de originais. Durante cerca de uma hora foi a isto que se assistiu: o que agora era baixista passa a ser teclista, o que era teclista vira guitarrista e o guitarrista afinal assume as rédeas do baixo.

 

The Velvet Underground extrapolaram a comercialidade da sua era, tanto que o seu estilo marcadamente experimental não singrou, por falta de adeptos, ou de oportunidades. Os YCWCB esforçaram-se para reproduzir fidedignamente esse vanguardismo. Uma guitarra com apenas três cordas (as mais agudas) e o recurso a uma baqueta para substituir a famosa palheta são exemplos da preocupação com o minimalismo e da obsessão com os arranjos inovadores e detalhados. Estranhamente, dois conceitos tão discrepantes como minúcia e minimalismo estiveram presentes em praticamente todas as músicas. Isto porque, à sonoridade bucólica de alguns efeitos se aliou, muitas vezes, uma compilação de truques inovadores e floreados instrumentais.

Talvez pela acutilância e pelo arroteamento embebidos nas letras de The Velvet Underground and Nico, se tenha, por vezes, denotado um quê de promiscuidade e balbúrdia em alguns refrãos e passagens. O teclado, comummente conotado com uma função mais pacificadora no meio da música e uma carga de modéstia, desviou-se sucessivamente da escala-mãe para criar um caos ordenado.

Run Run Run, There She Goes Again I’ll Be Your Mirror foram os melhores exemplos de afasia no lado da plateia, que se limitou a admirar atentamente a audácia dos YCWCB e, no fim, a aplaudir prostrada. Estes fecharam com um encore da sua autoria, Over the Sun Under the Water. Se por acaso não soubesse de antemão que este tema não fazia parte do álbum dos The Velvet Underground, corria o risco de o presumir. Os YCWCB foram uma escolha acertada para protagonizar um concerto desta índole. Sentiu-se que estavam como peixe na água, talvez porque tenham ido beber muito do seu carácter aos norte-americanos. Esperemos que, 45 anos mais tarde, o filme não se repita e a banda portuguesa veja o seu mérito viabilizado.

Fotografias por Débora Lino.