Foi entre os dias 2 e 6 de Outubro que decorreu o [email protected]’12, evento que serviu de recepção aos novos estudantes da Universidade de Aveiro. Como é hábito num evento universitário, o cartaz da edição deste ano da festa aveirense vincava a sua intenção em agradar especialmente às massas e, também, de criar o ambiente do forrobodó em torno da festa. Com o selo de qualidade da Mega Hits, a qualidade do cartaz oscilava entre três pólos: aquele maioritariamente constituído por azeite, o pólo comestível e o pólo muito bom.

Em termos organizativos, este [email protected] ficou aquém das minhas expectativas, notando-se um evidente amadorismo por parte da sua organização. Desde a selecção de bandas à sua distribuição pelos dias do evento, desde os inúmeros relatos de pedidos de credenciais de imprensa que não se obtiveram qualquer tipo de resposta às inúmeras falhas técnicas de som que ocorreram durante todo o “festival” (entre muitos outros factores), tudo contribuiu para que a minha opinião acerca desta equipa estudantil que fermentou o evento não seja a melhor. Contudo, reconheço o seu enorme esforço e dedicação e só tenho a agradecer por bandas como Linda Martini, Paus e O Bisonte terem constado na edição deste ano do evento. Mas como não estou aqui para fazer agradecimentos, vamos ao que realmente interessa: a música.

Em dia de aulas, o tempo parecia querer parar a cada segundo, fomentando o ávido desejo em ver o nome que mais me enchia as medidas deste cartaz: os Linda Martini. Era já terça-feira, dia 2 de Outubro, dia em que se daria início ao [email protected]’12. Incompreensivelmente e, até, ridiculamente, os cabeças-de-cartaz para este dia seriam os Blasted Mechanism, banda que nos faria viajar até outro planeta (não pela sua música, mas sim pelos seus extravagantes trajes). Ainda neste dia, subiam ao palco O Bisonte, Johnwaynes e Xicobe. O Espalha-Factos chegou ao recinto, montado junto do Estádio Municipal de Aveiro, já em cima da hora do concerto d’O Bisonte, banda que teria a tarefa de abrir o evento.

A última ocasião em que tinha visto a banda encabeçada por Davide Lobão havia sido em solo de bons vinhos e boas comidas (É Bairrada, é Bairrada, é Bairrada), mais concretamente no Rock’Art 2012. Se em Anadia a banda tinha provocado um autêntico furacão, por solos Aveirenses só não o fez porque o público não se demonstrou disponível para tal. Com uma casa ainda timidamente despida, foi para pouca gente que O Bisonte soltou a sua pujança, garra e omnipresença. Com uma setlist bem escalonada, balbuciaram-nos ruidosamente temas como, por exemplo, Bandidagem, Laia ou Matilha dos Tristes. Sempre com uma sonoridade crua, musculada e apoiada num hard-rock abrasadamente frio, foram rubricando um senhor concerto e captando a atenção dos curiosos que iam chegando ao recinto. No seio do poderoso som da fera, reside um irreverente, desafiante e exuberante Davide Lobão, que teima em parar um segundo enquanto está em cima de palco.

Sempre a debitar manguitos para o seu horizonte enquanto parafraseava a sua revolta contra o sistema e contra os políticos que “comem tudo e não deixam nada”, citando Zeca Afonso (mítica figura da cultura Portuguesa que, curiosamente, nasceu em Aveiro), o concerto caminhava para o seu fim, mas dentro da fúria de um Bisonte, existe sempre espaço para temas mais dóceis e calmos e tocou-se uma cover de Depois do Adeus, música original de Paulo de Carvalho. Não foi com esta música que encerram o seu concerto, mas, sinceramente, num sítio onde a cerveja atinge preços de saldo é bastante difícil conseguir assimilar tudo o que por lá se passou. Dito isto, O Bisonte acabaram por assinalar um excelente concerto, dando bom presságio para o resto da noite e cimentando, na minha opinião, que são um dos nomes portugueses a quem mais devemos estar atentos (a faixa Esqueleto concorda comigo) e que se superam ao vivo.

Depois da selvagem prestação d’O Bisonte, era tempo de refrescar os ânimos. As soluções eram imensas: desde os shots refrescantes que iam sendo servidos na barrada de Medicina à sempre tão apetecível cerveja que se ia empinando na tão afamada barraca do curo de Engenharia Civil (há que puxar a brasa à nossa sardinha e, convenhamos, falamos, pois claro, do melhor curso). Como num espaço tão grande visitar somente uma barraca sabe a pouco, fez-se uma maratona pedonal por todo o recinto, roubando minutos às horas e, deste modo, encurtando o tempo que restava para o concerto dos tão aguardados (pelo ser que redige o que estão a ler) Linda Martini. O tempo teimava, ainda assim, em não passar e o Espalha-Factos foi para as filas dianteiras reservar o seu lugar.

E eis que o quarteto lisboeta subia ao palco. Foi sob uma tremenda ovação que a banda de Hélio Morais, André Henriques, Pedro Geraldes e Cláudia Guerreiro (aqui alarguei-me nos assobios e na efusão, confesso)  voltou a subir aos palcos aveirenses (e que saudades que a terra já sentia deles). Sem se apresentar (convenhamos, dispensam quaisquer tipo de apresentações), o quarteto debitou-nos, de imediato, Dá-me a tua melhor faca, um dos seus maiores êxitos. Foi com o público em coro que se parafraseou a tão célebre passagem “Dá-me a tua melhor faca p’ra cortarmos isto em dois”, sempre com uma parte do público presente a prestar culto àquela que é uma das melhores bandas portuguesas da actualidade (na minha opinião, é mesmo a melhor). Foi um início absolutamente frenético e fantástico e estava dado um excelente presságio para o resto do concerto. A um ritmo fulminante, a banda lisboeta foi pescando dos seus dois LP’s para condimentar a sua setlist para este concerto: foram servidos, maioritariamente, temas de Casa Ocupada, mas, porém, a banda não descartou o tão salubre Olhos de Mongol e tocou-nos quatro faixas desse mesmo registo (incluindo a já referida Dá-me a tua melhor faca).

 

 

 

 

 

 

 

Sempre com a sua sonoridade bastante própria e com um público interventivo, cantando (quase) sempre em coro, (mas, infelizmente, não muito), foi ao som de temas como, por exemplo, o tão afamado Amor Combate, Belarmino e O amor é não haver polícia que se foram edificando os pontos altos do concerto monstruoso que os lisboetas estavam a rubricar. Já galopando para o fim do espetáculo, chegou-nos Cem Metros Sereia, uma faixa que chama intensamente pelo público. O público não se armou em esquisito e cantarolou exaustivamente e até à rouquidão (culpa dos Linda Martini que prolongaram por “horas” esta música) o refrão. Foi ali uma eternidade no “F*der é perto de t’amar, se não ficar perto!” e ainda hoje as minhas cordas vocais sofrem com isso, que lástima. Era expectável que o concerto se desenlaçasse ao som de Cem Metros Sereia (foi, durante muito tempo, com esta faixa que os Linda Martini encerraram os seus espectáculos), mas tal não aconteceu. Quando tudo já previa o desfecho daquele que foi, logo ao primeiro dia, o grande concerto do [email protected]’12, a banda lisboeta sacou da cartola para nos brindar com uma Ameaça Menor, ditando o fim daquele que foi um concerto irrepreensível. Um concerto desconcertante, esquizofrénico, nostálgico e que já deixa saudades. Um concerto dado em solo Aveirense, já com bastante tempo de atraso.

Posteriormente à excelente prestação dos Linda Martini, restava fazer tempo e ir bebendo (novamente) alguma coisa para refrescar os ânimos até que Blasted Mechanism subissem ao palco. Na verdade, nunca quis muito saber dos Blasted e, agora, depois de ter visto o concerto, acho que nem nunca vou querer saber. Com o estatuto de cabeças-de-cartaz, a banda, mais célebre pelos seus trajes do que propriamente pela sua música, conseguiu ter uma casa bastante bem preenchida, com uma moldura humana de dimensões bem maiores que nos dois primeiros concertos da noite.

 

 

 

 

 

 

 

 

Com uma setlist a repescar e alternar entre um “best of” e os êxitos mais recentes, houve tempo para um mosh (ou pseudo-mosh, convenhamos) e para os fãs mais vincados da banda se encavalitarem nos seus amigos e cantarolarem a par de Guitshu, vocalista da banda, as músicas verso a verso. Com toda uma Blasted Generation a assistir ao concerto, a banda sentia-se em casa e o espírito vivido era bastante agradável, apesar de, na minha opinião, a música não o ser de todo. Com uma sonoridade muito repetitiva e com uma infinidade de ilustres conhecidos a atormentarem-me a alma para dar um pé até à má vida, lá tive de abortar a operação Blasted Mechanism quando esta já caminhava para o seu fim, para minha felicidade.

Seguidamente, vinha a frescura de Johnwaynes, um dos nomes que mais (me) interessava da noite. Com uma sonoridade a residir na electronic music, foi possível assistir a texturas nu jazz e a um broken beat a emergir de um som que nos invadia de vontade de dançar. Sempre com uma presença electrizante, a dupla aveirense composta por Jepe e MrBeat, foi cativando a vasta quantidade humana que teimava em não desertar do primeiro dia do [email protected]’12 e foi, pouco a pouco, edificando uma prestação muito positiva. Um nome da música electrónica portuguesa a ter em conta, por certo.

Posteriormente à boa prestação por parte de Johnwaynes, actuou Xicobe. Acho que tudo o que existe para dizer se resume a isso, pois não há lembranças de muito mais. Com uma musicalidade a residir num dub… bem, assim não resultará. Foi um bom concerto (diz o mito).

Numa noite onde Blasted Mechanism ganharam o público, Linda Martini puxaram dos galãs e deram, como era de esperar, um concerto exímio, O Bisonte soltou a sua raiva e não deixou ninguém (de quem, àquela hora, por lá andava) indiferente, Johnwaynes meteu toda a gente a dançar e Xicobe… sim!, ficou demonstrado que a festa iria ser feita durante toda a semana, sem paragens, e que quem no dia seguinte não comparecesse no recinto (dia que iria contar com a prestação das tunas universitárias e de Quim Barreiros) iria ser apelidado de “caga na saquinha” para todo o sempre. Foi este o mote dado por muita gente. Entretanto, era tempo de descanso.

Fotografia: Afonso Ré Lau

Texto: Emanuel Graça

(Agradecimento ao enorme e incontornável Afonso Ré Lau, pelas fotografias disponibilizadas.)

*Artigo redigido ao abrigo do acordo ortográfico de 1957